quinta-feira, janeiro 05, 2017

ambiética



a primeira lei* do ser humano é manter-se vivo - a tal lei da sobrevivência. quiçá deveria ser manter-se ético, sejam quais forem as circunstâncias.
esta linha existencial, perpassada de cerol, é quase insustentável, num mundo onde o fracasso dos números(ou a vitória) destrói a ética, normalmente aquilatada pelos mesmos números. presumo que a pior derrota é ter ambições pobres - ser concursado, por exemplo - e uma ética mais pobre ainda.

os homens deveriam ser medidos, não por suas vitórias, ainda que cheias de ética. mas por aqueles que não perderam a ética, fosse qual fosse a situação. loas ao fracasso? 

resta o consolo- até quando tão pobre de marré-marré ? - de que no brasil alguns homens continuam sendo derrotados, não por seus defeitos, mas por suas virtudes.


* imagino que a segunda lei do ser humano deva a de ser feliz ou continuar tentando, o que cada vez mais é raro. e vem a pergunta, filosofastra, talvez, de que adianta estar vivo e não ser feliz? para alguns, a coisa se resume ao de que adianta estar vivo e não ter dinheiro. já sabemos que dinheiro não traz felicidade. mas ajuda a comprar, retrucam. mas que tipo de felicidade? a que tenta transforma bijuteria em joia rara ? 

quinta-feira, dezembro 08, 2016

para os futuros (e presentes) aposentados, fudidos e mal-pagos, que não sabem que " está sobrando (muito) dinheiro na previdência" *

                                                 


Especialistas desmentem números que anunciam rombo na previdência
“As pessoas não vão aceitar. Se elas tiverem acesso a essas informações, não podem aceitar isso”. A frase é da economista Denise Gentil, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A indignação que ela aposta que mobilizará a maioria da população brasileira é com a proposta de uma nova reforma da previdência, que o governo em exercício promete apresentar e aprovar no Congresso Nacional ainda este ano.
As informações que alimentariam essa recusa são simplesmente a negação de tudo que você lê e ouve diariamente nos jornais: na pesquisa feita para sua tese de doutorado, Denise mostra, com dados oficiais, que o Brasil não tem nenhum rombo na previdência social. Mais do que isso: anualmente, sobra (muito) dinheiro no sistema público que hoje garante aposentadorias e pensões a 32 milhões de trabalhadores.
Até agora, o ‘otimismo’ da pesquisadora em relação a uma ‘grita’ da população tem razão de ser: segundo a pesquisa ‘Pulso Brasil’, realizada pelo Instituto Ipso em junho deste ano, nos 70% de desaprovação do governo Temer, a forma como o interino vem atuando em relação à reforma da previdência é o que tem a maior taxa de rejeição (44%).
O fato é que, como resposta à crise econômica, uma nova reforma da previdência vem sendo desenhada desde o ano passado. Ainda no governo da presidente Dilma Rousseff, foi criado o Fórum de Debates sobre Políticas de Emprego, Trabalho e Renda e de Previdência Social, que produziu um relatório de diagnóstico mas não chegou a apresentar ou apreciar propostas.
Após o afastamento temporário da presidente, o governo interino teve pressa: montou um novo Grupo de Trabalho, com a participação de quatro centrais sindicais — Força Sindical, União Geral dos Trabalhadores (UGT), Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB) e Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST) —, além da Associação Nacional de Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) para encaminhar o tema.
Na primeira reunião, o governo interino apresentou o seu diagnóstico. Na segunda, as centrais entregaram propostas para aumentar as receitas da previdência. No dia 28 de junho, aconteceu o terceiro e último encontro. Nele, os ministros interinos encaminharam a substituição desse grupo por outro mais reduzido, agora com a presença de um representante da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que até então não vinha participando das negociações, um integrante do governo interino e um porta-voz dos trabalhadores (Dieese).
Antecipando medidas de "economia" que atingem diretamente a previdência, o governo interino emitiu, no dia 7 de julho, um Medida Provisória nº 739/2016 que dificulta ainda mais o acesso ao auxílio-doença e à aposentadoria por invalidez.
Entre as mudanças implementadas, está a interrupção automática do benefício no prazo de 120 dias, obrigando o segurado a requerer a prorrogação junto ao INSS, e a criação do Bônus Especial de Desempenho Institucional por Perícia Médica em Benefícios por Incapacidade, que significará um "incentivo" no valor de R$ 60 pago pelo governo aos médicos por cada perícia realizada além da "capacidade operacional ordinária".
Antecipando o resultado das perícias que ainda serão feitas, o governo já calcula que essas medidas gerarão uma economia de R$ 6,3 bilhões anuais, às custas da diminuição de benefícios dos trabalhadores.
A proposta oficial de reforma da previdência, no entanto, não tinha sido apresentada até o fechamento desta matéria. Mas isso é apenas um detalhe. Desde o seu programa antecipado de governo até as muitas declarações de Henrique Meirelles, ministro interino da fazenda, e do próprio Temer, não é segredo para ninguém que, entre outras coisas, o governo provisório quer instituir (e aumentar) a idade mínima para a aposentadoria e restringir as regras da previdência rural.
O argumento é que, em nome do ajuste fiscal, são necessárias medidas estruturais que reduzam os gastos do Estado. E a previdência aparece destacada como o maior deles, responsável por um rombo que, segundo previsões do governo interino, deve chegar a R$ 136 bilhões este ano. Esses números, no entanto, são desmentidos por pesquisadores e entidades que se dedicam ao tema.
Contas que não batem
Por mais que a matemática seja considerada uma ciência exata, quando o assunto é a situação da previdência no Brasil, há muito tempo que dois mais dois não têm dado quatro. Lidando com os mesmos dados primários, governos (o interino e o da presidente Dilma) e estudiosos chegam a resultados diametralmente opostos.
Para se ter uma ideia, enquanto os economistas do governo provisório apontam em 2015 um déficit de R$ 85 bilhões, no mesmo ano as planilhas da Anfip anunciam um superávit de R$ 24 bilhões. E a comparação com os anos anteriores mostra que, em função do aumento do desemprego, que diminui a arrecadação, esse saldo positivo foi bem menor do que os R$ 53,9 bilhões que sobraram em 2014 e os R$ 76,2 bilhões de 2013, anos em que, do lado do Planalto, já se falava em déficit.
“O governo faz um cálculo muito simplório. De um lado, ele pega uma das receitas, que é a contribuição ao INSS, dos trabalhadores, empregadores, autônomos, trabalhadores domésticos, que é o que a gente chama de contribuição previdenciária. Do outro, pega o total do gasto com os benefícios: pensão, aposentadoria, todos os auxílios — inclusive auxílio doença, auxílio-maternidade, auxílio-acidente — e diminui. Então, isso dá um déficit”, explica Denise Gentil.
A primeira vista, pode parecer um erro matemático. Isso porque a Constituição Federal estabelece, no artigo 194, que, junto com a saúde e a assistência social, a previdência é parte de um sistema de seguridade social que conta com um orçamento próprio. Esse orçamento, por sua vez, é alimentado por tributos criados especificamente para esse fim.
Assim, diferente do que os governos fazem, na parcela de cima da conta da previdência — a receita — devem ser incluídas não apenas as contribuições previdenciárias mas também recursos provenientes da Contribuição Social Sobre Lucro Líquido (CSLL), Contribuição sobre o Financiamento da Seguridade Social (CSLL) e do PIS-Pasep.
Para se ter uma ideia da diferença que esse ‘detalhe’ faz, contadas apenas as contribuições previdenciárias, a receita bruta da previdência em 2014 foi de R$ 349 bilhões para pagar um total de R$ 394 bilhões de benefícios. Essa conta, que Denise caracteriza como “simplista”, mostra um déficit de R$ 45 bilhões — ainda assim muito menor do que o anunciado pelo governo. Quando, no entanto, se considera a receita total, incluindo os mais de R$ 310 bilhões arrecadados da CSLL, Cofins e PIS-Pasep, esse orçamento pula para R$ 686 bilhões.
Talvez você esteja supondo que o dinheiro que sobrou no orçamento da seguridade social mas faltou no da previdência tenha sido usado nas outras duas áreas a que, constitucionalmente, ele se destina: saúde e assistência. Mas essa é uma meia verdade. A soma dos gastos federais com saúde, assistência e previdência totalizou, em 2014, R$ 632 bilhões. Como o orçamento da seguridade foi de R$ 686 bi, no final de todas as receitas e todas as despesas, ainda sobram R$ 54 bilhões. E como esse saldo se transforma em déficit? Com uma operação simples: antes de destinar o dinheiro para essas áreas, o governo desvia desse orçamento 20% do total arrecadado com as contribuições sociais, o que, em 2014, significou um ralo de R$ 60 bilhões.
Na prática, isso significa que o orçamento que a Constituição vinculou, governos e parlamentos vêm desvinculando todos os anos, desde 1994. Trata-se da Desvinculação de Receitas da União (DRU), um mecanismo aprovado e renovado no Congresso a cada quatro anos que autoriza os governos a usarem livremente parte da arrecadação de impostos e contribuições, sempre sob o argumento de que é preciso desengessar o orçamento para melhor administrar o pagamento da dívida pública.
Ela acaba de ser mais uma vez prorrogada no Congresso, agora por um período mais longo (oito anos e não quatro) e com uma alíquota maior, de 30%. Segundo cálculos da Anfip, em 12 meses isso significará o desvio de cerca de R$ 120 bilhões arrecadados por meio de contribuições sociais, que deveriam alimentar o caixa da seguridade social. “Se a previdência é deficitária, o governo vai retirar 30% da onde? Como um sistema que está à beira de quebrar pode ceder 30% para outros fins que nem se precisa justificar?”, provoca Sara Graneman, professora da Escola de Serviço Social da UFRJ e pesquisadora do tema.
Por mais contraditório que seja, a DRU fornece o amparo legal para o cálculo dos governos, que contraria a garantia prevista na Constituição. Mas aqui é necessário cautela.
Primeiro porque nem com a DRU o “rombo” chega perto do que os governos e jornais alardeiam. Segundo porque, mesmo com a DRU, o orçamento continuaria positivo se os governos não retirassem outra bolada do caixa da previdência e da seguridade por meio de isenções fiscais, ou seja, tributos que deixam de ser cobrados das empresas, como forma de ‘incentivo’.
Agora mesmo em 2016, ano em que a reforma da previdência vem sendo debatida como prioridade tanto pelo governo eleito afastado quanto pelo governo interino, a Lei Orçamentária Anual, enviada pelo Executivo e aprovada pelo Congresso, prevê R$ 69 bilhões de renúncia apenas dos recursos da previdência, sem contar o conjunto das contribuições que financiam toda a seguridade social.
A simples decisão de não abrir mão desses recursos faria com que a previdência fechasse as contas no azul. “Você diz que a previdência tem um déficit de R$ 85 bilhões mas renuncia ao equivalente a 3% do PIB de receita? E depois quer que a sociedade aceite uma reforma da previdência?”, questiona Denise Gentil. 
Isso sem contar a sonegação fiscal que, segundo cálculos do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional, impediu que R$ 453 bilhões chegassem aos cofres públicos no ano passado. Em outras palavras: o déficit é produzido, não por fórmulas matemáticas, mas por opções políticas.
“Ninguém discute neste País os mais de R$ 501 bilhões que foram bastos no ano passado com os juros da dívida. Ninguém discute os mais de R$ 200 bilhões que foram gastos só para segurar a taxa de câmbio. Mas discute-se o fato de que 70% dos benefícios da previdência são de até dois salários mínimos. É uma loucura!”, diz Denise.
Sara completa: “Não é a estrutura de financiamento nem a pirâmide etária que têm problemas. O problema é a retirada de recursos. Essa é a maior pedalada que o Brasil tem”.
Concepções que não batem
Denise é enfática em afirmar que “não faz sentido falar em déficit da previdência”. E, ao dizer isso, ela não está apenas repetindo que as contas do governo estão erradas. “Trata-se de um princípio filosófico”, explica, defendendo a concepção que orientou o capítulo de seguridade social da Constituição. “A ideia é nós termos um sistema de proteção social que abrange as pessoas na velhice, na adolescência, na infância…”, exemplifica, para justificar por que essas áreas, que atendem a necessidades sociais, têm que ser geridas pela demanda e não pela oferta de recursos disponíveis.
O grande salto da Constituição foi compreender que, como sistema voltado a garantir direitos, a seguridade deveria ser “financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta”.

* por cátia guimarães, da epjsv/fiocruz, na caros amigos



terça-feira, dezembro 06, 2016

resumindo e concluindo: enquanto a globo fizer plim-plim, você top-top





Invasão de privacidade e exploração sensacionalista das emoções são traços generalizados na cobertura de grandes tragédias pela mídia. 

Porém, com a Globo há um elemento mais insidioso: depois de décadas exercendo o monopólio político e comunicacional no País, sua auto-centralidade entrou em metástase através do tautismo (autismo + tautologia). A extensa cobertura da tragédia do desastre aéreo do time da Chapecoense deixou mais explicito esse estado patológico no qual a emissora só consegue olhar para além dos muros cenográficos do Projac através de referências que faz de si mesma. 

Do “turbilhão de emoções” da narração do velório coletivo por Galvão Bueno à insistência como repórteres e locutores tiveram que demonstrar a si mesmos emocionados (chegando a fazer “selfies” com celulares), chorando e até consolados pela mãe de um dos jogadores, é como se o tempo todo repetissem: “tenho emoções, logo a tragédia é real!”. Chegando a um surreal “Efeito Heisenberg”: o global Galvão Bueno narrando o outro global Cid Moreira lendo a Bíblia com a mesma inflexão de voz com que lia as notícias do “Jornal Nacional” e narrava peripécias do Mister M. O hábito do cachimbo entorta a boca. 

Por décadas a TV Globo usou e abusou do recurso de metalinguagem (falar de si mesma) como forma de demonstração do seu monopólio e poder absoluto na comunicação social brasileira: não se limitava transmitir um acontecimento. O acontecimento era a Globo transformando o acontecimento em notícia – o repórter sempre foi o protagonista da notícia enquanto a História sempre garantiu exclusividade e pioneirismo para a emissora. A deferência como o técnico da Itália Enzo Bearzot tratou em toda Copa de 1982 o repórter Ernesto Paglia, a amizade exclusiva de Galvão Bueno com Airton Senna, a forma como praticamente a emissora salvou a cidade do Rio de Janeiro nas enchentes de 1966, a emissora que virou notícia de si mesma com o sequestro de William Waack por forças de segurança de Saddam Hussein na Guerra do Golfo, o jornalista Reginaldo Leme escrevendo o prefácio do livro do CEO da Fórmula 1 Bernie Eclestone etc. Passagens que a emissora sempre fez questão em destacar, como se a História sempre conspirasse para as câmeras da Globo. Embora mantenha seu poder econômico e político graças, entre outras coisas, ao BV (Bônus por Volume) para garantir a maior parte do bolo das verbas publicitárias, nos últimos anos a Globo vem sofrendo crescente queda nas audiências e a concorrência das tecnologias de convergência e Internet. 

Como destacamos em postagem anterior, a reação global foi abandonar a estética space opera de Hans Donner (adotando um visual mais “orgânico”, deixando o artificialismo metálico) e mergulhar ainda mais na metalinguagem como demonstração de que ainda continua poderosa e influente – clique aqui http://cinegnose.blogspot.com.br/2014/05/globo-reaje-crise-de-audiencia-e.html .




Porém, o cachimbo entortou a boca: essa obsessão pela metalinguagem entrou em metástase, resultando na patologia do tautismo – autismo + tautologia. De tanto falar de si mesma, criou o “fechamento operacional” de um sistema que se tornou obeso – a audiência já não sustenta a folha de pagamento, dependendo a emissora das gordas verbas publicitárias governamentais. De tão obesa e fechada em si mesma, simplesmente a emissora não consegue mais ver o mundo do outro lado dos muros do Jardim Botânico e da cenografia do Projac. O exterior somente é traduzido a partir de uma descrição que a Globo faz de si mesma. Ao lado das telenovelas, o futebol é prioridade comercial da TV Globo. Dona do futebol brasileiro (a ponto de “antecipar” com horas de antecedência resultado de sorteio da final da Copa do Brasil – clique aqui http://cinegnose.blogspot.com.br/2016/11/tautismo-da-globo-preve-resultado-de.html ) a tragédia do acidente aéreo que vitimou o time da Chapecoense mereceu uma extensa cobertura. Sendo o auge a transmissão de seis horas do velório coletivo em Chapecó, na Arena Condá. Para quem estuda a evolução das mídias, as transmissões ao vivo ou coberturas extensivas , principalmente de uma emissora em estado de metástase tautista, é uma oportunidade de obter flagrantes dessa tradução auto-referencial que a Globo faz do mundo.

 “Tenho emoções, logo a tragédia é real” 

 Que ao longo da evolução da linguagem televisiva os jornalistas deixaram de ser simples repórteres para se transformarem em protagonistas das notícias, não é nenhuma novidade. Porém, na Globo esse traço do telejornalismo também alcançou a metástase: as imagens por si mesmas parecem não conseguir expressar a dimensão exata da tragédia e tristeza que se abateu sobre a Chapecoense, sua torcida e o País. Repórteres e locutores devem constantemente abandonar a função referencial da linguagem para insistirem na função emotiva, centrada no receptor – só para relembrar, há seis funções da linguagem: referencial (sobre o quê a comunicação fala), emotiva (emissor), conativa ou apelativa (receptor), poética (mensagem), fática(canal), metalinguagem (a comunicação falando dela mesma).



No contexto atual da emissora é sintomática a escolha de Galvão Bueno para narrar o velório coletivo em Chapecó. 
http://cinegnose.blogspot.com.br/2016/08/galvao-bueno-do-patriotismo-ao-tautismo.html Se em 1994 o velório de Ayrton Senna em São Paulo, narrado ao vivo por William Bonner, deu um caráter jornalístico hard news para o evento, agora, com Bueno, parece que foi transferido para a editoria do jornalismo esportivo. E não foi para menos. O registro solene jornalístico foi substituído pelo “turbilhão de emoções que não para” – sem conter a emoção, chorou: “não aguento mais”, disse perdendo a voz diversas vezes na transmissão. O que fez a atenção do espectador diversas vezes concentrar-se nele, chegando a comover internautas em redes sociais elevando seu nome aos mais comentados no Twitter. É uma das características da linguagem tautista: fechada em si mesma, a imagem deve contar com redundância sígnica do emissor, da mesma maneira que o Papa Léguas tinha que sublinhar sua velocidade para as crianças (e, por isso, jamais o Coite o pegaria) fazendo “bip-bip” como buzina de carro. É como se Galvão Bueno quisesse dizer a todo momento: “vejam como estou emocionado, a tragédia é real!”. Assim como um correspondente ao vivo de Washington tem que se posicionar diante do Capitólio ou da Casa Branca para que o telespectador acredite que de fato o repórter está lá – autismo (a função emotiva supera a referencial) e tautologia (repetição na função emotiva daquilo que poderíamos ver apenas nas imagens). Resultado: infantilização da transmissão, análoga à linguagem das onomatopeias dos desenhos animados.



 “Vejam eu transmitindo, logo é verdade!” 

 A insistente centralidade no jornalista (como se ele antecedesse o próprio acontecimento) criou duas insólitas situações na cobertura dos eventos de Chapecó. Na edição do Jornal Nacional do sábado (03/11) a repórter Kiria Meurer (da RBS, afiliada à Globo) parou diante do ônibus que levaria os familiares ao aeroporto onde seriam recebidos os corpos. “Eu consegui um lugarzinho aqui no ônibus, vou acompanhar esses familiares. A partir daqui, a nossa câmera, com o nosso cinegrafista, não pode gravar. Então vou gravando com o meu celular”, disse ela - assista ao vídeo acima a partir dos 55:30 min. O auge foi quando Meurer filmou a si mesma com seu celular percorrendo a área do velório. Além da consciente invasão de privacidade (talvez um traquejo de anos de pauta sobre corrupção com câmeras secretas para mostrar corruptos amealhando dinheiro vivo – de novo o cachimbo entortou a boca), demonstra a obsessão metalinguística tautista de querer dizer sempre: “vejam eu transmitindo. Se transmito, então é verdade!”. E o segundo episódio explícito de auto-referência metalinguística foi quando a mãe do goleiro Danilo, “num momento de tragédia pessoal encontrou forças para consolar o repórter Guido Nunes da SporTV”. E termina dizendo: “numa demonstração de respeito aos jornalistas que também morreram...” - veja o vídeo abaixo.



O paroxismo de Cid Moreira
 Da metástase ao paroxismo. No ápice de um efeito Heisenberg (efeito no qual ao transmitir acontecimentos, a mídia na verdade transmite seus próprios efeitos nos acontecimentos – sobre esse conceito clique aqui) http://cinegnose.blogspot.com.br/2013/06/o-efeito-heisenberg-na-irrealidade.html, eis que vemos um patibular Cid Moreira lendo trechos bíblicos em um episódio que jamais esse humilde blogueiro poderia imaginar nos mais loucos pesadelos: Galvão Bueno narrando Cid Moreira. Jornalista e apresentador do Jornal Nacional da Globo por 27 anos, a aparição de Cid Moreira como protagonista na própria transmissão global do velório coletivo foi o sintoma mais explícito (o efeito Heisenberg) de uma cobertura na qual o tautismo foi generalizado. Nesse episódio, a Globo projetou involuntariamente a si mesma no próprio evento que transmitia. Além de comprovar como, ao longo das décadas, a emissora conseguir dominar corações e mentes, de tal maneira que a busca por conforto espiritual à tragédia veio através da inflexão da voz familiar que entrou nas casa das famílias de Chapecó por décadas – dessa vez não mais dando notícias ou narrando as peripécias de Mister M, mas lendo versículos das cartas do apóstolo Paulo aos Coríntios.



 “Nossos companheiros...

” Vinte profissionais de comunicação morreram no desastre aéreo, entre jornalistas, produtores, cinegrafista e locutores das emissoras Globo, RBS, Fox, Rádio Oeste, Rádio Super Condá. Mas somente os profissionais da Globo e afiliada RBS mereceram, desde o primeiro momento da cobertura, serem nomeados. Os restantes dos profissionais eram genericamente denominados como “nossos companheiros”. Ao longo da semana, apenas no canal fechado Globo News apresentou um infográfico objetivo com a lista completa com nome, foto e a emissora na qual cada um trabalhava. Tanto nas edições do Jornal Nacional como no Fantástico passou a ser informada a lista completa dos profissionais, porém com a evidente auto-centralização tautista que contamina a descrição que a Globo faz do mundo exterior: para cada profissional da Fox Sports citado, era destacado o período em que cada um deles havia trabalhado na SporTV, jornal O Globo, rádio Globo ou na TV Globo. Ou seja, somente pareciam merecer figurar na descrição completa por serem ex-profissionais das organizações Globo. Exploração sensacionalista das emoções e invasão de privacidade são elementos generalizados nas coberturas que a grande mídia sempre faz nas tragédias. Mas na Globo há um elemento mais crônico: seu monopólio e estrutura obesa que não mais se sustenta (a não ser através da intervenção na política nacional) criou uma patologia (auto-centralidade) que entrou em fase de metástase – o tautismo.

*globo expõe metástase do tautismo na tragédia chapecoense, por wilson moreira,no seu cinegnose,na fórum.

quarta-feira, novembro 23, 2016

não sei o que é pior: o racismo e o preconceito ou o preconceito(e a "necessidade") de para ser publicitário de elite " ter de fazer a miami ad school"

A única negra da Criação por Joana Mendes

Primeiro dia de agência, espero o Diretor de Criação para me apresentar ao resto da equipe. Enquanto aguardo, vejo subirem os que viriam a ser meus colegas de trabalho, a maioria ali é composta de homens brancos. Meu DC chega. Ele é branco, alto e tem um daqueles sobrenomes que precisam ser soletrados. Muito simpático, diz que está super feliz que eu faça parte do seu time. Vamos conhecer a Criação? Vamos.
Subimos no elevador, a agência é linda, já apareceu em revistas e mais revistas de design. Uma série de troféus estampa as paredes. Eu sempre quis trabalhar aqui. Logo, chegamos até meu andar. Enquanto caminhamos, eu vejo um homem e uma mulher negra conversando. Os dois usam uniforme de serviços gerais. Sorrio para eles, numa tentativa de me dizer negra também, mesmo que não me ponham uniformes. Sorriem de volta e abaixam o olhar.
O Diretor de Criação começa as apresentações. Aperto a mão de todos, vejo gente conhecida de outras agências e me dou conta que estou fazendo um cálculo que sempre faço. Bom, eu sei que a população que se auto-intitula negra no Brasil é de 54%. Então, todas as vezes que eu entro em um lugar de classe média, eu viro meu pescoço e vejo quantos negros têm ali, visitando, comprando, comendo, assim como eu. Negros que estão ali consumindo, não servindo. Na maioria das vezes, eu sou a única.
Quando o meu teste termina, percebo que, assim como nos espaços de elite, também não vejo nenhum outro negro na Criação. Isso não é exatamente uma novidade. A agência que trabalhava antes dessa tinha até muitos negros: entre 300 pessoas, éramos 7.
Como eu cheguei aqui? Como uma mulher negra pode ser redatora sênior num lugar que não tem mais nenhum negro?
Graças à uma vida de privilégios. A minha família faz parte do 1% dos negros de classe alta do Brasil. Nem sempre foi assim, minha avó era empregada doméstica e enfrentou um sem número de humilhações. Numa dessas, ela fez uma promessa que a sua filha não limparia o chão de ninguém. Todos os dias, a minha avó fazia questão de lembrar à minha mãe que ela era preta e que ser preto nesse país não é fácil. Ser mulher preta pode ser uma das coisas mais difíceis que você tem que enfrentar na vida.
Minha avó não sabia das estatísticas que eu sei: a cada 12 minutos uma pessoa negra é assassinada, nos últimos 10 anos, o assassinato de mulheres negras aumentou em 54%, mulheres negras ganham até 30% do valor que um homem branco com a mesma qualificação, negras são as que mais morrem por abortos, as que mais morrem no parto, as que menos estudam. Mulheres negras são a maioria da população brasileira. A minha avó sabia o que é ser negra de dentro da pele, sabia o que é ser mandada para trabalhar em casa de família com 10 anos de idade e parar de estudar, somente, por ser uma mulher negra.
Eu brinco dizendo que minha avó foi o Governo Federal da minha família, ela criou as cotas, por isso, minha mãe fez doutorado e conseguiu ascender socialmente. Por essa ascensão social, eu pude ser publicitária, uma profissão que exige que você seja privilegiado, uma profissão em que você pode demorar para ganhar dinheiro, pode fazer um estágio não remunerado, pagar uma Miami Ad School. Seus pais estão ali, pra te ajudar se você precisar. Nesse país, a maioria das mulheres negras não têm esse privilégio. Aliás, num país tão racista, a ascensão social é extremamente difícil.
Chega a hora do almoço. Um colega das antigas me chama para comer com meus novos colegas. Os papos seguem um protocolo bem conhecido: algumas palavras em inglês, novos restaurantes, novos drinks, viagens para lugares exóticos, aquela obra que fica no MoMa e a última vez que ele encontrou o Dedeco foi em Cannes. Acho engraçado quando me pronuncio sobre algum restaurante, um filme, ou quando fui Young Lions e parecem não acreditar que eu sei o que eu sei. Nada é mais novidade. Eu passei a vida inteira sabendo que uma mulher negra precisa trazer cópia autenticada em duas vias pra provar que sabe de alguma coisa. Na volta, penso no tanto de gente branca menos talentosa que eu vi crescer nos mais de 10 anos que sou redatora, o tanto de gente que teve um mestre, enquanto eu tinha que chegar pronta. Fico puta.
Alguns dias depois, meu DC chega até minha mesa e fala: Jô, você pode vir tirar uma foto? Claro que posso. Uma mulher e um homem já estão no local das fotos. Os dois são brancos de olhos verdes. Muito animado, o homem me pergunta: você sabe por que está aqui? Sem pensar, respondo: sei, ué. Por que eu sou negra. Ele emenda: é, bom…nós vamos mandar a foto pra matriz nos Estados Unidos. É importante que eles vejam que existe diversidade no ambiente de trabalho aqui do Brasil.
A verdade é que eu estou bem cansada de ser a única negra da Criação. Cansada de ter passado pela história que eu acabei de contar tantas vezes, que ela deixou de ser a história de uma agência só. Eu estou cansada de não ver outros negros nas salas de reunião, nas baias, nas faculdades e, nem mesmo, na propagandas.
Ao mesmo tempo, eu sei de algumas coisas que me dão esperança. Eu sei que existem medidas a longo prazo que podem criar uma elite negra: cotas nas universidades, nas empresas, melhoria do ensino público. Eu sei, também, que existem coisas que você pode fazer de dentro da sua agência, de dentro do seu lugar de privilégio na sociedade: veja que você é racista, encare o seu racismo, participe de eventos negros, quieto, ouvindo, aprendendo. Um dia, se vir racismo e não houver um negro que possa falar, fale. Peça mais negros dentro da equipe, um casting negro para participar daquela campanha, procure o movimento negro quando pensar em campanhas do tipo #somostodosiguais.
Quem sabe um dia, a gente não chega a ser 54% de uma agência?
Ah, aliás, eu e mais três amigos negros estamos criando uma consultoria. Traz sua conta pra cá.
(pretas na publicidade,  65/10 : a única negra na criação, por joana mendes)

quarta-feira, novembro 09, 2016

e o mundo da propaganda ficando cada vez menor* e cheio de trumps - que não o cara da foto, faça-me o favor



Um dia você vai trabalhar em propaganda, muito provavelmente numa agência.

Se você tiver a sorte de cair na criação, parabéns: sempre haverá um holofote para iluminar a sua autoestima. Essa é uma das vantagens de se trabalhar na área criativa. É lá que nascem as grandes ideias, é lá que acontece a badalação, é lá que os egos batem no teto (isso quando não explodem antes).

Por outro lado, também é na criação que se engole mais pizza: criação não tem hora para chegar na agência, não tem hora para sair, mas sempre tem uma hora certinha para entregar o trabalho. Pode reparar: quanto mais estrela o cara fica, mais gordinho, também, ele vai ficando. É o efeito pizza
.

É como uma maldição: você vai ficar famoso, vai ganhar uma boa grana, vai ganhar muitas menininhas, mas corre o risco de virar um faustinho silva antes de emplacar os 35.

Talvez você termine na mídia. É bom também. Dá o direito de deixar os caras de veículo no maior chá de cadeira. Enquanto você fica ao telefone com os figurões da Globo, a turma da imprensa nanica que se ajeite no sofá. Nessa função, você vai mexer com muita grana, e o truque é não contar que ela pertence ao cliente. E agir como se os milhões que vão para a televisão fossem todos seus.

Já imaginou o seu cartaz, chegar na namorada e mandar:
só hoje, Lili, autorizei 3 comerciais para a novela das 8 e mais 2 no Jornal Nacional. Quase 2 paus.

No atendimento, precisa tomar cuidado. Se na hora de ser contratado pedirem para você esticar os braços, é porque querem ter uma ideia de quantos layouts cabem embaixo deles. E você corre o risco de virar um leva-e-traz. Vai cansar de carregar anúncio, vai cansar da propaganda, vai cansar da vida.

Sem contar uma coisa ainda pior: numa agência em que trabalhei, fizeram a maldade de fajutar um mata-burro entre criação e atendimento. Veja que sacanagem: um lado era para os gênios, no outro ficavam os jumentos. Maldade é pouco.

Um lugar legal para ficar é na área digital. Deixe crescer uma barba de 2 dias, evite lavar o cabelo e use um tênis pedindo água (diz-se dos calçados onde a sola descolou, e eles parecem estar de boca aberta).

Sobretudo, adote o digitalês como idioma oficial do departamento. Se vier um cara do planejamento com perguntas, seja solícito:
Ô,meu, só tem 40 pixels. Vamos dar um drop-out que fica bom.

Se vier o presidente da agência, explique tudo direitinho:
Seo Sergio, são 400 hits no target. A gente dá um shut down com cross mídia, mais um enhance no set-up, não tem pra ninguém.

Se vier o financeiro, finja um desmaio. O filho da mãe vem do Ibemec.

Falando sério. Por que será que tão pouca gente faz prospecção? Conta nova é o oxigênio da agência. É a maneira mais indicada para uma agência crescer. É um seguro contra conta-que-de-repente-sai-da-agência- ninguém-sabe-porquê.

Resolvi chutar o balde. Depois de ter sido redator de várias agências, diretor de criação de quatro e sócio de outras três abri meu home-office (estava na hora) e me dedico a fazer prospecção (qualificada) e consultorias.

E capricho: quero encontrar a agência mais adequada para cada cliente. Procuro fazer o encontro entre clientes que têm potencial com agências que sabem desenvolver negócios. Casar a fome com a vontade.

Sabe da maior? A coisa começa a dar certo.

Xô, patinho feio. 

Hans Dammann
hdammann@uol.com.br    

*Prospecção: o patinho feio da propaganda? Do redator, diretor de criação, Hans dammann, falecido hoje aos 83 anos. Um dos verdadeiramente grandes da propaganda num tempo onde havia grandes bem maiores dos que hoje só ficam pela metade(menos na comissão)

domingo, outubro 30, 2016

o que dói mais? coragem ou covardia? e o que sai mais caro, capitular pela verba ou a independência aos tostões?



Sobre não seguir a corrente, não usar uma ética descartável
e não pegar todo e qualquer trabalho visando apenas faturar



“ Coragem é colocar as suas crenças acima do instinto de auto-preservação ”
— David Droga.

“ Coragem é levar o negócio (da agência e do cliente) para lugares perigosos por uma boa razão ” — esta, infelizmente, sem o autor confirmando a ausência de método por essas bandas de cá.

Já no dia 11 de setembro de 2016, de uma rara conversa com Isay Weinfeld no Festival do Clube, reservei com cuidado uns muitos aprendizados. Entre tantas coisas, Isay falou sobre a relação de confiança que precisa ser estabelecida com o cliente e o quanto ele preza por cada detalhe:

“ Às vezes se esquece que a obra é para quem pediu, não para você. Eu não projeto para mim, projeto para o outro. ”

“ 95% do meu trabalho é psicanálise. Os outros 5% são sobre pensar em tudo o que foi dito ”.

Em 2002, sem mês específico, anotei em um arquivo de Word sobre a recusa de um tatuador. Segue o evento reescrito com tintas de hoje: Certo dia, na hora do almoço, adentrei em um estúdio de tatuagem com um colega de trabalho. Eu sabia exatamente o que queria, ele não. O tatuador pediu para que cada um descrevesse o que gostaria de fazer e, em seguida, observou calmamente os desenhos já existentes nos corpos daqueles estranhos. Por um tempo, ele pareceu absorto, distante e, enfim, deu o seu parecer: tatuo você na semana que vem. Já para o cidadão ao meu lado, ele não hesitou: não vou tatuar você.
O meu amigo inflamou-se de raiva, tentou encontrar uma resposta para aquela sentença. No afã, acabou dando uma carteirada: mas eu vou pagar. E o profissional já calejado por anos de estúdio, retrucou: um trabalho que eu não acho coerente dói mais em mim do que em você, prefiro não fazer.

Distantes no tempo e nos arquivos, enxergo nesses eventos pontos que se conectam em uma espinha dorsal. Na frase de John Hegarty há uma desconstrução inusitada e verdadeira. Coragem no Keynote, todo mundo tem, mas na hora de pagar a conta, a decisão é de um lado. Respinga em todos? Respinga, mas a tinta pesa mais para o cliente. É uma reflexão que nos ajuda a rebalancear o ego. David Droga abre o leque da bravura e inclui as duas partes. É necessário, sim, enfrentar esse instinto que pode ser o do bônus garantido no fim do ano, da cadeira confortável e do salário alto, dos vícios em apostar nos mesmos formatos, nas fórmulas que deram certo para o concorrente. Coragem é sobre andar por caminhos não trilhados lembra o anônimo que estava lá e eu não anotei.
Do quase silencioso Isay, retiro a observação sobre ficar atento para que o ego de quem faz não se sobressaia ao trabalho pedido. Não criamos para nós mesmos, não somos nós que habitaremos aquele ambiente, que vestiremos aquela campanha. A boa relação parte do entendimento verdadeiro sobre o outro, do que ele precisa e carrega junto à possibilidade do não.
Do tatuador, o rigor que sublinha a importância de manter a coerência sobre aquilo que você acredita ferir os seus princípios. Não é seguir a corrente, usar uma ética descartável, pegar todo e qualquer trabalho visando apenas faturar. Das anotações, percebo que retidão também não aceita desaforo.

(retidão não aceita desaforo,do andré kassu, pica grossa da
crispin porter + bogusky brasil, in opinião no meio&mensagem)




segunda-feira, outubro 24, 2016

vinde a mim as criancinhas ?

*Publicidade infantil e os efeitos danosos às crianças: até quando?

Não é a publicidade que deve se autorregular, mas deve ser regulada de acordo com as leis
Desde a famosa propaganda dos anos 90, a publicidade infantil perdeu muito da sua inocência e hoje, liderada pela indústria de brinquedos e de alimentos, é ela o alimento perfeito para a insaciedade que ronda os nossos pequenos. E o pior: longe dos olhos zelosos dos pais, que estão na labuta! Eu conversei com um diretor de criação de agência de propaganda sobre as estratégias para fisgar a atenção das crianças, e ele confessou: criar uma necessidade na criança! Ela acreditará que precisa daquilo. Mas, ao contrário dos adultos, está despreparada para entender que precisar é diferente de querer, e se sente, na ausência do objeto desejado, deprimida nas suas condições de crescer de maneira saudável.
É por isso que, nas nações mais desenvolvidas, a publicidade infantil é praticamente banida! Vale até a contra-publicidade, como a que eu vi no aeroporto de São Paulo, onde o banner enorme com a foto de uma criança negra gordinha era um alerta contra a obesidade infantil.
Exemplos são Inglaterra, Alemanha, Canadá, e, no limite, a Suécia, país que proíbe, e não apenas restringe, publicidade dirigida a menores de 12 anos antes de 21h.
No país como o Brasil, que erotiza até garrafa de cerveja, transformando-a num corpo de mulher, a publicidade infantil – e ela é ainda mais poderosa nos canais internacionais da TV paga dedicados exclusivamente às crianças -, alicia, forja, confunde, ilude e está associada a distúrbios como transtornos alimentares e obesidade; erotização precoce, estresse familiar; violência e delinquência.
A cartilha, produzida pelo Instituto Alana, uma associação sem fins lucrativos, explica, por exemplo, que o delito mais praticado pelos adolescentes com história de delinquência é o roubo qualificado, ou seja, o desejo de agregar a si o “valor” que vê no outro. O meu amigo publicitário me dizia como um personagem de desenho infantil que as crianças adoram traz, no formato da cabeça, a angulação dos órgãos genitais masculinos, incluindo associações de cores e texturas, numa linguagem subliminar que é tão típica da propaganda, acessando partes do cérebro que vão além da consciência racional.
É esse o jogo da publicidade: despertar o mais puro desejo do consumidor com base em identidades, arquétipos e padrões pré-construídos que são ainda mais nocivos às crianças. A cartilha feita pela ONG Alana é apenas um dos produtos da corajosa campanha disponível no site www.criancaeconsumo.org.br e demonstra como o incentivo à bebida também atinge em cheio as crianças.
Os especialistas questionam: por que a propaganda do cigarro foi banida desde 2000 e a das bebidas continuam causando estragos em baixinhos e grandões, sendo hoje os fabricantes de cerveja os principais anunciantes na TV brasileira, a qualquer hora do dia? Talvez o aspecto mais preocupante nesse grande marketing infantil que se tornou a televisão, um mercado de ilusões sem limites e pudores, é a venda do conceito vazio de felicidade, tão bem traduzido pelas propagandas de margarina, com seu arquétipo de família feliz, branca, elitista, vendo a camada de margarina derreter-se num pão quentinho, numa linda manhã ensolarada numa cozinha também branquinha.
Não é a publicidade que deve se autorregular, mas a Constituição e a lei brasileira que colocam o Estado como responsável por afastar a criança e o adolescente de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, termos usados no art. 227 da Constituição. A presença de crianças em peças publicitárias também ofende a Carta Magna, que proíbe, no art. 7º, qualquer sorte de trabalho infantil. E, em que pese toda o discurso democrático da liberdade de expressão e da não censura perpetuado pelo marketing infantil e pelos donos de mídia, e o meio internet não está fora disso, a verdade é que a lei brasileira proíbe a publicidade infantil, mesmo que não o faça de maneira explícita e direta.
No exame de projetos que tramitam na Câmara sobre publicidade, é sempre remar contra a maré o esforço para tornar mais claro, por exemplo, o que está dito no art. 37 do Código de Defesa do Consumidor, que proíbe a publicidade enganosa ou abusiva, também entendida como aquela que “se aproveita da deficiência de julgamento e experiência da criança”. Mas nem a Constituição brasileira, nem o Código de Defesa do Consumidor, nem a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança são suficientes para derrubar a ofensiva publicitária voltada para as crianças no Brasil, setor este que é muito auto-regulamentado, mas que domina como ninguém as práticas de burlar as regras que ele mesmo criou, com imagens, símbolos, estratégias e narrativas tão poderosas quanto danosas na arte da persuasão ao consumo exagerado e à insaciedade perpétua.
O que chama a atenção no trabalho realizado pelo Instituto Alana é a clareza da abordagem que demonstra, sem meias palavras ou discursos dissimulados, como a publicidade infantil colabora, por exemplo, para o fato de que mais de 15% das crianças brasileiras hoje sejam obesas e 33% estejam com sobrepeso, segundo dados do IBGE. É uma realidade peso-pesado que deve ser enfrentada com alterações, sobretudo, no Estatuto da Criança e do Adolescente, que sequer traz, no corpo da lei, a palavra propaganda ou o conceito de publicidade.
Quando a gente entende que o mais perverso é o fato de que estão mais expostos à publicidade infantil justamente os filhos das famílias de menor poder aquisitivo, que passam mais horas na frente da televisão, o enfrentamento do tema torna-se ainda mais urgente: sem falsos discursos de censura e sem perpetuar a falácia da liberdade de expressão, que na verdade se traduz na plena liberdade para explorar as ilusões infantis, num mundo da fantasia que a publicidade domina como ninguém.
por beth veloso, jornalista e consultora legislativa da câmara dos deputados nas áreas de comunicações, ciência e tecnologia, para o portal vermelho,via caros amigos.

terça-feira, outubro 18, 2016

o(s) bonequinho(s) não gostam

Filme de Costa-Gavras relata a origem comum dos estados autoritários e como se dão as coisas neles: decide-se dar à polícia carta branca para atuar.

Há filmes que de tempos em tempos devem ser revistos. Permanecem sempre novos e universais. São os verdadeiros clássicos. Assim como ocorre com livros aos quais se recomenda várias leituras ao longo da vida, algumas produções políticas do diretor grego Constantin Costa – Gavras, naturalizado francês, de 83 anos, são clássicas. Z (de 1969), A Confissão (1970), Estado de sítio (72) Amém (2002)  e Seção especial de justiça, de 1975.
 
Mesmo na mais frívola irresponsabilidade, com esses filmes fica mais difícil ignorar a origem comum dos estados autoritários e como se dão as coisas neles. Desenha-se, nos filmes de Costa-Gavras, o processo de deterioração do caráter dos protagonistas da vida pública que sucumbe ao sofrer repulsivas torções e distorções, ou diante de pressões e ameaças políticas e policiais - veladas ou não -, ou face à chance, de repente aberta, de legalizar o assalto ao poder. 
 
Section speciale, co-produção França, Itália e Alemanha, oferece uma régia lição sobre o assunto, com os diálogos magistrais do escritor Jorge Semprún, comunista militante do Partido Comunista Francês, de primeira hora da época, assim como foi seu companheiro Costa-Gavras. Ele mostra a naturalidade das tenebrosas transações que ocorrem no mundo sombrio manipulado pelos donos ilegítimos do poder, nas ditaduras e nos estados de exceção – como o que está vigente no Brasil sob ocupação, hoje: um Estado de Exceção dentro do Estado de Direito, como disse há dias o jurista Pedro Serrano.*
 
No caso do filme, o cenário é a França ocupada de Pétain em agosto de 1941 e nela a justiça colaboracionista: ministros germanófilos, juízes hipócritas, promotores e procuradores subservientes,  advogados indiferentes, os carreiristas e os dissimulados; traidores e covardes de todos os tipos e calibres.


Para a corja, o fantasma da época foi o ‘’abismo da Espanha’’ quando era preciso evitar, a todo custo, que a França escorregasse para ele. O inimigo eram os anarquistas, comunistas e gaulistas. “Simpatizantes dos  partidos de esquerda,” um procurador conselheiro da corte especial alveja, no filme, à semelhança do ministro da justiça do momento, aqui,  mais preciso ao dizer: eles são ‘‘a escória da terra.”
 
A certeza nesse ambiente era a entrada dos exércitos alemães em Moscou, breve.
 
Enquanto membros do governo francês cultivavam pompas e vaidades na estação de águas de Vichy, em Paris jovens estudantes comunistas resistentes praticavam um atentado, no metrô, e matavam a queima roupa um alto oficial da marinha alemã nazista. A retaliação foi imediata. Para a punição exemplar, os alemães decidem fazer uma centena de reféns na cidade e decapitá-los na Plâce de la Concorde. Mas são dissuadidos e lembrados da guilhotina em praça pública, um dos emblemas da revolução de 1789.
 
A partir do episódio, a narrativa do filme segue desvendando as manobras do submundo jurídico para a criação fulminante (todas as medidas excepcionais devem ser promulgadas com rapidez para deixar atônita a população) de uma corte especial que julgasse resistentes e presumíveis maquis, em um tribunal de exceção com tintas de legalidade - a section speciale. Seis presos seriam escolhidos entre comunistas, judeus ou comunistas judeus acusados de pequenos delitos. Julgados a portas fechadas. Á sua revelia eles estavam previamente condenados à pena de morte.
 
Decide-se dar à polícia carta branca para atuar. A lei de exceção, por ser como tal, era retroativa. ‘’São medidas que servem à situação, mas não à Justiça,’’ reagem alguns juristas renitentes. Em seguida serão convencidos e cooptados. 
 
“Jogamos a Justiça na ilegalidade e a vergonha sobre a magistratura,” bradam. “Não. Trata-se de promover a ‘’salvaguarda nacional’’, replicam os que procuram comprar para si a boa consciência. “Aqui, não se trata de Justiça”, argumentam. “Vamos salvar cem reféns e para isto precisamos de seis condenados à morte.”
 
No início, alguns juízes ensaiam resistir à promulgação da lei antiterrorista que permitirá condenar qualquer um a qualquer hora. 
 
O leitor observa semelhanças? 
 
“A razão de estado deve ditar as decisões jurídicas,’’ justifica a si mesmo um magistrado. E prosseguem a farsa e a burla do julgamento até que um dos réus, (já condenado sem o saber), Sampaix, jornalista do jornal L’Humanité, órgão do Partido Comunista Francês, o PCF, decide mostrar que o rei está nu.”O povo francês julgará este dia,” diz. 
 
Em certo momento das discussões a incerteza bate à porta de um dos procuradores. “E se os alemães atolarem na profunda Rússia e os americanos chegarem às costas da Inglaterra?” Os demais tergiversam.
 
No fim de Seção Especial de Justiça os seis presos escolhidos entre a ‘’escória’’ das esquerdas são executados. Uma legenda informa: “Na Libertação, nenhuma medida séria foi tomada contra os magistrados que participaram dos tribunais de exceção. Eles funcionaram durante toda a ocupação.”
 
Todos aqueles juristas da section speciale, no entanto, foram julgados pelas suas próprias consciências, como anteviu Sampaix, o jornalista do L’Humanité, olhando-os cara a cara, diante da corte de exceção, recusando o embuste da defesa.




* O  jurista Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional da PUC-SP lembra que ‘’no caso Lula, o TRF-4 assumiu que está praticando a exceção, que a Lava Jato é um caso excepcional e, portanto, devem ser suspensas as normas gerais no caso, para o juiz atuar como queira. A Lava  Jato não precisa seguir as regras de processos comuns.” ( Rede Brasil Atual).
 
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(leis de exceção e a vergonha da magistratura, por léa maria aarão reis, jornalista, na carta maior)