quarta-feira, março 15, 2017

os caras do (neuro) marketing - e do google e do facebook - não vão gostar

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O que convence um cliente – e um consumidor, são os feromônios da paixão.

Perceber que suas mãos, suas pernas e seu tino atendem à sua vontade e não ao navegar imprevisível dos sonhos, é um alívio. Mas cada vez que ele, seu ego, quer botar a cabeça para fora da maré do mundo e dos outros, não basta reafirmar essa vontade, é preciso entregar-se, vulnerável e inocente, ao imprevisível. À paixão.
O ego e a paixão são os doces venenos que te arrancam da cama, todos os dias.
A comunicação, apesar das pretensões e das invenções, é uma das mais inexatas das faculdades humanas. 80% é ótimo, mas se cair nos 20%, é ruim.
Podemos fazer todas as pesquisas do mundo, todas as previsões possíveis, invocar tendências, fazer cálculos preditivos com os mais extraordinários computadores, ainda assim – e ainda bem – toda mensagem depende de quem comunica e de quem interpreta.
Portanto, a quantidade de variáveis é enorme e incontrolável: e se meu produto? E se meu concorrente? E se meu chefe? E se meu público? E se o governo? E se São Pedro? E se o chefe do meu chefe? E se?
Quando um cliente entra numa sala de reunião, ele finge o tempo todo: finge saber, finge gostar e finge não gostar. Mesmo que ele esteja sentado numa pilha de números irrefutáveis-mas-nem-tanto.
Pois o trabalho de um publicitário, o verdadeiro trabalho, não é de levantar hipóteses irrefutáveis-mas-nem-tanto. O trabalho do isso-e-aquilo é o sintoma da pior coisa que um publicitário pode ser: o evangelista do consenso.
Mas o ego afirmativo é condição necessária mas não suficiente.
Na vida, podemos terminar todas as nossas conversas com um “te amo” e encher nossas mensagens de pontos de exclamação. Podemos também decorar fórmulas de ênfase, carregar de superlativos e clichês nossos argumentos. Mas as palavras são pobres traduções das emoções.
Um olhar, um gesto ou um silêncio podem ser muito mais eloquentes que mil emoticons e vídeo-cases. Comunicar-se não é uma questão de semântica lógica. Não é uma questão da tradução técnica de códigos.
Comunicar-se é uma questão de energia. O publicitário do se-isso-então-aquilo é a segunda pior coisa que ele pode ser: o matemático da obviedade.
O que convence um cliente – e um consumidor, são os feromônios da paixão.
* ao trabalho do publicitário, no webinsider, do fernand alphen

quinta-feira, março 09, 2017

vulgar, eu ? inocente ? pior ainda


Resultado de imagem para publicitários inocentes
Costuma-se classificar, para simplificar, toda mensagem com objetivo comercial, de propaganda apesar de todas as suas variantes, que vão do mais ficcional dos enredos ao mais prosaico dos apelos racionais.
Mas também podemos tentar inverter o ponto de vista. Por exemplo, o entretenimento, também tem suas graduações e pode ir do conteúdo mais artístico e puramente experimental até o mais explícito dos veículos de consumo.
O jornalismo pode ser puramente documental e exploratório ou flagrantemente ideológico e manipulador, com todos os tons de cinzas (mais comuns) intermediários.
Se, da noite para o dia, a indústria de petróleo deixasse de existir, o mundo entraria em colapso. Se, da noite para o dia, os bancos, as companhias aéreas, deixassem de existir, idem.
Mas se um gênio maroto decidisse que todas as agências de propaganda iriam desaparecer repentinamente, muito pouco mudaria: os estúdios, as emissoras, fariam propaganda, os escritores criariam títulos, roteiros e textos, os fotógrafos, imagens e o mundo seguiria até o dia em que alguém resolvesse inventar o já inventado.
Talvez, o drama da propaganda como profissão ou negócio, seja precisamente sua falta de identidade.
O exercício de inverter os focos, mesmo que puramente teórico, pode ser esclarecedor sobre algumas das principais motivações e frustrações da indústria da propaganda.
Em outras palavras, o publicitário vive em permanência um problema de identidade insolúvel porque convencionou-se chamar de “boa propaganda” aquela que emociona e “má propaganda” aquela que explica.
Ou, “boa propaganda” aquela que entretém e “má propaganda” aquela que martela. Até porque, tanto a “boa” quanto a “má” propaganda vendem.
O trabalho de um publicitário – ou o de seu contratante, o cliente, o marketing – é decidir, ao longo do processo de elaboração do seu trabalho, quantas camadas de distrações, digressões, metáforas, ornamentos, ele irá colocar por cima do objetivo definido, sempre muito vulgar.
Mas esse processo nem sempre é consciente e assumido, porque é boa prática fazer precisamente o contrário: começar pela ideia, inocente, desinteressada, pura, sensorial e emocional, para encapsular em algum momento um ricochete, escorregão, sutil lapso comercial.
Um publicitário seria, portanto, aquele cara que coloca graça e elegância naquilo que não tem e insere vulgaridade e pragmatismo naquilo que é só beleza, luxo e volúpia.
Não é fácil sair do armário para assumir uma identidade, ao invés de ficar nesse desconfortável papel de se fingir ora poeta, ora trator.
*fernand alphen, no criação do webinsider

domingo, março 05, 2017

puta sacanagem com as coxinhas! eu disse com as coxinhas e não com os coxinhas

are you talk about me ?

a direita intempestiva - e a cristalizada, de tenra e média idade - ganhou a alcunha de coxinhas, por parte daqueles a quem os coxinhas costumam chamar de petralhas, para não citar outros adjetivos mui pouco pátrios.

puta sacanagem com as coxinhas ! logo elas que, salvo as de "batatalhau" e as abduzidas aos sabores surubas - suruba hoje está na moda desgovernamental que se apresenta ai como governo - charque, requeijão, bacon, presunto, muçarela, nutella miolo mole e sabe-se lá mais o quê(existem mais de 50 combinações, até de brigadeiro com morango. argh(devia ser a logomarca do psdb) - são umas "pessoinhas" de raiz mui crocantes e que vão bem com todas as tendências que dão molho a língua, ou seja: mostarda, ketchup, uma pimentinha, mas que na boa, na boa mesmo, são boas é para comer puras, no ponto de toque, douradinhas e até um pouco queimadinhas, sem que com isto manifeste-se apropriação no engajamento dito politicamente correto contra a contínua fritura da" raça", desde a escravidão, a quem a alforria do fim preconceito jamais lhes foi concedida e ou conquistada, principalmente pela dita cuja mídia coxinha, aqui também entendida não como de muita massa e pouco cérebro e sim de muito cérebro para manobrar a massa.

isto posto, é preciso resgatar a auto-estima das coxinhas, como simbolo de uma entidade gostosa que vai bem no frio e no calor, seja lá com que acompanhante líquido for, e que nada tem a ver com os coxinhas. 

afinal, os coxinhas, qualquer que seja a tendência, invólucro, recheio ou partido, são definitivamente intragáveis.

sexta-feira, março 03, 2017

"publicidade para inglês ver" *

Eis a prova definitiva de que a indústria da publicidade é a pior


(Screeshot: 'Mad Men' / AMC)

Um ex-publicitário conta por que ele não imaginava que a profissão pudesse ser tão escrota quanto é.

Imagina que você está tentando arrumar um trampo numa das principais agências de publicidade da indústria. Esse é o seu sonho, tudo que você sempre quis: um emprego criativo, claro, mas nas circunstâncias certas uma chance de mudar o mundo, de usar muito jeans e blazer, e estar a algumas promoções de um salário de seis dígitos. Classe criativa, sim, mas sem a parte da pobreza. E é assim que você chega lá: passando por três rodadas seletivas, várias entrevistas, testes e apresentações. E agora, você conseguiu um belo bufê de benefícios e clientes mundialmente conhecidos. Mas não apenas isso: te disseram que a empresa é amistosa, encoraja proatividade e é ranqueada como uma das melhores do Reino Unido [você pode substituir por Brasil aqui também] em satisfação dos funcionários.

"Esse era eu, um ano atrás: olhos brilhantes, cabelo lavado, maravilhado com o fato de que tinha uma geladeira de Coca Zero grátis no escritório. "

Infelizmente, todo mundo é babaca, se comporta como babaca e essa é uma indústria babaca construída sobre uma forte fundação de babaquice.

Aí você vê o problema. Esse era eu, um ano atrás: olhos brilhantes, cabelo lavado, maravilhado com o fato de que tinha uma geladeira de Coca Zero grátis no escritório. Em vez disso, fui jogado num mundo que vai além da paródia: cabeças vazias, drogas, roubo de ideias resvalando na fraude e nem um grama de bom senso para policiar tudo isso. Claro, eu esperava que a indústria tivesse suas merdas — a indústria é basicamente merda monetizada — mas, sabe, não tanta merda assim.

 Bom, aqui vai o que aprendi:

SE SOA BEM, ENTÃO TEM QUE SER BOM

Ideias são o alicerce da indústria da publicidade, uma indústria que entende que ideias são etéreas, difíceis de forçar, meio sem forma, necessitam de pensamento livre e do espaço e tempo certos, precisam de cuidado e poda, como orquídeas. 

Infelizmente, a indústria é absolutamente desprovida de ideias, então nada disso importa.

Começa com coisas pequenas. Testemunhei um dos nossos estrategistas sênior fazendo anotações num guardanapo, apesar de ter trazido um notebook com ele. A empresa inteira recebia e-mails inspiradores com citações do famoso boxeador Mohamed Alli. Tivemos apresentações comparando "conteúdo viral" de marcas com doenças virais, com pessoas sendo "infectadas" pela "epidemia" do nosso conteúdo (e não era uma piada com aquele episódio de It's Always Sunny in Philadelphia).

Comecei a frequentar reuniões de brainstorm — que, claro, são cheias de ideias de merda por natureza — e minhas esperanças não eram muito altas, considerando o que eu tinha visto antes. Eu esperava duas, talvez três boas ideias por hora. Quatro, num dia bom.
Mas dali não saiu nenhuma ideia. Zero. No lugar delas vieram... bom, seja lá o que é isso:

"O underground, por natureza, é muito escondido."

"Se nosso anúncio não é autêntico, ele parece falso."


"Através de promoção sinergética, podemos aumentar a conscientização."

O que não seria ruim se algumas dessas charadas invertidas depois não se tornassem a base para campanhas publicitárias caríssimas.

GUARDE SEUS PENSAMENTOS COMPLEXOS PRA VOCÊ

Na primeira semana, trombei de cara com um dos valores que a agência tinha identificado e estabelecido: estratégias complexas deviam ser expressadas apenas na forma de slides. Quanto mais imagens melhor, e
- Não.
- Mais.
- Que.
- Cinco.
- Parágrafos.
Então, quando cometi o erro de escrever uma análise detalhada de um cliente num documento de Word, meu gerente disse que eu tinha que "visualizar" minha pesquisa. Me disseram que a empresa gostava de usar apenas ferramentas sofisticadas, como — e essa é uma citação direita — "o PowerPoint".

SE VOCÊ MUDA O NOME DA MARCA, NÃO É PLÁGIO

Outra coisa comum nas sessões de brainstorm: a equipe sênior nos encorajava a tirar inspiração de ideias de outras marcas. Devíamos nos "inspirar" assistindo uma propaganda feita por outra agência, pegar os temas-chave dessa propaganda e analisar palavra por palavra para mudar isso para algo relevante para a marca com a qual estávamos trabalhando. Isso acontecia em quase todo brainstorm.
Por exemplo, estávamos trabalhando com uma marca popular de biscoito que estava tentando fazer o rebranding de um de seus produtos mais conhecido, mas geralmente desprezado (pense em Marmite, mas com biscoito) (na verdade: essa ideia é incrível?). Para chegar a uma propaganda agradável, os líderes criativos da agência juntaram todo mundo numa sala para assistir uma única propaganda de Oreo, de novo e de novo, e de novo, depois mais uma vez, e outra, até que o produto final parece algo que passamos o comercial pelo thesaurus.com.

"A barreira intelectual para entrar [na indústria da publicidade] é excepcionalmente baixa."


Outra vez estávamos trabalhando para uma empresa de carros e tiramos toda nossa "inspiração" da campanha de 2014 da Mercedes-Benz "Construa Seu Próprio Carro no Instagram". Passamos uma reunião inteira seguindo todas as rotas possíveis de combinação de carro, e aplicando isso diretamente à marca que estávamos competindo para ganhar a campanha. Aliás, nossa empresa pegou essa conta.

NÃO INTERESSA SUA ORIGEM, IDADE OU CAPACIDADE, VOCÊ TAMBÉM PODE SER UM PUBLICITÁRIO

Mesmo com alguns métodos criativos menos que rigorosos, a agência podia facilmente ter mentes analíticas inteligentes na forma de diretores de clientes, incumbidos não apenas de gerenciar as contas e a criatividade, mas também o orçamento e os dados. Mas minhas interações com diretores de clientes não me deram muita esperança. Uma vez tive uma longa conversa — e acho que ele não ainda saiu satisfeito — explicando para um deles que um aumento de 1% nas vendas do ano era um aumento de 3% para os anos anteriores. Esses mesmos diretores contribuíam regularmente nos brainstorms e se agarravam aos dados, sem edição ou discussão, para fazer uma campanha multimilionária. A lição é a seguinte: com arrogância e lábia suficiente, qualquer um pode ser publicitário. A barreira intelectual para entrar é excepcionalmente baixa.

SE NINGUÉM PODE PROVAR QUE VOCÊ ESTÁ ERRADO, NÃO É MENTIRA: OU "A TAL DA CONVERSA FIADA"

Meu tempo na agência também contou com introduções regulares a cada departamento, nos quais os chefes comentavam no que seu departamento contribuía em cada conta. Apesar de cada seção oferecer suas próprias habilidades e forças, uma coisa era mencionada em todos os departamentos:

"Ah, não, a gente não massageia os números das nossas taxas de sucesso — nós inventamos mesmo."

Um departamento tinha muito orgulho de uma ferramenta que tinha desenvolvido, baseada num algoritmo criado pela agência, que podia melhorar o target em propagandas televisivas. O único problema da ferramenta? Ela não existia. Mas a equipe sênior me informou que os clientes adoravam ver a interface fotoshopada da ferramenta e os resultados inacreditáveis que a agência tinha alcançado com ela, e que isso realmente ajudava a fechar negócios e ganhar contas, então... tinha... alguma... necessidade... de criar uma ferramenta real?

VOCÊ SE DÁ BEM SE FINGIR QUE AINDA ESTÁ NOS ANOS 60

Quando me contrataram, uma das coisas que eu estava mais empolgado era a cultura da empresa. A agência ganhava prêmios todo ano graças a taxa de satisfação dos funcionários e era conhecida por oferecer os melhores benefícios do Reino Unido, fora os prêmios pelas propagandas. E eu queria alguns daqueles benefícios.

"Infelizmente, não valia a pena aguentar a realidade cotidiana da agência pelo bufê de café da manhã."

Infelizmente, não valia a pena aguentar a realidade cotidiana da agência pelo bufê de café da manhã. O que era discutido no trabalho podia ser categorizado em três tópicos: as últimas fofocas do escritório (sexo; cocaína), com que donos de mídia eles tinham cheirado recentemente no almoço (cocaína; sexo), e relatos gráficos das últimas escapadas sexuais (um diagrama de Venn perfeito de cocaína e sexo). Várias empresas acrescentavam "brincadeiras" nas apresentações na forma de fotos de membros da equipe sênior posando com strippers num clube. Meus colegas passavam horas do expediente mostrando tuítes de colegas pedindo a mulheres famosas para "sentar no meu pau". E quando ficavam entediados disso, começavam um debate acalorado sobre que nacionalidades eram "melhores" para contratar babás e empregadas. Não lembro do episódio em que Don Draper gritava "Foda-se! Italianos CAGAM nos poloneses!" Mas era bem isso.

DESDE QUE VOCÊ CONSIGA SE SAFAR, FAÇA

A publicidade — como você pode imaginar pelo número de campanhas que causaram polêmica nos últimos anos, das propagandas de "corpo de praia" até o Superbowl — é uma terra operando muito longe dos confinamentos do politicamente correto. Mais ainda no meio de novembro, quando os convites para a festa de Natal da firma começaram a chegar.
O tema "Benefícios Britânicos" era promovido por uma filipeta coberta de imagens de bom gosto de Vicky Pollard encorajando a equipe a participar, com a instrução: "NÃO PENSE SIMPLESMENTE EM CHAV [um jeito pejorativo de falar em estereótipo] – ESSA É UMA OPORTUNIDADE DE PENSAR FORA DA CAIXA!!"
Quando sugeri que talvez não fosse uma boa ideia — mesmo que de uma perspectiva profissional, já que alguns dos nossos clientes eram organizações sem fins lucrativos com contratos no governo — o escárnio foi histérico. Uma discussão que começou com "como uma coisa dessas vai sair daqui?" naturalmente se metamorfoseou numa câmara de eco de "insanidade politicamente correta", e finalmente terminou com a questão em aberto: "Black face é tão ruim assim?" Sim. Assim como ir para uma festa de Natal usando Burberry ironicamente e abrir garrafas de champanhe com anéis masculinos.
Sendo assim, eu recomendaria a indústria da publicidade para todo mundo? Por um lado: não. Por outro lado: não, ainda não recomendaria. Quando você mergulha nela de cabeça e tem que lidar com essas pessoas todo dia, e bate cabeça repetidamente contra um muro desolado de criatividade, e faz algumas propagandas (um grupo inclusivo de crianças, abrindo os olhos em câmera lenta; uma versão de elevador de uma música pop; um narrador de voz grossa; um Honda Civic indo em direção ao pôr do sol) de novo e de novo, você percebe: por isso tem tanto pó e putaria na indústria. É o único jeito de lidar. Bom, agora trabalho com comunicação. É muito melhor.



*matéria originalmente publicada na vice na VICE UK .
Tradução: Marina Schnoor


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segunda-feira, fevereiro 27, 2017

tuitadas ou traulitadas, como queira

prefeito do recife afirma desconhecer troça q o critica de outros carnavais.amnésia alcóolica?sabe como é, pinga é marvada,no carnaval então
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herdeiros do coronelismo d asfalto do eduardo campos(governador e prefeito atuais) fazem da puliça capangas ao destroçar carnaval de troça
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polícia, não: mas capangada sim, eis o carnaval que a polícia faz em recife, a terra contumaz dos coronéis

PM de Pernambuco impede troça que critica o governo de desfilar no Galo da Madrugada



Na manhã deste Sábado de Zé Pereira, um episódio de extrema gravidade abalou nacionalmente aquela ideia de que o carnaval de Pernambuco é um espaço democrático e plural, onde a população pode se expressar com liberdade, criatividade e irreverência. Pouco antes de começar a desfilar no Galo da Madrugada, a troça carnavalesca "Empatando tua Vista” teve fantasias, adereços e o próprio estandarte apreendidos pela Polícia Militar. Os policiais também recolheram máscaras do governador Paulo Câmara e do prefeito Geraldo Julio, ambos do PSB. Como se não bastasse a arbitrariedade, um dos PMs ainda invadiu um prédio privado, sem mandado judicial, para recolher material da troça. Os vídeos mostrando a ação truculenta da polícia se espalharam rapidamente pelas redes sociais, gerando uma onda de protestos e solidariedade por todo país.
Para quem não acompanha o carnaval e a política do Recife, a troça “Empatando tua Vista”, que se define como “um ato político-folião crítico à verticalização excessiva, que negligencia o planejamento urbano na cidade de Recife-PE”, é conhecida por fazer críticas contundentes e bem-humoradas tanto ao prefeito Geraldo Julio quanto ao governador Paulo Câmara. Chama a atenção o fato de no ano passado a troça também ter sido impedida de desfilar pela Diretoria de Controle Urbano (Dircon) da Prefeitura do Recife. Daí a suspeita generalizada de que a operação policial pode ter sido articulada nos altos escalões do governo.
De qualquer forma, a ação policial deste sábado foi totalmente desproporcional e fora dos padrões. Segundo o que mostram os vídeos gravados no momento da operação, o que está registrado no Boletim de Ocorrência feito pelos integrantes da troça, o que consta nos depoimentos dos envolvidos e o que foi apurado pela Marco Zero Conteúdo, tudo começou por volta da 8h quando uma viatura da Polícia Militar de Pernambuco chegou ao local de concentração da troça, uma rua sem saída no bairro da Boa Vista. Da viatura desceram um major e mais outros três policiais e foram logo abordando o grupo dizendo que tinham recebido uma denúncia.
Que denúncia? Não disseram. Revistaram o carro e não encontraram nada além de tecido e pequenas taliscas que formavam um conjunto de fantasias e alguns adereços. Questionado, o major disse que havia “recebido ordens”. Falava o tempo todo com alguém pelo celular. Em meio à confusão, a moradora de um prédio próximo pegou algumas fantasias e levou para dentro do edifício. À força e sem nenhum mandado judicial, um dos policiais invadiu o prédio para recolher mais peças da indumentária da troça.
Quando os policiais foram embora, os integrantes da “Empatando tua Vista” juntaram o que sobrou de fantasia, entraram no carro e seguiram para o desfile do Galo da Madrugada. Mas a tranquilidade durou pouco. A viatura policial, que os seguia a distância, fez uma abordagem em cima da ponte 6 de Março, conhecida como Ponte Velha. O major, irritado, desceu com o cassetete dizendo que agora iria recolher tudo. Continuava com o celular ao ouvido, supostamente sendo orientado por alguém. Cumpriu a promessa e recolheu tudo. Aos integrantes da troça restou postar as imagens feitas nas redes sociais e fazer um Boletim de Ocorrência na Corregedoria Geral da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco.
O caso ganhou repercussão nacional. O prefeito Geraldo Julio, em um dos camarotes privados a poucos quilômetros do ocorrido, ao ser questionado sobre o assunto pelo portal de notícias Leia Já foi, no mínimo, evasivo na resposta: “Não conheço esta troça que você [repórter] está falando. Agora certamente deve ter sido uma ação normal de controle urbano como aconteceu com muitas outras certamente no dia de hoje”.
A integrante do “Empatando tua Vista”, Angélica Reis fez algumas observações sobre a declaração do Prefeito do Recife na sua página do Facebook:
1- Não só ele [o prefeito] conhece, que ano passado os funcionários da PREFEITURA DA CIDADE DO RECIFE, fizeram algo parecido. O abuso também foi divulgado em várias mídias. Se ele não sabe quem somos, ele não sabe de nada na cidade que ele diz administrar.
2- No comentário dessa postagem, colocarei uma foto de nossa troça/fantasias. Gostaria que o Sr. Prefeito nos explicasse por qual motivo nossa troça/fantasias não estão adequadas para brincar o carnaval do Recife.
3- Os PMs chegaram onde nós estávamos umas 8h00 (rua sem saída e não dentro do foco da folia), como eles sabiam onde estávamos?
4- Eles nos seguiram à distância e nos abordaram na ponte pela SEGUNDA vez. Continuaram passando com o carro e parando perto de nós como uma forma de intimidação, mesmo depois de ter pego tudo que nos restaram naquele momento. PS: Não estávamos vestidos com as fantasias, trazíamos elas nas mãos.
5- O Major a todo momento ficava no telefone (vcs podem ver isso nos vídeos), recebendo ordens de alguém. Quem era esse alguém para dar ordens a um MAJOR da PM?
Diante da repercussão do caso, o comando da Polícia Militar de Pernambuco emitiu uma nota à imprensa:
“A PM informa que o caso da apreensão de materiais da troça Empatando a sua Vista está sendo apurado pela Corregedoria da SDS. A operação no bairro da Boa Vista não teve o conhecimento do Comando da corporação nem do batalhão da área. Por isso, os policiais envolvidos foram encaminhados para prestarem depoimento à Corregedoria. A PM atua no estrito cumprimento das leis e na garantia da ordem, sem jamais interferir na livre manifestação democrática, quaisquer que sejam seus posicionamentos e orientações político-partidárias. É fundamental esclarecer que o Comando Geral da PM, assim como a tropa, tem como foco e missão garantir a segurança da população, preservando a alegria e a pluralidade do nosso Carnaval”.
A nota da Polícia Militar, embora protocolar à primeira vista, reconhece de alguma maneira que o procedimento adotado pelos PMs fugiu do padrão. Caso contrário não iniciariam um processo de apuração. Por isso também, enfatizou o fato do comando da corporação e o próprio Batalhão da área não terem conhecimento prévio da ação.  O importante agora é que a Polícia Militar vá além das palavras escritas na nota, apure os fatos, sane as dúvidas que foram levantadas, responda aos questionamentos feitos pela sociedade, puna os responsáveis (inclusive quem deu as ordens) e, principalmente, crie mecanismos para que episódios como este não se repitam.
Aqui os vídeos gravados pelos integrantes e que se espalharam pelas redes sociais:





do marco zero, pelo sérgio miguel buarque.  abuso de poder: polícia militar de pernambuco impede troça que critica o governo de desfilar no galo da madrugada

sábado, fevereiro 25, 2017

não é só em recife mas em olinda também: a camarotização vai fechando o cerco a festa popular com seu fartum de anti-mistura




No próximo sábado (25) centenas de milhares de pessoas vão tomar as ruas do Centro do Recife para o desfile do Galo da Madrugada, propalado símbolo do Carnaval popular e democrático da cidade. Nas TVs, mais uma vez a transmissão será ao vivo. Digna dos grandes espetáculos. Mas há outro lado da moeda que não vai para o ar. É que o entretenimento também é negócio. E os negócios no Recife teimam em desafiar os limites entre o interesse público e os interesses privados. Poucas vezes submetidos à mesma luminosidade do sol que queima os foliões no sábado de Zé Pereira.
Em um dos sites de divulgação do Carnaval de Pernambuco nada menos do que 23 camarotes privados são anunciados ao longo dos seis quilômetros do itinerário do bloco, com ingressos individuais entre R$ 160,00 e R$ 500,00. Alguns deles com mais de mil lugares. Espaço privilegiado é a Praça Sérgio Loreto onde fica o Camarote Oficial do Galo e o Camarote Downtown, cujo ingresso individual (open bar) estava sendo vendido a R$ 320,00 na segunda-feira (20). A praça é pública, mas o lucro é privado.
Em frente aos camarotes do Galo e do Downtown, na mesma Praça Sergio Loreto, dividida em duas pela Rua Imperial, a organização do bloco comercializa outros 66 camarotes de 20 lugares cada um. As vendas começaram em novembro por R$ 5.500,00 para o primeiro andar e R$ 7 mil para o segundo piso. Na semana pré-carnavalesca saíam entre R$ 7 mil e R$ 9 mil cada um deles.
Espaços cedidos pela Prefeitura
Os espaços públicos das ruas e praças por onde brotam os camarotes privados são cedidos pela Prefeitura ao Galo da Madrugada por meio de “termo de permissão de bem público de uso comum do povo”, pelo qual o bloco fica autorizado a “explorar comercialmente os camarotes e arquibancadas com vendas de ingressos” e a “explorar serviço de bar exclusivamente para os adquirentes dos camarotes e arquibancadas”.
A contrapartida do bloco ao Poder Público Municipal vem em forma de publicidade, garantindo 20% do espaço publicitário para as marcas oficiais da Prefeitura do Recife e do Carnaval da cidade.
Mas o apoio público e financeiro da Prefeitura ao Galo da Madrugada não para por aí. É comum que o Poder Público Municipal ainda repasse recursos diretos ao bloco por meio de cotas de patrocínio, tanto para o Carnaval quanto para outros eventos realizados pelo ente privado ao longo do ano. Em 2014, foram R$ 580 mil para o Carnaval e R$ 300 mil para o Forrozão do Galo. Em 2015, R$ 750 mil. A reportagem da Marco Zero Conteúdo questionou os valores relativos a 2016 e a 2017, mas não obteve resposta da Prefeitura.
A camarotização do Galo da Madrugada traz à tona muitas questões. Algumas de cunho sociológico, outras que expõem a linha tênue que rege as relações público-privadas no Recife.
Democracia racial ou apartheid?
Até que ponto a visão de Carnaval popular e democrático do Recife, em oposição ao Carnaval baiano das cordas e dos abadás, não passa de uma fantasia? Será que aqui, como lá, não impera o apartheid social? Negros e pardos pobres no chão, brancos e autoridades nos camarotes? O mito da democracia racial, peça-chave da narrativa propagandística do Galo, sobrevive à ressaca da Quarta-Feira de Cinzas?
E as relações público-privadas que colocam o bloco na rua? Até que ponto a cessão de espaços públicos para o bloco privado atende ao interesse público? Todo o processo não deveria correr de forma mais transparente? Com a divulgação dos custos totais do Poder Público e do lucro auferido pelos entes privados com a ocupação das ruas e praças públicas? Quais os termos da negociação comercial do Galo com outras entidades privadas, como os camarotes DownTown (Praça Sérgio Loreto) e Balança a Rolha (embaixo do viaduto Capitão Temudo), já que estamos falando da sub-cessão para exploração do espaço público? E por que, além de ceder espaços públicos, a Prefeitura ainda repassa verba em forma de patrocínio para o Galo?
Parador: alto faturamento, pouca transparência
A polêmica sobre o Carnaval privado em espaço público não está restrita à camarotização do Galo no sábado de Zé Pereira. De domingo a terça-feira, um dos espaços mais nobres do Centro do Recife também fica fechado ao acesso popular. Trata-se do Camarote Parador Itaipava, espaço de shows que toma o estacionamento situado ao lado do Armazém 14, na área não operacional do Porto do Recife. A área é pública, mas está arrendada desde maio de 2012 por 25 anos ao consórcio Porto Novo Recife S/A. Ainda assim, a cessão do terreno de um ente privado para outro só pode ser feita mediante anuência do Porto do Recife, órgão público vinculado ao Governo de Pernambuco.
Numa área privilegiada à beira-mar e a 500 metros de distância do maior e mais importante polo público do Carnaval do Recife, o Camarote Parador Itaipava comercializa mais de 4 mil ingressos por dia. Na segunda-feira (20), os ingressos online estavam sendo comercializados entre R$ 270,00 e R$ 350,00 por noite. A mega estrutura vai receber em 2017 duplas sertanejas de sucesso, como Henrique/Juliano e Maiara/Maraisa; grupos de axé, como Banda Eva e Bel Marques; e bandas de rock como O Rappa e Capital Inicial. Frevo mesmo, só do lado de fora.
Nas páginas dos sites de venda online de ingressos, o Parador é exaltado pelo serviço privê e a localização privilegiada: “O Parador Itaipava é considerado o melhor Camarote do Recife, o espaço oferece ao folião ótima estrutura, open bar premium (Whisky Old Par, Cerveja Itaipava e Vodka). A festa acontece no Recife Antigo (Cais do Porto), principal região turística da cidade, onde está localizado o polo Marco Zero com o principal palco de shows do Carnaval de Recife”.
O Marco Zero Conteúdo pediu, mas não obteve junto ao Porto do Recife S/A cópia do contrato de cessão do espaço. Segundo o Porto do Recife S/A, o pedido precisa ser “formal”. Produtores ouvidos pela reportagem, que preferiram não se identificar, informaram que a área é cedida ao mesmo grupo de empresários desde 2015, tendo à frente Bruno Rêgo (BG Produções) e Augusto Acioly (Festa Cheia Produções e Propaganda LTDA). Acioly é sócio de Felipe Carreras, atual secretario de Turismo do Governo do Estado e ex-secretário de Turismo da Prefeitura do Recife.
O Porto do Recife diz que a cessão está respaldada pela Resolução Normativa número 07/2016 da Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários). No artigo 2o do Inciso VII, a resolução prevê “autorização de uso e delegação, pela administração do porto, de áreas e instalações portuárias não operacionais disponíveis, localizadas dentro da área do porto organizado, para utilização onerosa, a título precário, visando à realização de eventos de curta duração, de natureza recreativa, esportiva, cultural, religiosa ou educacional”.
Taxa simbólica, transtornos reais
Questionada pela reportagem da Marco Zero Conteúdo sobre o valor da taxa paga pelos empresários para a realização dos shows no Carnaval, o Porto do Recife apenas confirmou que “a utilização de uso é onerosa”, mas não divulgou o montante. Em matéria publicada na Imprensa em 2015, primeiro ano de funcionamento do Camarote Parador, o então administrador do Porto, Carlos Vilar, informou que a taxa naquele ano deveria ficar em torno de R$ 20 mil. Um valor apenas simbólico que fica para o Poder Público, considerando os milhões de reais em faturamento que o grupo privado obtém com a exploração comercial do local durante o Carnaval.
Nos bastidores, produtores se queixam da “reserva de mercado” do espaço para grupos empresariais ligados a Felipe Carreras. Também questionam o suposto caráter provisório da permissão de uso da área, considerando que vários shows com venda de ingressos estão sendo realizadas ao longo do ano pelo mesmo grupo empresarial, como acontece nos períodos de São João e de Revellion, o que configuraria, na prática, um acordo permanente de utilização desse espaço firmado entre o Porto Novo Recife e os organizadores do Camarote Parador.
Para além da disputa privada pelo espaço do estacionamento do Armazém 14, há questões mais diretamente de interesse público que também precisam ser levadas em conta. Estamos falando do impacto no fluxo de pessoas e na mobilidade urbana em todo o entorno do Marco Zero, também no impacto nos cofres públicos com a oferta de mais segurança e fiscalização de trânsito na região, onde antes havia um único grande palco público de shows e, agora, ele sofre a concorrência estrutural do maior palco privado do Carnaval do Recife.
Rede Globo e Praça da Independência: nada a ver
Não é de hoje que a ocupação privada dos espaços públicos no Carnaval gera polêmica e críticas de setores organizados da sociedade. Foram essas críticas que forçaram o cancelamento do Camarote da Rede Globo na Praça da Independência, em 2015, depois de 15 anos de funcionamento no local. Dias antes da realização do Carnaval, a Praça era cercada de tapumes para a instalação do Camarote da Globo e o acesso interditado à população em geral. Exatamente o que acontece hoje com a Praça Sérgio Loreto, tomada pelos camarotes do Galo da Madrugada e do Downtown.
Um ano antes do fim do Camarote da TV Globo, os tradicionais espaços vips da Prefeitura do Recife e do Governo do Estado no Galo da Madrugada, que perduraram inclusive durante as gestões municipais do PT, haviam sido desmobilizados. Era ano de eleições presidenciais e o governador Eduardo Campos (PSB) temia que as críticas das entidades civis aos altos custos do Poder Público com a manutenção dos camarotes VIPs (sempre abafadas pela imprensa local) ganhassem as manchetes dos jornais nacionais. Ele trocou o desgaste pelo anúncio de moralização dos gastos públicos apenas no último dos oitos anos de sua gestão no Estado.
Nos últimos três anos, produtores e advogados têm não só se manifestado contrários à cessão dos espaços públicos para a exploração da iniciativa privada durante o Carnaval, como estão pressionando cada vez mais os poderes públicos a prestar contas sobre a condução das negociações com os blocos e as empresas.
Acesso pago à praça pública
Em 2015, o produtor artístico Roger de Renor (Som na Rural) e a professora da Faculdade de Direito do Recife Liana Cirne Lins entraram com um pedido oficial de informações na Prefeitura do Recife sobre a cessão dos espaços públicos para a iniciativa privada. Na ocasião, a Prefeitura informou que a Praça Sérgio Loreto era cercada com tapumes para proteger o patrimônio público da degradação, especialmente por estar localizada num ambiente de grande fluxo de pessoas. O documento da PCR diz que medida semelhante é adotada em outras praças, monumentos, espaços culturais e prédios públicos no Centro da Cidade.
A resposta não satisfez Roger. “A Praça da República (em frente ao Palácio do Campo das Princesas) é cercada e quando acaba o Carnaval tiram-se os tapumes e ela está intacta, ninguém tem acesso ao local. Mas a Praça Sérgio Loreto, não. Ela é cercada e só entra nela quem paga. Quem paga ocupa a Praça. Ou será que os secretários de Cultura e Mobilidade da Prefeitura desconhecem que existem camarotes privados funcionando ali durante o Carnaval?”.
Muito pouco provável esse desconhecimento. Além dos anúncios de venda de ingressos em TVs e redes sociais, os camarotes do Galo acabaram substituindo na prática os camarotes da Prefeitura e do Governo de Pernambuco (que aliás é também apresentado no site oficial da agremiação como patrocinador do evento). Prefeito, governador, secretários municipais e estaduais, deputados, vereadores, empresários, jornalistas e artistas globais agora ocupam os espaços VIPs organizados pelo próprio Galo da Madrugada.
Elitização
Para Roger de Renoir, os camarotes privados em espaços públicos estão a serviço da separação de classes sociais.
“É inadmissível que logo no Carnaval mais popular da cidade, se privatize o espaço público porque tem gente que não gosta de se misturar com o povo. As pessoas mais importantes do Carnaval do Recife são os brincantes, não podem ser aqueles que têm R$ 300,00 para ficar afastados da rua. Não se pode cobrar para alguém ter acesso a uma praça pública. No Carnaval do Recife existe isso há mais de 10 anos no principal bloco de Carnaval. Bloco, é bom lembrar, que é subsidiado pela própria Prefeitura”.
Roger de Renor acredita que a repercussão do caso é menor na classe média recifense porque o isolamento se dá numa praça que fica no Centro da cidade, afastada, portanto, dos bairros mais ricos. “Imagina se isso fosse feito na praia de Boa Viagem? Imagina se um bloco de Boa Viagem, o da Parceria (antigo bloco de Carnaval do Grupo Bompreço que levava trios elétricos para a orla da praia no período pré-carnavalesco), por exemplo, recebesse a cessão de parte da praia e decidisse que só teria acesso ao local quem pagasse ingressos? Na prática é isso o que acontecia na Praça da Independência com a Rede Globo e o que acontece agora com a Praça Sérgio Loreto, com os camarotes do Downtown e do Galo”.
Ações na Justiça
Alegando a falta de amparo legal para cessão dos espaços públicos à iniciativa privada, o advogado Pedro Josephi moveu duas ações populares na Justiça no ano passado para forçar a Prefeitura do Recife e o Porto do Recife a anularem as permissões de utilização das áreas públicas e abrirem o acesso a toda a população.
A ação contra os camarotes na Praça Sérgio Loreto e nas áreas públicas no percurso do desfile do Galo tramitou na 4ª Vara da Fazenda Pública. Como tratava especificamente do Carnaval de 2016 e o pedido de liminar do advogado foi indeferido pelo Justiça, o processo perdeu o objeto. No caso do Camarote Parador, o processo começou a tramitar na 5ª Vara da Justiça Federal e depois foi distribuído para a 5ª Vara da Fazenda Pública por se tratar de um terreno pertencente a um órgão estadual arrendado à iniciativa privada.
O advogado alega que o interesse privado está se sobrepondo ao interesse público tanto no Galo da Madrugada quanto no Camarote Parador. Para Pedro Josephi, a desocupação da Praça Sérgio Loreto e de outras áreas públicas no trajeto do bloco traria melhores condições de deslocamento e segurança aos foliões. “A situação do Galo é alarmante. A Prefeitura permite a utilização do espaço público por uma entidade privada, apesar de o Galo ser um patrimônio público do Carnaval, e essa entidade ainda subloca esses espaços para serem explorados comercialmente por terceiros na Praça Sérgio Loreto e abaixo dos viadutos da Avenida Sul? Há uma evidente prevalência do interesse privado sobre o interesse público”.
Prestação de contas à sociedade
Outra questão que incomoda Pedro Josephi é a impossibilidade de a população acompanhar os detalhes das negociações firmadas entre o Poder Público e a iniciativa privada. “O mais grave é que não há uma prestação de contas para a sociedade, e nem mesmo para a Prefeitura, em relação a quantos camarotes estão sendo comercializados ao longo do desfile do Galo, quais os valores atribuídos a essas sublocações, quais são as compensações que essas empresas que estão sublocando o espaço estão dando na área de segurança e mesmo ao patrimônio em caso de dano. Quem vai assumir esses danos? Ao nosso ver tudo isso precisaria ficar mais claro e transparente para toda a sociedade”.
A reportagem da Marco Zero Conteúdo entrou em contato com as assessorias de imprensa do Tribunal de Contas do Estado e do Ministério Público de Pernambuco questionando se há procedimentos ou processos de acompanhamento das cessões dos espaços públicos para a iniciativa privada durante o Carnaval por parte desses órgãos. As assessorias responderam que os órgãos não desenvolvem ações ou fiscalizações específicas para esses casos.
Perguntas aguardam respostas
A falta de transparência fez o vereador em primeiro mandato do PSOL, Ivan Moraes, protocolar este ano um pedido de informações à Prefeitura do Recife. Ivan solicita cópia dos “termos de permissão de uso de bem público de uso comum do povo” celebrados entre a Prefeitura e o Galo da Madrugada nos últimos cinco anos e questiona qual instrumento legal autoriza que o Galo da Madrugada ceda ou subloque o espaço público para terceiros, como é o caso do Downtown na Praça Sérgio Loreto.
Também solicita informações sobre a relação de todos os camarotes que serão instalados em espaços ou prédios públicos nos bairros de São José e Santo Antônio no dia do desfile do Galo da Madrugada. E mais: cópias dos instrumentos que autorizam o uso do solo e instalação do Camarote Balança a Rolha, localizado embaixo do viaduto Capitão Temudo; do Camarote Spettus, na Avenida Dantas Barreto; e do Camarote Downtown, na Praça Sérgio Loreto.
O vereador do PSOL também quer saber quais as contrapartidas e os valores que a Prefeitura do Recife recebe para a cessão e instalação de camarotes privados em espaços e prédios públicos da cidade e se o Poder Público Municipal realizou algum estudo ou pesquisa sobre o impacto para os foliões dos camarotes privados em espaços públicos?
Na justificativa do documento de pedido de informações, Ivan Moraes lembra que para a realização de um desfile de um bloco carnavalesco das dimensões do Galo da Madrugada a administração pública arca com relevante gasto público na manutenção da ordem e da segurança pública, com os serviços de limpeza urbana, bombeiros, reordenamento do trânsito e de atendimento de saúde da população em geral, por meio do SAMU. “Todos esses gastos públicos são elevadíssimos e suportados por toda a sociedade”, afirma.
Jorge DU Peixe: Por que tanto Camarote?
A camarotização do Carnaval do Recife em torno do polo Marco Zero incomoda o vocalista da Nação Zumbi, Jorge Du Peixe. A Nação Zumbi, que foi uma das principais atrações do polo no ano passado, este ano não vai tocar na rua para o público recifense. A banda fará nesta quinta-feira, dia 23, um show no Baile Perfumado, na prévia da Troça Elétrica, ao lado de Bixiga 70 e da orquestra de frevo de Henrique Dias.
Em postagem no facebook, Jorde Du Peixe relembrou a experiência da Nação Zumbi no Carnaval de 2016. “Botaram três atrações de peso no mesmo palco e o folião foi prejudicado. É culpa da gestão, da organização. Apesar de parecer grande, não cabe todo mundo. E colocam camarotes privados. É falta e cuidado com o folião. Tanto daqui quanto quem vem de fora porque o Marco Zero é a maior vitrine do Carnaval”.
Em resposta a Jorge Du Peixe, o prefeito Geraldo Julio (PSB) disse à Imprensa que não existiam camarotes privados no Marco Zero. “Não existe nenhum camarote privado na área do Marco Zero. A área é 100% pública e aberta à população”. Na verdade, o principal palco público do Carnaval do Recife está cercado de camarotes privados por todos os lados. O maior deles é o Camarote Seu Boteco, com vista frontal para o palco montado pela Prefeitura, open food e open bar e ingressos entre R$ 220,00 e R$ 250,00 por dia. Está lá no espaço do Marco Zero também o Camarote Palácio do Antigo, funcionando no antigo prédio do Santander Cultural, com três andares e palco exclusivo com bandas ao vivo.
O prefeito também esqueceu da existência do Camarote Parador, a cerca de 500 metros do palco do Marco Zero. Esse sim um espaço público arrendado a uma empresa privada que cedeu o espaço para outra empresa privada. E que se beneficia de toda a megaestrutura de segurança pública, ordenamento do trânsito e atendimento de saúde mobilizada pela Prefeitura do Recife e pelo Governo do Estado.
Pressão e monopólio
O que o prefeito não vê é o que mais chama a atenção do advogado Pedro Josephi. “Quando você tem uma festa privada como aquela, ela atrapalha o som do palco principal do Marco Zero, gera uma demanda maior de linhas de ônibus, logística da CTTU, de interrupção e organização do trânsito, gera uma demanda maior do escoamento das pessoas do Recife Antigo. As pessoas que afluem ao local para o Carnaval gratuito e popular são confrontadas com outra multidão que vem para o Carnaval privado. Em 2016, nós vimos a quantidade de arrastões e brigas pelas ruas”, relembra.
Para Pedro, ainda há um agravante quando falamos da produção cultural em Recife com o monopólio da cena por alguns poucos grupos. “O que nós estamos vendo é que o ramo de produção cultural de festas em Pernambuco é uma verdadeira caixa-preta, não se tem transparência de que forma são utilizadas essas áreas públicas e quem são os responsáveis por ganhar tanto dinheiro numa festa que deveria se democrática, popular e acessível para todos”.
Cultura do segregacionismo
A professora de pós-graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco, Cristina Araújo, volta no tempo até os Estados Unidos das décadas de 1940 e 1950, quando foram criados os primeiros condomínios fechados, para analisar a expansão do capital privado no sistema capitalista. Esse modelo chega ao Brasil nos anos 1980, na forma dos “alphaviles”, segundo a pesquisadora, “vendendo a ideia de segurança e qualidade de vida num cenário de cidades violentas e inseguras”.
Por trás dos condomínios fechados está a premissa de que o que é organizado pela iniciativa privada é bom e seguro e o que é cuidado pelo Poder Público é ruim e inseguro. Ela cita as calçadas esburacadas e sujas. Elas não precisam ser cuidadas porque o que prevalece é a lógica do automóvel, do bem privado sobre o espaço público.
A lógica segregacionista do condomínio fechado chega às festas populares como o Carnaval. Na Bahia isso é mais evidente com a disseminação de que as pessoas da “pipoca” são violentas e que se você é do bem deve brincar o Carnaval nos camarotes ou comprar abadás para ter a proteção privada do bloco.
“Recentemente essa lógica chegou por aqui, no Recife e em Olinda. A mesma concepção da segurança que se alimenta da ideia de distinção, ou seja, se você pode pagar então brinque entre seus pares. E tudo isso acontece com total conivência da Prefeitura e do Governo do Estado. Quem acaba se beneficiando é a iniciativa privada que vai transformando o que era público em privado e criando verdadeiras ilhas da fantasia, onde se convive apenas com os iguais, seja nos condomínios fechados, seja nas festas populares”, analisa Cristina.
E ela continua: “Dentro do sistema capitalista a iniciativa privada sempre vai tentar se expandir para obter lucro e caberia ao Estado o equilíbrio do jogo, atendendo aos interesses de todas as classes”. Uma regra que parece passar longe do jogo jogado no Carnaval do Recife.


*Camarote privado em espaço público: a privatização do Carnaval do Recife

do laércio portela, via blog do nassif, mediado pelo jornal ggn