sexta-feira, janeiro 27, 2012

social, até certo ponto

fui almoçar com um amigo, publicitário, que há bastante tempo não via. 
almoço agradável. se fosse um ser publicitário como os outros, diria agradabilíssimo. publicitário, não sei se você sabe, adora os superlativos e hipérboles - principalmente no que diz respeito ao seu talento e seu salário. referência sempre maior ao talento do que ao dim-dim propriamente dito.aliás quanto menor o talento, maior a hipérbole sobre o excesso de e nunca sobre a falta de, isto em sua auto-crítica. não posso dizer que seria assim inversamente proporcional, porque existem realmente os talentosos, que ainda assim, ou talvez por causa disso mesmo, não dispensam a hipérbole. deve ser por isso que durante muito tempo falou-se que o melhor negócio do mercado era comprar um publicitário(ou homem de marketing, primo filho de casamento entre primos de primeiro grau) pelo preço que ele vale e vendê-lo pelo preço que ele acha que vale. os poucos publicitários modestos que conheci, traziam a modéstia no sobrenome de família ou no apelido, na maioria das vezes jocoso. e os que realmente eram, não o são mais: ou porque morreram ou porque deixaram a profissão. quanto a mim, a modéstia me impede de fazer qualquer comentário. quanto a ele, deixemos por conta da sobremesa que ficou para outro dia, quem sabe daqui a mais um ano.

mas voltemos ao almoço. agradável como disse. e talvez porque o ambiente nos lembrava um país que tanto gostamos, e onde trabalhamos por parte significativa de nossas vidas, não foi um almoço cusco. traduzindo o termo : onde não ficamos a dizer mal de ninguém(quer dizer não tão mal); a coscuvilhar a vida dos outros, a sexual principalmente; não nos deixamos levar pelas futricas e baixios de uma profissão que cada vez mais se presta a comentários, digamos assim, desniveladamente construtivos, tal o alto-nível baixo praticado à sorrelfa, e a descoberto, num exercício de auto-combustão que é hoje a atividade. publicitário adora falar mal de publicitário. isto não é novidade, o falar mal, em nenhum tipo de atividade. mas publicitário, claro, adora falar mal pensando que só ele faz isso. e que ninguém faz tal melhor do que ele. estando em pernambuco, deve-se acrescentar: ninguém no mundo melhor do que ele.

voltando mais uma vez ao almoço, além das recordações e saudades sinceras da terrinha, incluindo principalmente as gastronômicas e paisagísticas, servidas com os comentários entristecidos sobre a definhada economia portuguesa, que já do nosso tempo era franzina, apesar das loas - na época - a entrada do portugal claudicante e suplicante a comunidade européia, o que quase já nos faz mais portugueses do que os joaquins e manueles e nos quases-quases mais do que o dono do restaurante, por aqui há décadas. a ponto de já ter-se tornado por demais brasileiro. o que sentimos no sotaque, não da língua, mas no verdadeiro calão( sim, calão é gíria ou palavrão, lembram da expressão luso-brasileira, palavras de baixo-calão?)que é transformar o outrora bolinho de bacalhau referencia em batatatau por excelência, no que deixamos recado ao próprio e não a ementa, quer dizer no cardápio. isto acabou por render reminiscências também sem lágrimas de parte-a-parte, e boas risadas que apesar de boas não as deixamos barato a preencher a falta de bacalhau nos bolinhos - se tívessemos visto a conta antes, com certeza não nos ririamos tanto. e já agora, mais uma vez, entendemos porque ele se ria bastante mais do que nós, e da nossa autêntica bestialidade em contar anedotas onde os parvos são eles, os portugueses, e não nós, que sempre achamos sempre e sempre que estamos sempre a levar vantagem, até sobre nós mesmos, quando a história mostra que não é bem assim, mesmo hoje quando portugal embica a proa - não se esqueçam que quem é do mar não enjoa.

isto posto, falamos sobre o futuro, o que com certeza também nos diferenciou da malta do presente que tem uma certa experiência no só ficar no passado pra trás. e como o futuro a zeus pertentece, hora do batente, para ele, pra mim do dormente, nos despedimos. e o almoço só não foi completo porque não finalizamos com um bom expresso - que não há em recife, por mais que se vangloriem as deltas de cá - e um moscatel, que é coisa de quem sabe que o vinho do porto só vai até certo ponto da garganta em seco.

abraços sinceros e uma despedida onde improviso provocativo: voltei recife, foi a desgraça que me trouxe pelo braço( a truca só vale para quem conhece o hino da volta ao recife, argh!) gargalhamos e assim como começamos o almoço, nos despedimos com a amizade preservada até o próximo almoço que quanto mais distante melhor.

almoçassemos nós todos os dias e seríamos inimigos, sequer cordiais. a natureza humana do publicitário não vai além disto.


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