terça-feira, dezembro 06, 2016

resumindo e concluindo: enquanto a globo fizer plim-plim, você top-top





Invasão de privacidade e exploração sensacionalista das emoções são traços generalizados na cobertura de grandes tragédias pela mídia. 

Porém, com a Globo há um elemento mais insidioso: depois de décadas exercendo o monopólio político e comunicacional no País, sua auto-centralidade entrou em metástase através do tautismo (autismo + tautologia). A extensa cobertura da tragédia do desastre aéreo do time da Chapecoense deixou mais explicito esse estado patológico no qual a emissora só consegue olhar para além dos muros cenográficos do Projac através de referências que faz de si mesma. 

Do “turbilhão de emoções” da narração do velório coletivo por Galvão Bueno à insistência como repórteres e locutores tiveram que demonstrar a si mesmos emocionados (chegando a fazer “selfies” com celulares), chorando e até consolados pela mãe de um dos jogadores, é como se o tempo todo repetissem: “tenho emoções, logo a tragédia é real!”. Chegando a um surreal “Efeito Heisenberg”: o global Galvão Bueno narrando o outro global Cid Moreira lendo a Bíblia com a mesma inflexão de voz com que lia as notícias do “Jornal Nacional” e narrava peripécias do Mister M. O hábito do cachimbo entorta a boca. 

Por décadas a TV Globo usou e abusou do recurso de metalinguagem (falar de si mesma) como forma de demonstração do seu monopólio e poder absoluto na comunicação social brasileira: não se limitava transmitir um acontecimento. O acontecimento era a Globo transformando o acontecimento em notícia – o repórter sempre foi o protagonista da notícia enquanto a História sempre garantiu exclusividade e pioneirismo para a emissora. A deferência como o técnico da Itália Enzo Bearzot tratou em toda Copa de 1982 o repórter Ernesto Paglia, a amizade exclusiva de Galvão Bueno com Airton Senna, a forma como praticamente a emissora salvou a cidade do Rio de Janeiro nas enchentes de 1966, a emissora que virou notícia de si mesma com o sequestro de William Waack por forças de segurança de Saddam Hussein na Guerra do Golfo, o jornalista Reginaldo Leme escrevendo o prefácio do livro do CEO da Fórmula 1 Bernie Eclestone etc. Passagens que a emissora sempre fez questão em destacar, como se a História sempre conspirasse para as câmeras da Globo. Embora mantenha seu poder econômico e político graças, entre outras coisas, ao BV (Bônus por Volume) para garantir a maior parte do bolo das verbas publicitárias, nos últimos anos a Globo vem sofrendo crescente queda nas audiências e a concorrência das tecnologias de convergência e Internet. 

Como destacamos em postagem anterior, a reação global foi abandonar a estética space opera de Hans Donner (adotando um visual mais “orgânico”, deixando o artificialismo metálico) e mergulhar ainda mais na metalinguagem como demonstração de que ainda continua poderosa e influente – clique aqui http://cinegnose.blogspot.com.br/2014/05/globo-reaje-crise-de-audiencia-e.html .




Porém, o cachimbo entortou a boca: essa obsessão pela metalinguagem entrou em metástase, resultando na patologia do tautismo – autismo + tautologia. De tanto falar de si mesma, criou o “fechamento operacional” de um sistema que se tornou obeso – a audiência já não sustenta a folha de pagamento, dependendo a emissora das gordas verbas publicitárias governamentais. De tão obesa e fechada em si mesma, simplesmente a emissora não consegue mais ver o mundo do outro lado dos muros do Jardim Botânico e da cenografia do Projac. O exterior somente é traduzido a partir de uma descrição que a Globo faz de si mesma. Ao lado das telenovelas, o futebol é prioridade comercial da TV Globo. Dona do futebol brasileiro (a ponto de “antecipar” com horas de antecedência resultado de sorteio da final da Copa do Brasil – clique aqui http://cinegnose.blogspot.com.br/2016/11/tautismo-da-globo-preve-resultado-de.html ) a tragédia do acidente aéreo que vitimou o time da Chapecoense mereceu uma extensa cobertura. Sendo o auge a transmissão de seis horas do velório coletivo em Chapecó, na Arena Condá. Para quem estuda a evolução das mídias, as transmissões ao vivo ou coberturas extensivas , principalmente de uma emissora em estado de metástase tautista, é uma oportunidade de obter flagrantes dessa tradução auto-referencial que a Globo faz do mundo.

 “Tenho emoções, logo a tragédia é real” 

 Que ao longo da evolução da linguagem televisiva os jornalistas deixaram de ser simples repórteres para se transformarem em protagonistas das notícias, não é nenhuma novidade. Porém, na Globo esse traço do telejornalismo também alcançou a metástase: as imagens por si mesmas parecem não conseguir expressar a dimensão exata da tragédia e tristeza que se abateu sobre a Chapecoense, sua torcida e o País. Repórteres e locutores devem constantemente abandonar a função referencial da linguagem para insistirem na função emotiva, centrada no receptor – só para relembrar, há seis funções da linguagem: referencial (sobre o quê a comunicação fala), emotiva (emissor), conativa ou apelativa (receptor), poética (mensagem), fática(canal), metalinguagem (a comunicação falando dela mesma).



No contexto atual da emissora é sintomática a escolha de Galvão Bueno para narrar o velório coletivo em Chapecó. 
http://cinegnose.blogspot.com.br/2016/08/galvao-bueno-do-patriotismo-ao-tautismo.html Se em 1994 o velório de Ayrton Senna em São Paulo, narrado ao vivo por William Bonner, deu um caráter jornalístico hard news para o evento, agora, com Bueno, parece que foi transferido para a editoria do jornalismo esportivo. E não foi para menos. O registro solene jornalístico foi substituído pelo “turbilhão de emoções que não para” – sem conter a emoção, chorou: “não aguento mais”, disse perdendo a voz diversas vezes na transmissão. O que fez a atenção do espectador diversas vezes concentrar-se nele, chegando a comover internautas em redes sociais elevando seu nome aos mais comentados no Twitter. É uma das características da linguagem tautista: fechada em si mesma, a imagem deve contar com redundância sígnica do emissor, da mesma maneira que o Papa Léguas tinha que sublinhar sua velocidade para as crianças (e, por isso, jamais o Coite o pegaria) fazendo “bip-bip” como buzina de carro. É como se Galvão Bueno quisesse dizer a todo momento: “vejam como estou emocionado, a tragédia é real!”. Assim como um correspondente ao vivo de Washington tem que se posicionar diante do Capitólio ou da Casa Branca para que o telespectador acredite que de fato o repórter está lá – autismo (a função emotiva supera a referencial) e tautologia (repetição na função emotiva daquilo que poderíamos ver apenas nas imagens). Resultado: infantilização da transmissão, análoga à linguagem das onomatopeias dos desenhos animados.



 “Vejam eu transmitindo, logo é verdade!” 

 A insistente centralidade no jornalista (como se ele antecedesse o próprio acontecimento) criou duas insólitas situações na cobertura dos eventos de Chapecó. Na edição do Jornal Nacional do sábado (03/11) a repórter Kiria Meurer (da RBS, afiliada à Globo) parou diante do ônibus que levaria os familiares ao aeroporto onde seriam recebidos os corpos. “Eu consegui um lugarzinho aqui no ônibus, vou acompanhar esses familiares. A partir daqui, a nossa câmera, com o nosso cinegrafista, não pode gravar. Então vou gravando com o meu celular”, disse ela - assista ao vídeo acima a partir dos 55:30 min. O auge foi quando Meurer filmou a si mesma com seu celular percorrendo a área do velório. Além da consciente invasão de privacidade (talvez um traquejo de anos de pauta sobre corrupção com câmeras secretas para mostrar corruptos amealhando dinheiro vivo – de novo o cachimbo entortou a boca), demonstra a obsessão metalinguística tautista de querer dizer sempre: “vejam eu transmitindo. Se transmito, então é verdade!”. E o segundo episódio explícito de auto-referência metalinguística foi quando a mãe do goleiro Danilo, “num momento de tragédia pessoal encontrou forças para consolar o repórter Guido Nunes da SporTV”. E termina dizendo: “numa demonstração de respeito aos jornalistas que também morreram...” - veja o vídeo abaixo.



O paroxismo de Cid Moreira
 Da metástase ao paroxismo. No ápice de um efeito Heisenberg (efeito no qual ao transmitir acontecimentos, a mídia na verdade transmite seus próprios efeitos nos acontecimentos – sobre esse conceito clique aqui) http://cinegnose.blogspot.com.br/2013/06/o-efeito-heisenberg-na-irrealidade.html, eis que vemos um patibular Cid Moreira lendo trechos bíblicos em um episódio que jamais esse humilde blogueiro poderia imaginar nos mais loucos pesadelos: Galvão Bueno narrando Cid Moreira. Jornalista e apresentador do Jornal Nacional da Globo por 27 anos, a aparição de Cid Moreira como protagonista na própria transmissão global do velório coletivo foi o sintoma mais explícito (o efeito Heisenberg) de uma cobertura na qual o tautismo foi generalizado. Nesse episódio, a Globo projetou involuntariamente a si mesma no próprio evento que transmitia. Além de comprovar como, ao longo das décadas, a emissora conseguir dominar corações e mentes, de tal maneira que a busca por conforto espiritual à tragédia veio através da inflexão da voz familiar que entrou nas casa das famílias de Chapecó por décadas – dessa vez não mais dando notícias ou narrando as peripécias de Mister M, mas lendo versículos das cartas do apóstolo Paulo aos Coríntios.



 “Nossos companheiros...

” Vinte profissionais de comunicação morreram no desastre aéreo, entre jornalistas, produtores, cinegrafista e locutores das emissoras Globo, RBS, Fox, Rádio Oeste, Rádio Super Condá. Mas somente os profissionais da Globo e afiliada RBS mereceram, desde o primeiro momento da cobertura, serem nomeados. Os restantes dos profissionais eram genericamente denominados como “nossos companheiros”. Ao longo da semana, apenas no canal fechado Globo News apresentou um infográfico objetivo com a lista completa com nome, foto e a emissora na qual cada um trabalhava. Tanto nas edições do Jornal Nacional como no Fantástico passou a ser informada a lista completa dos profissionais, porém com a evidente auto-centralização tautista que contamina a descrição que a Globo faz do mundo exterior: para cada profissional da Fox Sports citado, era destacado o período em que cada um deles havia trabalhado na SporTV, jornal O Globo, rádio Globo ou na TV Globo. Ou seja, somente pareciam merecer figurar na descrição completa por serem ex-profissionais das organizações Globo. Exploração sensacionalista das emoções e invasão de privacidade são elementos generalizados nas coberturas que a grande mídia sempre faz nas tragédias. Mas na Globo há um elemento mais crônico: seu monopólio e estrutura obesa que não mais se sustenta (a não ser através da intervenção na política nacional) criou uma patologia (auto-centralidade) que entrou em fase de metástase – o tautismo.

*globo expõe metástase do tautismo na tragédia chapecoense, por wilson moreira,no seu cinegnose,na fórum.

quarta-feira, novembro 23, 2016

não sei o que é pior: o racismo e o preconceito ou o preconceito(e a "necessidade") de para ser publicitário de elite " ter de fazer a miami ad school"

A única negra da Criação por Joana Mendes

Primeiro dia de agência, espero o Diretor de Criação para me apresentar ao resto da equipe. Enquanto aguardo, vejo subirem os que viriam a ser meus colegas de trabalho, a maioria ali é composta de homens brancos. Meu DC chega. Ele é branco, alto e tem um daqueles sobrenomes que precisam ser soletrados. Muito simpático, diz que está super feliz que eu faça parte do seu time. Vamos conhecer a Criação? Vamos.
Subimos no elevador, a agência é linda, já apareceu em revistas e mais revistas de design. Uma série de troféus estampa as paredes. Eu sempre quis trabalhar aqui. Logo, chegamos até meu andar. Enquanto caminhamos, eu vejo um homem e uma mulher negra conversando. Os dois usam uniforme de serviços gerais. Sorrio para eles, numa tentativa de me dizer negra também, mesmo que não me ponham uniformes. Sorriem de volta e abaixam o olhar.
O Diretor de Criação começa as apresentações. Aperto a mão de todos, vejo gente conhecida de outras agências e me dou conta que estou fazendo um cálculo que sempre faço. Bom, eu sei que a população que se auto-intitula negra no Brasil é de 54%. Então, todas as vezes que eu entro em um lugar de classe média, eu viro meu pescoço e vejo quantos negros têm ali, visitando, comprando, comendo, assim como eu. Negros que estão ali consumindo, não servindo. Na maioria das vezes, eu sou a única.
Quando o meu teste termina, percebo que, assim como nos espaços de elite, também não vejo nenhum outro negro na Criação. Isso não é exatamente uma novidade. A agência que trabalhava antes dessa tinha até muitos negros: entre 300 pessoas, éramos 7.
Como eu cheguei aqui? Como uma mulher negra pode ser redatora sênior num lugar que não tem mais nenhum negro?
Graças à uma vida de privilégios. A minha família faz parte do 1% dos negros de classe alta do Brasil. Nem sempre foi assim, minha avó era empregada doméstica e enfrentou um sem número de humilhações. Numa dessas, ela fez uma promessa que a sua filha não limparia o chão de ninguém. Todos os dias, a minha avó fazia questão de lembrar à minha mãe que ela era preta e que ser preto nesse país não é fácil. Ser mulher preta pode ser uma das coisas mais difíceis que você tem que enfrentar na vida.
Minha avó não sabia das estatísticas que eu sei: a cada 12 minutos uma pessoa negra é assassinada, nos últimos 10 anos, o assassinato de mulheres negras aumentou em 54%, mulheres negras ganham até 30% do valor que um homem branco com a mesma qualificação, negras são as que mais morrem por abortos, as que mais morrem no parto, as que menos estudam. Mulheres negras são a maioria da população brasileira. A minha avó sabia o que é ser negra de dentro da pele, sabia o que é ser mandada para trabalhar em casa de família com 10 anos de idade e parar de estudar, somente, por ser uma mulher negra.
Eu brinco dizendo que minha avó foi o Governo Federal da minha família, ela criou as cotas, por isso, minha mãe fez doutorado e conseguiu ascender socialmente. Por essa ascensão social, eu pude ser publicitária, uma profissão que exige que você seja privilegiado, uma profissão em que você pode demorar para ganhar dinheiro, pode fazer um estágio não remunerado, pagar uma Miami Ad School. Seus pais estão ali, pra te ajudar se você precisar. Nesse país, a maioria das mulheres negras não têm esse privilégio. Aliás, num país tão racista, a ascensão social é extremamente difícil.
Chega a hora do almoço. Um colega das antigas me chama para comer com meus novos colegas. Os papos seguem um protocolo bem conhecido: algumas palavras em inglês, novos restaurantes, novos drinks, viagens para lugares exóticos, aquela obra que fica no MoMa e a última vez que ele encontrou o Dedeco foi em Cannes. Acho engraçado quando me pronuncio sobre algum restaurante, um filme, ou quando fui Young Lions e parecem não acreditar que eu sei o que eu sei. Nada é mais novidade. Eu passei a vida inteira sabendo que uma mulher negra precisa trazer cópia autenticada em duas vias pra provar que sabe de alguma coisa. Na volta, penso no tanto de gente branca menos talentosa que eu vi crescer nos mais de 10 anos que sou redatora, o tanto de gente que teve um mestre, enquanto eu tinha que chegar pronta. Fico puta.
Alguns dias depois, meu DC chega até minha mesa e fala: Jô, você pode vir tirar uma foto? Claro que posso. Uma mulher e um homem já estão no local das fotos. Os dois são brancos de olhos verdes. Muito animado, o homem me pergunta: você sabe por que está aqui? Sem pensar, respondo: sei, ué. Por que eu sou negra. Ele emenda: é, bom…nós vamos mandar a foto pra matriz nos Estados Unidos. É importante que eles vejam que existe diversidade no ambiente de trabalho aqui do Brasil.
A verdade é que eu estou bem cansada de ser a única negra da Criação. Cansada de ter passado pela história que eu acabei de contar tantas vezes, que ela deixou de ser a história de uma agência só. Eu estou cansada de não ver outros negros nas salas de reunião, nas baias, nas faculdades e, nem mesmo, na propagandas.
Ao mesmo tempo, eu sei de algumas coisas que me dão esperança. Eu sei que existem medidas a longo prazo que podem criar uma elite negra: cotas nas universidades, nas empresas, melhoria do ensino público. Eu sei, também, que existem coisas que você pode fazer de dentro da sua agência, de dentro do seu lugar de privilégio na sociedade: veja que você é racista, encare o seu racismo, participe de eventos negros, quieto, ouvindo, aprendendo. Um dia, se vir racismo e não houver um negro que possa falar, fale. Peça mais negros dentro da equipe, um casting negro para participar daquela campanha, procure o movimento negro quando pensar em campanhas do tipo #somostodosiguais.
Quem sabe um dia, a gente não chega a ser 54% de uma agência?
Ah, aliás, eu e mais três amigos negros estamos criando uma consultoria. Traz sua conta pra cá.
(pretas na publicidade,  65/10 : a única negra na criação, por joana mendes)

quarta-feira, novembro 09, 2016

e o mundo da propaganda ficando cada vez menor* e cheio de trumps - que não o cara da foto, faça-me o favor



Um dia você vai trabalhar em propaganda, muito provavelmente numa agência.

Se você tiver a sorte de cair na criação, parabéns: sempre haverá um holofote para iluminar a sua autoestima. Essa é uma das vantagens de se trabalhar na área criativa. É lá que nascem as grandes ideias, é lá que acontece a badalação, é lá que os egos batem no teto (isso quando não explodem antes).

Por outro lado, também é na criação que se engole mais pizza: criação não tem hora para chegar na agência, não tem hora para sair, mas sempre tem uma hora certinha para entregar o trabalho. Pode reparar: quanto mais estrela o cara fica, mais gordinho, também, ele vai ficando. É o efeito pizza
.

É como uma maldição: você vai ficar famoso, vai ganhar uma boa grana, vai ganhar muitas menininhas, mas corre o risco de virar um faustinho silva antes de emplacar os 35.

Talvez você termine na mídia. É bom também. Dá o direito de deixar os caras de veículo no maior chá de cadeira. Enquanto você fica ao telefone com os figurões da Globo, a turma da imprensa nanica que se ajeite no sofá. Nessa função, você vai mexer com muita grana, e o truque é não contar que ela pertence ao cliente. E agir como se os milhões que vão para a televisão fossem todos seus.

Já imaginou o seu cartaz, chegar na namorada e mandar:
só hoje, Lili, autorizei 3 comerciais para a novela das 8 e mais 2 no Jornal Nacional. Quase 2 paus.

No atendimento, precisa tomar cuidado. Se na hora de ser contratado pedirem para você esticar os braços, é porque querem ter uma ideia de quantos layouts cabem embaixo deles. E você corre o risco de virar um leva-e-traz. Vai cansar de carregar anúncio, vai cansar da propaganda, vai cansar da vida.

Sem contar uma coisa ainda pior: numa agência em que trabalhei, fizeram a maldade de fajutar um mata-burro entre criação e atendimento. Veja que sacanagem: um lado era para os gênios, no outro ficavam os jumentos. Maldade é pouco.

Um lugar legal para ficar é na área digital. Deixe crescer uma barba de 2 dias, evite lavar o cabelo e use um tênis pedindo água (diz-se dos calçados onde a sola descolou, e eles parecem estar de boca aberta).

Sobretudo, adote o digitalês como idioma oficial do departamento. Se vier um cara do planejamento com perguntas, seja solícito:
Ô,meu, só tem 40 pixels. Vamos dar um drop-out que fica bom.

Se vier o presidente da agência, explique tudo direitinho:
Seo Sergio, são 400 hits no target. A gente dá um shut down com cross mídia, mais um enhance no set-up, não tem pra ninguém.

Se vier o financeiro, finja um desmaio. O filho da mãe vem do Ibemec.

Falando sério. Por que será que tão pouca gente faz prospecção? Conta nova é o oxigênio da agência. É a maneira mais indicada para uma agência crescer. É um seguro contra conta-que-de-repente-sai-da-agência- ninguém-sabe-porquê.

Resolvi chutar o balde. Depois de ter sido redator de várias agências, diretor de criação de quatro e sócio de outras três abri meu home-office (estava na hora) e me dedico a fazer prospecção (qualificada) e consultorias.

E capricho: quero encontrar a agência mais adequada para cada cliente. Procuro fazer o encontro entre clientes que têm potencial com agências que sabem desenvolver negócios. Casar a fome com a vontade.

Sabe da maior? A coisa começa a dar certo.

Xô, patinho feio. 

Hans Dammann
hdammann@uol.com.br    

*Prospecção: o patinho feio da propaganda? Do redator, diretor de criação, Hans dammann, falecido hoje aos 83 anos. Um dos verdadeiramente grandes da propaganda num tempo onde havia grandes bem maiores dos que hoje só ficam pela metade(menos na comissão)

domingo, outubro 30, 2016

o que dói mais? coragem ou covardia? e o que sai mais caro, capitular pela verba ou a independência aos tostões?



Sobre não seguir a corrente, não usar uma ética descartável
e não pegar todo e qualquer trabalho visando apenas faturar



“ Coragem é colocar as suas crenças acima do instinto de auto-preservação ”
— David Droga.

“ Coragem é levar o negócio (da agência e do cliente) para lugares perigosos por uma boa razão ” — esta, infelizmente, sem o autor confirmando a ausência de método por essas bandas de cá.

Já no dia 11 de setembro de 2016, de uma rara conversa com Isay Weinfeld no Festival do Clube, reservei com cuidado uns muitos aprendizados. Entre tantas coisas, Isay falou sobre a relação de confiança que precisa ser estabelecida com o cliente e o quanto ele preza por cada detalhe:

“ Às vezes se esquece que a obra é para quem pediu, não para você. Eu não projeto para mim, projeto para o outro. ”

“ 95% do meu trabalho é psicanálise. Os outros 5% são sobre pensar em tudo o que foi dito ”.

Em 2002, sem mês específico, anotei em um arquivo de Word sobre a recusa de um tatuador. Segue o evento reescrito com tintas de hoje: Certo dia, na hora do almoço, adentrei em um estúdio de tatuagem com um colega de trabalho. Eu sabia exatamente o que queria, ele não. O tatuador pediu para que cada um descrevesse o que gostaria de fazer e, em seguida, observou calmamente os desenhos já existentes nos corpos daqueles estranhos. Por um tempo, ele pareceu absorto, distante e, enfim, deu o seu parecer: tatuo você na semana que vem. Já para o cidadão ao meu lado, ele não hesitou: não vou tatuar você.
O meu amigo inflamou-se de raiva, tentou encontrar uma resposta para aquela sentença. No afã, acabou dando uma carteirada: mas eu vou pagar. E o profissional já calejado por anos de estúdio, retrucou: um trabalho que eu não acho coerente dói mais em mim do que em você, prefiro não fazer.

Distantes no tempo e nos arquivos, enxergo nesses eventos pontos que se conectam em uma espinha dorsal. Na frase de John Hegarty há uma desconstrução inusitada e verdadeira. Coragem no Keynote, todo mundo tem, mas na hora de pagar a conta, a decisão é de um lado. Respinga em todos? Respinga, mas a tinta pesa mais para o cliente. É uma reflexão que nos ajuda a rebalancear o ego. David Droga abre o leque da bravura e inclui as duas partes. É necessário, sim, enfrentar esse instinto que pode ser o do bônus garantido no fim do ano, da cadeira confortável e do salário alto, dos vícios em apostar nos mesmos formatos, nas fórmulas que deram certo para o concorrente. Coragem é sobre andar por caminhos não trilhados lembra o anônimo que estava lá e eu não anotei.
Do quase silencioso Isay, retiro a observação sobre ficar atento para que o ego de quem faz não se sobressaia ao trabalho pedido. Não criamos para nós mesmos, não somos nós que habitaremos aquele ambiente, que vestiremos aquela campanha. A boa relação parte do entendimento verdadeiro sobre o outro, do que ele precisa e carrega junto à possibilidade do não.
Do tatuador, o rigor que sublinha a importância de manter a coerência sobre aquilo que você acredita ferir os seus princípios. Não é seguir a corrente, usar uma ética descartável, pegar todo e qualquer trabalho visando apenas faturar. Das anotações, percebo que retidão também não aceita desaforo.

(retidão não aceita desaforo,do andré kassu, pica grossa da
crispin porter + bogusky brasil, in opinião no meio&mensagem)




segunda-feira, outubro 24, 2016

vinde a mim as criancinhas ?

*Publicidade infantil e os efeitos danosos às crianças: até quando?

Não é a publicidade que deve se autorregular, mas deve ser regulada de acordo com as leis
Desde a famosa propaganda dos anos 90, a publicidade infantil perdeu muito da sua inocência e hoje, liderada pela indústria de brinquedos e de alimentos, é ela o alimento perfeito para a insaciedade que ronda os nossos pequenos. E o pior: longe dos olhos zelosos dos pais, que estão na labuta! Eu conversei com um diretor de criação de agência de propaganda sobre as estratégias para fisgar a atenção das crianças, e ele confessou: criar uma necessidade na criança! Ela acreditará que precisa daquilo. Mas, ao contrário dos adultos, está despreparada para entender que precisar é diferente de querer, e se sente, na ausência do objeto desejado, deprimida nas suas condições de crescer de maneira saudável.
É por isso que, nas nações mais desenvolvidas, a publicidade infantil é praticamente banida! Vale até a contra-publicidade, como a que eu vi no aeroporto de São Paulo, onde o banner enorme com a foto de uma criança negra gordinha era um alerta contra a obesidade infantil.
Exemplos são Inglaterra, Alemanha, Canadá, e, no limite, a Suécia, país que proíbe, e não apenas restringe, publicidade dirigida a menores de 12 anos antes de 21h.
No país como o Brasil, que erotiza até garrafa de cerveja, transformando-a num corpo de mulher, a publicidade infantil – e ela é ainda mais poderosa nos canais internacionais da TV paga dedicados exclusivamente às crianças -, alicia, forja, confunde, ilude e está associada a distúrbios como transtornos alimentares e obesidade; erotização precoce, estresse familiar; violência e delinquência.
A cartilha, produzida pelo Instituto Alana, uma associação sem fins lucrativos, explica, por exemplo, que o delito mais praticado pelos adolescentes com história de delinquência é o roubo qualificado, ou seja, o desejo de agregar a si o “valor” que vê no outro. O meu amigo publicitário me dizia como um personagem de desenho infantil que as crianças adoram traz, no formato da cabeça, a angulação dos órgãos genitais masculinos, incluindo associações de cores e texturas, numa linguagem subliminar que é tão típica da propaganda, acessando partes do cérebro que vão além da consciência racional.
É esse o jogo da publicidade: despertar o mais puro desejo do consumidor com base em identidades, arquétipos e padrões pré-construídos que são ainda mais nocivos às crianças. A cartilha feita pela ONG Alana é apenas um dos produtos da corajosa campanha disponível no site www.criancaeconsumo.org.br e demonstra como o incentivo à bebida também atinge em cheio as crianças.
Os especialistas questionam: por que a propaganda do cigarro foi banida desde 2000 e a das bebidas continuam causando estragos em baixinhos e grandões, sendo hoje os fabricantes de cerveja os principais anunciantes na TV brasileira, a qualquer hora do dia? Talvez o aspecto mais preocupante nesse grande marketing infantil que se tornou a televisão, um mercado de ilusões sem limites e pudores, é a venda do conceito vazio de felicidade, tão bem traduzido pelas propagandas de margarina, com seu arquétipo de família feliz, branca, elitista, vendo a camada de margarina derreter-se num pão quentinho, numa linda manhã ensolarada numa cozinha também branquinha.
Não é a publicidade que deve se autorregular, mas a Constituição e a lei brasileira que colocam o Estado como responsável por afastar a criança e o adolescente de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, termos usados no art. 227 da Constituição. A presença de crianças em peças publicitárias também ofende a Carta Magna, que proíbe, no art. 7º, qualquer sorte de trabalho infantil. E, em que pese toda o discurso democrático da liberdade de expressão e da não censura perpetuado pelo marketing infantil e pelos donos de mídia, e o meio internet não está fora disso, a verdade é que a lei brasileira proíbe a publicidade infantil, mesmo que não o faça de maneira explícita e direta.
No exame de projetos que tramitam na Câmara sobre publicidade, é sempre remar contra a maré o esforço para tornar mais claro, por exemplo, o que está dito no art. 37 do Código de Defesa do Consumidor, que proíbe a publicidade enganosa ou abusiva, também entendida como aquela que “se aproveita da deficiência de julgamento e experiência da criança”. Mas nem a Constituição brasileira, nem o Código de Defesa do Consumidor, nem a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança são suficientes para derrubar a ofensiva publicitária voltada para as crianças no Brasil, setor este que é muito auto-regulamentado, mas que domina como ninguém as práticas de burlar as regras que ele mesmo criou, com imagens, símbolos, estratégias e narrativas tão poderosas quanto danosas na arte da persuasão ao consumo exagerado e à insaciedade perpétua.
O que chama a atenção no trabalho realizado pelo Instituto Alana é a clareza da abordagem que demonstra, sem meias palavras ou discursos dissimulados, como a publicidade infantil colabora, por exemplo, para o fato de que mais de 15% das crianças brasileiras hoje sejam obesas e 33% estejam com sobrepeso, segundo dados do IBGE. É uma realidade peso-pesado que deve ser enfrentada com alterações, sobretudo, no Estatuto da Criança e do Adolescente, que sequer traz, no corpo da lei, a palavra propaganda ou o conceito de publicidade.
Quando a gente entende que o mais perverso é o fato de que estão mais expostos à publicidade infantil justamente os filhos das famílias de menor poder aquisitivo, que passam mais horas na frente da televisão, o enfrentamento do tema torna-se ainda mais urgente: sem falsos discursos de censura e sem perpetuar a falácia da liberdade de expressão, que na verdade se traduz na plena liberdade para explorar as ilusões infantis, num mundo da fantasia que a publicidade domina como ninguém.
por beth veloso, jornalista e consultora legislativa da câmara dos deputados nas áreas de comunicações, ciência e tecnologia, para o portal vermelho,via caros amigos.

terça-feira, outubro 18, 2016

o(s) bonequinho(s) não gostam

Filme de Costa-Gavras relata a origem comum dos estados autoritários e como se dão as coisas neles: decide-se dar à polícia carta branca para atuar.

Há filmes que de tempos em tempos devem ser revistos. Permanecem sempre novos e universais. São os verdadeiros clássicos. Assim como ocorre com livros aos quais se recomenda várias leituras ao longo da vida, algumas produções políticas do diretor grego Constantin Costa – Gavras, naturalizado francês, de 83 anos, são clássicas. Z (de 1969), A Confissão (1970), Estado de sítio (72) Amém (2002)  e Seção especial de justiça, de 1975.
 
Mesmo na mais frívola irresponsabilidade, com esses filmes fica mais difícil ignorar a origem comum dos estados autoritários e como se dão as coisas neles. Desenha-se, nos filmes de Costa-Gavras, o processo de deterioração do caráter dos protagonistas da vida pública que sucumbe ao sofrer repulsivas torções e distorções, ou diante de pressões e ameaças políticas e policiais - veladas ou não -, ou face à chance, de repente aberta, de legalizar o assalto ao poder. 
 
Section speciale, co-produção França, Itália e Alemanha, oferece uma régia lição sobre o assunto, com os diálogos magistrais do escritor Jorge Semprún, comunista militante do Partido Comunista Francês, de primeira hora da época, assim como foi seu companheiro Costa-Gavras. Ele mostra a naturalidade das tenebrosas transações que ocorrem no mundo sombrio manipulado pelos donos ilegítimos do poder, nas ditaduras e nos estados de exceção – como o que está vigente no Brasil sob ocupação, hoje: um Estado de Exceção dentro do Estado de Direito, como disse há dias o jurista Pedro Serrano.*
 
No caso do filme, o cenário é a França ocupada de Pétain em agosto de 1941 e nela a justiça colaboracionista: ministros germanófilos, juízes hipócritas, promotores e procuradores subservientes,  advogados indiferentes, os carreiristas e os dissimulados; traidores e covardes de todos os tipos e calibres.


Para a corja, o fantasma da época foi o ‘’abismo da Espanha’’ quando era preciso evitar, a todo custo, que a França escorregasse para ele. O inimigo eram os anarquistas, comunistas e gaulistas. “Simpatizantes dos  partidos de esquerda,” um procurador conselheiro da corte especial alveja, no filme, à semelhança do ministro da justiça do momento, aqui,  mais preciso ao dizer: eles são ‘‘a escória da terra.”
 
A certeza nesse ambiente era a entrada dos exércitos alemães em Moscou, breve.
 
Enquanto membros do governo francês cultivavam pompas e vaidades na estação de águas de Vichy, em Paris jovens estudantes comunistas resistentes praticavam um atentado, no metrô, e matavam a queima roupa um alto oficial da marinha alemã nazista. A retaliação foi imediata. Para a punição exemplar, os alemães decidem fazer uma centena de reféns na cidade e decapitá-los na Plâce de la Concorde. Mas são dissuadidos e lembrados da guilhotina em praça pública, um dos emblemas da revolução de 1789.
 
A partir do episódio, a narrativa do filme segue desvendando as manobras do submundo jurídico para a criação fulminante (todas as medidas excepcionais devem ser promulgadas com rapidez para deixar atônita a população) de uma corte especial que julgasse resistentes e presumíveis maquis, em um tribunal de exceção com tintas de legalidade - a section speciale. Seis presos seriam escolhidos entre comunistas, judeus ou comunistas judeus acusados de pequenos delitos. Julgados a portas fechadas. Á sua revelia eles estavam previamente condenados à pena de morte.
 
Decide-se dar à polícia carta branca para atuar. A lei de exceção, por ser como tal, era retroativa. ‘’São medidas que servem à situação, mas não à Justiça,’’ reagem alguns juristas renitentes. Em seguida serão convencidos e cooptados. 
 
“Jogamos a Justiça na ilegalidade e a vergonha sobre a magistratura,” bradam. “Não. Trata-se de promover a ‘’salvaguarda nacional’’, replicam os que procuram comprar para si a boa consciência. “Aqui, não se trata de Justiça”, argumentam. “Vamos salvar cem reféns e para isto precisamos de seis condenados à morte.”
 
No início, alguns juízes ensaiam resistir à promulgação da lei antiterrorista que permitirá condenar qualquer um a qualquer hora. 
 
O leitor observa semelhanças? 
 
“A razão de estado deve ditar as decisões jurídicas,’’ justifica a si mesmo um magistrado. E prosseguem a farsa e a burla do julgamento até que um dos réus, (já condenado sem o saber), Sampaix, jornalista do jornal L’Humanité, órgão do Partido Comunista Francês, o PCF, decide mostrar que o rei está nu.”O povo francês julgará este dia,” diz. 
 
Em certo momento das discussões a incerteza bate à porta de um dos procuradores. “E se os alemães atolarem na profunda Rússia e os americanos chegarem às costas da Inglaterra?” Os demais tergiversam.
 
No fim de Seção Especial de Justiça os seis presos escolhidos entre a ‘’escória’’ das esquerdas são executados. Uma legenda informa: “Na Libertação, nenhuma medida séria foi tomada contra os magistrados que participaram dos tribunais de exceção. Eles funcionaram durante toda a ocupação.”
 
Todos aqueles juristas da section speciale, no entanto, foram julgados pelas suas próprias consciências, como anteviu Sampaix, o jornalista do L’Humanité, olhando-os cara a cara, diante da corte de exceção, recusando o embuste da defesa.




* O  jurista Pedro Serrano, professor de Direito Constitucional da PUC-SP lembra que ‘’no caso Lula, o TRF-4 assumiu que está praticando a exceção, que a Lava Jato é um caso excepcional e, portanto, devem ser suspensas as normas gerais no caso, para o juiz atuar como queira. A Lava  Jato não precisa seguir as regras de processos comuns.” ( Rede Brasil Atual).
 
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(leis de exceção e a vergonha da magistratura, por léa maria aarão reis, jornalista, na carta maior)






sábado, outubro 08, 2016

se,como diria o nélson, toda unanimidade é burra, vamos tornar o aquário mais inteligente *

o oceania, quer dizer o aquarius
Fui assistir o filme Aquarius numa expectativa inocente, influenciada pelas críticas pipocadas no Facebook e em sites de cinema e cultura. Não, eu não li todas, mas o frisson nas redes sociais me fez acreditar que seria um filme interessante de pagar pra ver. Fui lá, paguei, me sentei pra assistir. Antes de continuar meu raciocínio preciso me localizar: eu sou sapatão, preta, gorda, estudante e desempregada. Esses marcadores sociais são importantes ao destaque porque me encontro no não-lugar das representações políticas e midiáticas. Localizar as falas é um modo de explicitar a necessidade do reconhecimento dos sujeitos na sociedade brasileira, algo que raramente é feito a não ser para aquelas pessoas já marcadas socialmente (ou seja, euzinha mesma); sujeitos brancos, masculinos, heterossexuais se compreendem como universais pois não se localizam a partir dos marcadores sociais e vão perpetuando essa ideia torpe de que não partem de lugar algum, ou melhor, o ponto de partida é "isento".

Ledo engano, meus caros. Não existe neutralidade em nenhuma ação, isso é uma falácia pra vender publicidade e jornalismo que corrobora pra ideologia dominante, coisa de quem não quer reconhecer a realidade perversa que existe. Pois bem, voltemos ao filme: tive vontade de sair da sala de cinema pelo menos em 3 momentos! Mas eu realmente tive o impulso de levantar na cena em que tratava das empregadas domésticas da "família". Fui segurada pela minha amiga que estava ao lado e que me fez ver o filme até o final. Fiquei lá, contrariada, mas fiquei. Assisti tudo na promessa de que se tivesse a parte 4 eu não aguentaria e sairia mesmo! Esse foi o acordo.
"Se a intenção era chamar atenção para a forma com que a classe média trata as pessoas trabalhadoras domésticas, o filme não cumpriu o papel de comunicar e problematizar a questão. Não teve a proposta de desvendar essas relações, apenas de apresentá-las ao público que, em sua maioria, adorou e aplaudiu nas salas de cinema"
O ápice do meu incômodo foi quando soltaram a frase "Elas roubam e a gente explora. Justo", sobre a lembrança de uma empregada doméstica antiga que havia roubado a família. Engraçado que mostraram essa cena de "roubo" mas não mostraram a relação de exploração perversa da classe média para com suas trabalhadoras domésticas. O "justo" acabou sendo aquela relação de que "são quase da família". E se a intenção era chamar atenção para a forma com que a classe média trata as pessoas trabalhadoras domésticas, o filme não cumpriu o papel de comunicar e problematizar a questão. Não teve a proposta de desvendar essas relações, apenas de apresentá-las ao público que, em sua maioria, adorou e aplaudiu nas salas de cinema. Não teve um viés questionador como eu imaginava, dada a repercussão do filme. Para uma amiga, o filme foi mea culpa. Para mim, foi perfumaria.
Percebam o quanto a mídia é responsável por manter e alimentar o imaginário social racista, fazendo com que no cotidiano as relações sociais também se mantenham, ou seja, vocês se assustarem quando uma mulher preta chefia grandes projetos e empresas, o "espanto" é o racismo. Estranhar a presença de pessoas negras em cargos de responsabilidade ou em evidência cultural, é fruto do racismo que segue sendo reproduzido nas telonas, até mesmo quando este se propõe a algo mais "denunciante", mas que o fez sob a égide racial que estrutura as relações sociais brasileiras.
Não foi utilizado nenhum questionamento para além do que sabemos a respeito das práticas racistas e elitista daqueles que se julgam burguesia para não pertencer à classe trabalhadora como demérito do ser. A especulação imobiliária que contém no filme é algo florido e amenizado no sentido de que a busca por uma solução aparece como individual, de revanche na mesma moeda, de ameaça mas de manutenção dos acordos porque "fulano é da família". As hierarquias mantidas e gravadas serviram para reforçar ideologicamente o lugar que é imposto para as pessoas pretas nesta sociedade. A notar tanto aplauso e elogio sendo distribuídos por aí, isentos de uma reflexão sócio-racial, me fizeram compreender que esse filme serviu para a classe média se identificar com a história e não compreender a colonialidade violenta contida nas relações de poder ali filmadas. Então não acredito que tenha servido amplamente para quebrar questionar esses lugares hegemônicos, de práticas racistas e elitistas, pelo contrário, foi um mea culpa bem chulo que enfatizou o lugar da mulher preta, da trabalhadora doméstica, do porteiro ao salva-vidas, todo mundo tem que estar à serviço de uma pessoa cujo status social é a fonte que desenha as relações.


(aquarius: um olhar sobre a narrativa da classe média branca - por jéssica hipólito, na caros amigos)

o aquarius, quer dizer o oceania, em 1950

nota do blog: publicar o artigo não quer dizer necessariamente que concordamos com seu teor, até porque não vimos o filme ainda. mas é sempre um dado a mais para reflexão, equivocada ou não.

segunda-feira, setembro 26, 2016

ten years after¹ ou olivetto* pondo os pingos nos is nos bull shits que andam por ai





No dia 14 de setembro, o cinema Sao Jorge foi o local escolhido para a 1ª edição do Lisbon International Advertising Festival, onde foram realizados palestras, debates e festa com distribuição de prêmios para os melhores trabalhos na área da criatividade e comunicaçãoo, avaliados por um júri internacional. Washington Olivetto, chairman da agência W/McCann eChief Creative Officer do McCann Worldgroup para a América Latina e Caribe, foi convidado para Presidente do Júri e homenageado com o Prêmio Carreira – uma estatueta representando um corvo (esse, vermelho, super pop; veja na imagem abaixo), símbolo da cidade. Reunido com os outros jurados no hotel D. Pedro, no intervalo entre uma peça e outra, recebeu o Blue Bus para uma descontraída entrevista sobre o que mesmo? Descubra logo a seguir.
Qual o sentido que a palavra criatividade tem hoje para você?
Às vezes as pessoas consideram as palavras como novas, porque não sabiam que já existiam. Quer um exemplo? Algumas palavras que sempre foram utilizadas na publicidade – como conteúdo e produção de conteúdo. Desde que eu era criança, quando a Estrela fazia o programa ‘Pim Pam Pum’, já era produção de conteúdo. Tudo pode ser considerado um gesto criativo, como se na vida fosse possível ser bem sucedido ou viver bem sem gestos criativos. Um bom time de futebol é baseado num gesto criativo, um bom anúncio é um gesto criativo, um bom casamento é um gesto criativo. Sao palavras e atitudes que se renovam, que se criam e se recriam cotidianamente.
A criatividade está perdendo a qualidade?
A gente vive um momento geral onde os critérios de julgamento, de triagem, estao mais baixos. Onde o gesto criativo nao está vivendo o seu auge, no Brasil e no mundo. Saindo um pouco da publicidade, nao é muito por acaso que o melhor roqueiro e a melhor banda do mundo seja liderada por um homem de 75 anos chamado Mick Jagger.² Não é muito por acaso que o grande compositor revolucionário brasileiro ainda seja o Caetano Veloso. Entao, você tem momentos onde as rupturas criativas nao estao acontecendo em alto valor e aí, um monte de gente acaba sendo beneficiada. Eu sou beneficiário disso, onde a percepçao do meu trabalho é vanguarda absoluta. É claro que vai ter um momento, ciclicamente isso acontece, que tudo pode mudar. Pode nao ser agora, pode demorar algum tempo para ocorrer uma nova revoluçao, que normalmente acontece muito próxima das áreas artísticas e das áreas alimentadas pelas manifestaçoes artísticas. Ou seja, publicidade nao é arte mas ela é alimentada pela arte. Os momentos de ruptura acontecem sequencialmente, quase ao mesmo tempo, como a bossa nova, os Beatles, a pílula, a mini saia, o tropicalismo…
E o Festival de Cannes? O foco mudou ou nao?
O foco ficou alargado. Na verdade, a atraçao virou conversar sobre o produto final, nao fazer o produto final. Em Cannes hoje, o grande foco sao as palestras, os debates, mas isso sao ciclos, é normal, sao ciclos…
Nessa sua trajetória profissional quais foram até agora os seus melhores momentos?
Eu tive a sorte, por um fenômeno geracional, de poder participar de muitos momentos de evoluçao. Ou seja: comecei no momento em que a publicidade brasileira se internacionalizava. Tive o privilégio de estar durante 14 anos no melhor período da DPZ. Depois, fui o 1° profissional brasileiro a ter um sócio multinacional – a WGGK. Mais tarde, revi o nome Brasil – que por causa dos militares, não pegava bem. A W foi a mãe e a madrasta de todas as novas agências. Mãe e madrasta porque por um lado, foi muito legal. Por outro, a concorrência aumentou… Com a WMcCann eu tenho um privilégio incrível na minha vida de poder participar de todas as evoluçães. O anúncio de página dupla no Estadão, que saiu sobre a campanha BRA de Bradesco e Seara Gourmet com o Robert De Niro, é um exemplo de que essa agência vale ouro.
Como você vê o futuro dos filmes, das grandes peças de publicidade como hoje existem? Vao continuar ou vao desaparecer?
Uma das poucas coisas, das poucas dúvidas que a gente não tem nessa profissão, repleta de dúvidas – e é função nossa ter sempre dúvidas – é a de que em qualquer formato, se nao houver uma grande ideia, não acontece nada. Tudo continuará igual. E a gente também não tem dúvida que nenhuma mídia, feita com competência, irá morrer. As mídias vão se interligar entre si. Palavras dos meus amados, queridos amigos precursores do digital – o Julio Hungria que foi o 1º entre eles. Todos tiveram a consciência que apesar da velocidade fabulosa da internet, ainda não existe veículo no mundo mais veloz do que o rádio. Na internet, a gente tem que escrever. No rádio, se tiver um talento, ele fala antes.
E o futuro próximo, como vai ser?
Nos próximos anos, tudo acontecerá em telas, diferentes telas. Agora, se nao tiver uma boa ideia dentro dessas telas, nao irá acontecer nada. Uma boa ideia que tenha a capacidade de ganhar a ‘cara’ de cada uma das telas. É claro que em alguns momentos você terá que ser mais específico para comunicar – e eu nao vou mais chamar publicitário de publicitário. Já há anos que eu chamo de comunicador.
Como chegar a essa boa ideia? Há alguma fórmula?
A 1ª coisa, sagradíssima, para quem quer comunicar, é não ter preconceito com a informação. Você é um adequador de linguagens, portanto tem que conhecer as linguagens para poder adequá-las perfeitamente. Eu me orgulho muito que apesar de ser um ouvinte contumaz de Mile Davis, eu fui certamente o 1° publicitário no Brasil que mostrou a Anitta para a minha equipe. E é assim que tem que ser. Isso vale para a literatura, o teatro, a TV, vale também para o cinema. Se você se treinar para não ter preconceito de informação, você vai ter uma percepção melhor, vai conhecer mais linguagens e como consequência, será um melhor adequador de linguagens. O fundamental é o gesto de escrever! Se a gente quiser ter momentos verdadeiramente efetivos, a gente tem que escrever tudo melhor. Por exemplo: acho que o problema do Brasil nos últimos anos é que o Brasil andou sendo não escrito… Na publicidade, não é que os textos precisam ser melhor escritos. Não, os planos precisam ser melhor escritos, o pensar precisa ser melhor escrito, os visuais – que teoricamente são visuais – precisam ser melhor escritos. Para o Prof. João Renha, sobre uma explicação teórica do meu trabalho, contei uma história para ele que não foi publicada mas gostaria de repetir aqui. Quando me perguntaram qual o meu método para descobrir um potencial, jovem e brilhante redator, respondi da seguinte maneira – “Eu escolho um rapaz bem feio, de uma família muito humilde, que tenha umas namoradas muito bonitas, filhas de famílias muito ricas. Porque certamente deve ser um cara ótimo com as palavras”. Eu trabalho com um negócio chamado seduçao. Eu quero esse cara na minha equipe!
Como Presidente do Júri, gostou do nível dos trabalhos apresentados neste 1º Festival Internacional de Lisboa?
Fiquei muito honrado em ser convidado para a presidência do júri e adorei a homenagem do Prêmio Carreira – porque ninguém ainda teve um na língua portuguesa. Quanto ao Festival, achei o nível dos trabalhos inscritos bastante alto. Mas tem uma coisa que me incomoda nos Festivais em geral, que Cannes estabeleceu nos últimos anos. A necessidade de contar os ‘cases’ e que eu acho insuportável, até pelo seguinte. Minha mãe, quando está sentada em casa, nao entra alguém para contar o ‘case’. Ela gosta do que vê, ou nao gosta. Me incomoda porque é uma prática artificial da realidade da profissao. Curiosamente, quando Cannes vivia o seu auge criativo, era proibido na sinopse você explicar a intençao. Por que se nao entenderam, é porque nao é bom. Publicidade é feita para ser entendida! É a chamada ‘síndrome dos cases’ que tem em todo o mundo, em todo o lugar. Para os jurados me apresentei da seguinte maneira – “Minha funçao como presidente do júri é nao atrapalhar o júri. Se precisarem de mim para dar um palpite, eu dou”. No final, tive uma ótima impressao.
Existe uma publicidade europeia, americana, asiática ou lusófona, vamos dizer assim?
Acho que na publicidade existe boa ou ruim. E a média é ruim. A boa tem parecências que depois se adaptam aos fenômenos culturais. Eu amo os meus amigos franceses mas sua publicidade tem sempre um tom ‘erotic ou neurotic’.
A publicidade terá que se adaptar às novas mídias e ao seu público? Quem serao os ‘donos’ dessas novas mídias?
Os mecanismos de sedução serão os mesmos, em veículos diferentes. O que é uma rede social? Rede social quando eu era menino já existia! As amigas da minha vó, numa vila em São Paulo, falando que viram a filha da vizinha agarrando o namorado atrás do poste na noite anterior, era uma rede social. Elas só não tinham a tecnologia… O que é o Instagram? Sabe aqueles chatos que quando viajavam projetavam slides e serviam fondue? No Instagram estão os chatos dos slides, sem o fondue! Esses comportamentos sempre existiram e existirão. São necessidades dos seres humanos que vão se multiplicando de diferentes maneiras. Agora, quanto à publicidade, eu não tenho dúvida nenhuma que, particularmente ela, irá misturar nos próximos anos o conhecimento criativo com o conhecimento tecnológico. Durante muito tempo, havia o gesto de criar e o de produzir. Hoje, esses 2 gestos estão muito interligados. A possibilidade de uma mesma pessoa criar e produzir é muito grande. Vão surgir novas mídias, sempre surgirá. Outra dúvida que eu não tenho e que adoraria ter sido o autor da frase, que não é minha – “É praticamente indubitável que os grandes donos das novas mídias serão os grandes donos das velhas mídias”.

vermelho para o prêmio de carreira

*Entrevista | D. Pedro, S. Jorge e Washington Olivetto num encontro em Lisboa, via marise araujo para o blue bus, que já era twitter muito antes do twitter.
https://www.youtube.com/watch?v=bGIC4wbY9kI

https://www.youtube.com/watch?v=orPhkLpX3ps

"O bruxo de Juazeiro numa caverna do louro francês (quem terá tido essa fazenda de areais?) Fitas-cassete, uma ergométrica, uns restos de rabada Lá fora o mundo ainda se torce para encarar a equação Pura-invenção dança-da-moda A bossa nova é foda O magno instrumento grego antigo Diz que quando chegares aqui Que é um dom que muito homem não tem Que é influência do jazz E tanto faz se o bardo judeu Romântico de Minnesota Porqueiro Eumeu O reconhece de volta a Ítaca A nossa vida nunca mais será igual Samba-de-roda, neo-carnaval, rio São Francisco Rio de Janeiro Canavial A bossa nova é foda O tom de tudo Comanda as ondas Do mar Ondas sonoras Com que colore no espacial Homem cruel Destruidor, de brilho intenso, monumental Deu ao poeta, velho profeta A chave da casa De munição O velho transformou o mito Das raças tristes Em Minotauros, Junior Cigano Em José Aldo, Lyoto Machida Vítor Belfort, Anderson Silva E a coisa toda A bossa nova é foda A bossa nova é foda A bossa nova é foda A bossa nova é foda Deu ao poeta, velho profeta A chave da casa De munição O velho transformou o mito Das raças tristes Em Minotauros, Junior Cigano Em José Aldo, Lyoto Machida Vítor Belfort, Anderson Silva E a coisa toda A bossa nova é foda A bossa nova é foda A bossa nova é foda A bossa nova é foda A bossa nova é foda"