terça-feira, outubro 17, 2017

as novas fazendas dos mesmos fazendeiros * ou como agências cultivam perfis falsos para construir e desconstruir reputações

Aquele argumento que seres humanos só se relacionam com até 150 pessoas é quase tão velho quanto as redes sociais. Um papo chato, sem dúvida, mas que serve de ponto de partida para uma questão importante: muitos dos seus amigos no Facebook, Twitter, Instagram e até WhatsApp podem não ser de verdade mesmo. E não se trata do fake óbvio com fotinha de pizza sorridente. São, na verdade, personagens bem construídos, mantidos por longos períodos de tempo e administrados por equipes especializadas com o objetivo de influenciar uma rede de contatos e captar informações sobre grupos específicos.
Este é um expediente antigo, mas que veio à tona com força no ano passado durante a eleição americana, quando também se popularizou o termo "fake news". Além das notícias falsas em si, a expressão engloba todos os aspectos de operações de informação e desinformação motivadas por interesses políticos, como ataques coordenados contra reputação de adversários, exércitos de bots e os próprios perfis falsos com maior nível de sofisticação.

Ainda que ilegais, as fazendas de bots no Facebook ajudam políticos e marcas a ganharem relevância em troca de milhares de reais.

Com a repercussão negativa da prática nos EUA, o Facebook publicou no final de abril um documento em que descreve como a empresa está mudando diretrizes de segurança. No processo de combate a processos abusivos, criaram uma terminologia para classificar estratégias e peças utilizadas nesse jogo. Dentre elas, estão os "false amplifiers": contas falsas usadas para defender um discurso, espalhar boatos, inflar o número de participantes e seguidores de grupos e páginas e, se tiver sucesso, mudar a opinião dos amiguinhos. 
A grande preocupação do Facebook é o emprego desses perfis falsos em um contexto político, mas eles não se limitam a isso. Esse tipo de ferramenta é muito usada na publicidade para influir na reputação de marcas – para o bem e para o mal. "A publicidade percebeu que uma pessoal real é muito mais formadora de opinião do que a marca falando", me conta uma publicitária que pediu para não ser identificada. "Daí veio o boom dos influenciadores digitais e, hoje, os microinfluenciadores. E o microinfluenciador pode ser qualquer um. Não precisa ter milhões de seguidores. Pode ser eu ou você."
É nessa parte de criação rotineira que mora a "ciência do perfil fake". Os detentores dos perfis devem se esforçar todos os dias para manter o usuário ativo. Criam imagens, posts e, por fim, a parte mais importante: as infiltrações nos grupos de discussão. "Por meio destes usuários fakes criamos uma linguagem própria, com cases que favorecem a imagem da marca, seja para avaliações, defesa em uma discussão. É uma pessoa que defende, sutilmente, a marca nas redes. Tudo com bom senso para não ser desmascarado, claro."
Segundo a publicitária, a atividade é feita com planejamento. "Esse tipo de atividade é feita a longo prazo, com contratos extensos", diz. "Não consigo fazer isso com um contrato de 6 meses, por exemplo. Isso serve para marcas que querem reverter uma imagem de reputação, seja por serviço ou produto, mas a longo prazo. E, algumas vezes, dependendo da negociação, quando o contrato acaba, 'entregamos' os perfis criados à empresa."
Na surdina
É difícil estimar o quanto práticas como essa são disseminadas. Como é de se imaginar, é tudo feito na baixa. Conversei com o número grande profissionais que trabalham com redes sociais, e a maioria deles disse desconhecer estratégias do tipo. "O primeiro trampo que eu fiz assim, pirei. A gente fica meio louco na real. E é total sigiloso, não dividimos isso nem com toda a equipe da agência", conta a mesma publicitária.
Aqui e ali, no entanto, casos aparecerem. Alguns inocentes, outros nem tanto. Há perfis utilizados para incentivar o começo de discussão em posts corporativos, perfis utilizados para entrar em grupos de condomínios se passando por morador e coletar informações para a construtora, e por aí vai. Em consenso, ninguém envolvido nesse tipo de ação parece curtir muito.
"É patético", diz outra publicitária que,apesar de não administrar perfis falsos, trabalhou com isso de perto. "Essas páginas acabam virando semi-fakes, pois as pessoas ficavam praticamente o dia todo usando a rede por estes perfis. A ordem vinha de cima, não partia do próprio funcionário, mas acabava virando rotina com o passar dos dias. A rotina era entrar nas páginas dos próprios clientes ou de concorrentes e comentar os posts falando que o produto era muito bom com elogios e marcações ou reclamações no caso dos concorrentes, ou sugerindo o produto das marcas da agência", conta.
A mesma publicitária conta que, hoje, os fakes são usados até para sugerir compras de modo direto. "Estes fakes também estavam muito em grupos fechados, por exemplo, grupos relacionados a decoração. As pessoas estavam lá falando sobre um assunto 'x' e esse fake entrava nos comentários sugerindo produto 'y' ou 'z', engatando uma conversa com as pessoas que tinham interesse naquele post, sugerindo produtos da marca 'x'", explica. Para ela, estratégias como esta são pouco eficientes, já que o custo não se traduz em vendas, por exemplo, e o impacto na reputação não é tão relevante.
Pesquisadores e acadêmicos, por sua vez, condenam a prática. "É uma relação desleal que se constrói", diz Fabio Gouveia, um dos coordenadores do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). "Há uma questão ética, a estratégia cria uma relação falsa sem existir uma finalidade de proximidade entre as pessoas, mas sim comercial."
Para Fabio, no entanto, ainda que o uso dessas estratégias na publicidade seja preocupante e levante desafios futuros para a regulamentação do setor, não é tão prejudicial como na política. "No consumo, é mais factível enxergar essas práticas. Na política, é mais difícil e o impacto real dessa falsidade ideológica é difícil de mensurar", diz.

O baile todo

Em junho, a empresa de segurança da informação Trend Micro publicou o estudo "The Fake News Machine: How Propagandists Abuse the Internet and Manipulate the Public". A pesquisa detalha como funciona o comércio de ferramentas de influência em redes sociais nos mercados do Oriente Médio, da China, da Rússia e, de maneira geral, dos países anglófonos. 
Dentro desse levantamento estão inclusos softwares que automatizam a ganhada de likes no Facebook ou Instagram, assim como aqueles que permitem que bots superem testes de autenticidade como captchas e influenciem em votações ou pesquisas de opinião de maneira automatizada e os que são orquestrados para derrubar determinado conteúdo em uma rede social.
Para exemplificar como essas ferramentas podem ser utilizadas em conjunto em campanhas de desinformação, a Trend Micro criou alguns estudos de caso. Num deles, sugere que é possível fazer um protesto acontecer com US$ 200 mil. O primeiro passo, diz a empresa, seria criar 20 grupos para discutir tópicos ligados ao tema e encher cada um deles com mil membros de alta qualidade, ou seja, perfis falsos mais complexos que bots. Só isso custaria em torno de US$ 40 mil dólares. Ainda dentro dessa hipótese, que também conta com a disseminação de notícias falsas para incitar os ânimos, a campanha atingiria uma audiência de dois milhões de pessoas. Se 1% desse povo aparecesse no protesto, já seriam 20 mil cabeças – não enche a Paulista, mas saí bonita a foto em frente ao Masp.
"Na realidade, uma das grandes dificuldades que temos é avaliar como esse tipo de movimento na internet afeta o mundo real. Um problema é que a imprensa se concentra em parâmetros de audiência e então a importância de um número, mesmo que falso, é inflacionada", explica o pesquisador do Labic. 
Para combater a movimentação de perfis falsos, Fabio conta que existem estratégias como estudar características de postagens e sistematizar dados como semântica das mensagens escritas, repetições de ideias, horários em que são feitas, identificação de padrões, entre outros. "Em um primeiro momento isso era mais simples, mas hoje esse ambiente se tornou complexo. Há usuários reais de redes sociais que agem de maneira semelhante a bots ou contas falsas", conta.
De fato, o Facebook tem tentado melhorar seus algoritmos de identificação de contas falsas ou que só reproduzem conteúdos suspeitos – o que às vezes resulta em exclusão e noutras em perda de relevância dos posts daquela conta, ou seja, ficam escondidos nas profundezas da barra de rolagem. 
Perguntei mais detalhes sobre essa estratégia e como ela se aplicava aos perfis utilizados para promoção de marcas, mas a empresa deu a costumeira resposta protocolar. "Nossos padrões de comunidade proíbem contas falsas, e removemos essas contas assim que ficamos cientes delas. Além de contar com nossa comunidade para denunciar contas falsas, usamos tecnologia para identificar padrões de comportamento de contas falsas e toda a atividade relacionada a elas", disseram, em comunicado.
Vale lembrar que esse expediente de contas falsas já foi importante na eleição de 2014, como bem detalhado nessa reportagem da Pública, assim como esteve presente durante a turbulência política que levou ao impeachment. "Esse movimento ressurge em grandes momentos eleitorais", afirma Fabio Gouveia. "Vamos ver o quanto isso vai se reverter em ativismo real e qual poder esses microinfluenciadores falsos vão ter nessa transição."
* a ciência do fake. como agências cultivam perfis falsos para construir e destruir reputações, do joão paulo vicente, no motherboard(vice)

sexta-feira, outubro 13, 2017

a pseudo propaganda* acaba sendo mais verdadeira do que a pseudo própria


"Pseudo-Advertising: incrível projeto de arte de rua de Alexandros Vasmoulakis, no qual o artista coloca em diálogo visual o muralismo artístico do graffiti e a propaganda feita em outdoors.
Combinando imagens dos dois campos e criando obras gigantescas que poderiam ser descritas como anúncios ou como peças de arte urbana, seu objetivo é colocar em questão as características distintivas de um mural – definição dada pelo próprio artista.
Neste trabalho, toda a perfeição e coerência dos anúncios publicitários dão lugar a imperfeições e lacunas que dão tônica crítica às obras. O mashup de imagens ainda contribui com uma aura esquizóide, que tornam os murais obras únicas de arte". 

Tel Aviv, Israel

Shenzen, China

Berlim, Alemanha

Liubliana, Eslovênia
Abaixo você vê outros trabalhos de Vasmoulakis:


segunda-feira, setembro 25, 2017

o corpo escravo não é escravo do trabalho escravizado. é escravo do pensamento escravizado

quinta-feira, setembro 14, 2017

nunca a nosso publicidade foi tão educativa(leia-se deseducativa) *



Sempre criticamos a Publicidade por esconder suas secretas pretensões sob camadas de retórica, mitologias, tons pastéis, cores suaves e a atmosfera de um eterno comercial de produtos matinais. Esqueça tudo isso! Em tempos atuais de crise econômica e milhões de desempregados para os quais a solução inevitável apontada são o empreendedorismo, “pejotização”, precarização profissional e trabalho intermitente, a Publicidade brasileira foi convocada para educar as massas através de comerciais francos, duros e agressivos. Ivete Sangalo flerta com “losers” em pontos de ônibus para promover ensino à distância; Luciano Huck e Rodrigo Faro em peças publicitárias de universidades explicitamente afirmam que a profissão de professor é um bico para “aumentar a sua renda”; campanhas do Uber defendem a “uberização” para você ter mais tempo de “fazer o que gosta”; e o banco Santander assertivamente diz que a carteira de trabalho já era e que no lugar ficou uma maquininha de pagamentos com cartões. Bem vindo ao “Brave New World” da publicidade atual.

Houve tempos em que a Publicidade figurava o mundo em tons pastéis como se todo comercial fosse um eterno vídeo de cereais e matinais: “Oh Happy days!”... “Be Happy!” ou qualquer música folk bacana para começar com otimismo o café da manhã.

Professores, intelectuais, pesquisadores ou militantes de esquerda mobilizavam todo um arsenal teórico (linguístico, semiótico, freudo-marxista etc.) para desconstruir e desmascarar as maquinações ideológicas e imperialistas por trás de toda dessa positividade da sociedade de consumo.

 Mas, pelo menos na publicidade brasileira, isso está mudando. Nos tempos atuais de todas as reformas (trabalhistas, previdenciárias, políticas etc.) a toque de caixa e turbinada pelo governo do desinterino Temer em tempos bicudos de crise, inicia-se uma tendência inédita na criação publicitária de abandonar o característico mundo em tons pastéis para partir para os “finalmentes” – e sem mais qualquer firula retórica, semiótica ou sofística. 
Esqueça o mundo em tons pastéis da velha publicidade!

Uma nova tendência, por assim dizer, realista, crua, cortante, como se preparasse o consumidor para a dureza da vida ou para dias piores que estão por vir. Sai os tons pastéis e suaves para entrar cores quentes e com fortes contrastes.

Esqueça os antigos esforços intelectuais para desconstruir mensagens ocultas. A nova tendência é ir direto ao ponto: agora você é desempregado! Agora viverás de bicos! Agora terás que procurar algo que complemente sua renda! Sua carteira de trabalho já era! E seu trabalho doravante é uberizado, intermitente, descontínuo... se tiver!

Estamos nos referindo a cinco peças publicitárias, alinhadas ao atual zeitgeist (o “espírito do tempo”) de empurrar goela abaixo a receita neoliberal que pulveriza o trabalhismo para impor o cada um por si do darwinismo social.

Ivete Sangalo em pontos de ônibus e espelhos lançando olhares amorosos para losers que precisam subir na vida através de cursos de EAD da Laureate Universities; Luciano Huck sugerindo a alunos universitários uma segunda graduação na Faculdade Anhanguera para ser professor e “aumentar a sua renda”; o apresentador Rodrigo Faro dando a mesma sugestão, dessa vez pela UNIPAR; a campanha do aplicativo UBER que afirma que dirigir é a melhor forma para ter tempo para fazer tudo aquilo que você gosta; e por último, mas não menos importante, o comercial da “vermelhinha” do banco Santander, maquininha de cartões apresentada como “a sua nova carteira de trabalho”.


1. Ivete Sangalo flerta com perdedores que querem vencer


Dois vídeos publicitários da EAD Laureate. No primeiro, um assustado e apalermado jovem em um ponto de ônibus vê em um cartaz comercial da Laureate a imagem de Ivete Sangalo ganhar vida e exortá-lo a fazer o EAD da rede de universidades para a “sua carreira decolar”. O ônibus chega e o ainda assustado rapaz sobe os degraus, olha para trás e vê a cantora dar uma última e malandra piscadinha.

E outro vídeo, com outro apalermado loser que acorda assustado com o alarme do rádio-relógio, olha para o espelho e toma um susto: ao invés do seu reflexo, vê a indefectível Ivete Sangalo com a mesma mensagem.

Bem diferente dos antigos vídeos publicitários da EAD Laureate com fábulas edificantes sobre jovens com sonhos que se realizam com a determinação ( embalados com os infalíveis temas musicais ao piano), agora é curto e grosso: você está no ponto de ônibus ou estressado com o alarme do rádio relógio, com olho arregalado e assustado com eventos paranormais. Por isso, você é um loser que precisa subir na vida.

Também é emblemático uma estrela do entretenimento, Ivete Sangalo, ser a garota-propaganda de uma rede de universidades. Sangalo virou uma espécie de equivalente geral da publicidade – já vendeu de tudo, de cosméticos e remédios a carros e marcas de cerveja... e agora educação.

Além de uma questão qualitativa (o entretenimento promovendo a educação), a urgência da mensagem publicitária não está na qualidade do “serviço” educacional. Mas no desespero de você estar no fundo do poço - no ponto de ônibus ou estressado pelo alarme do rádio-relógio.


2. Para Luciano Huck e Rodrigo Faro dar aulas é “bico”


E por falar em entretenimento, Luciano Huck (outro equivalente geral publicitário) e Rodrigo Faro (aspirante a equivalente geral) exortam os jovens a fazer uma segunda graduação de Formação Pedagógica para a atividade de professor ajudar a “aumentar sua renda”.

A reação nas redes sociais em relação às peças publicitárias foi negativa – sugere menosprezo à profissão de professor ao reduzi-la a um bico para aumentar a renda do mês. Tanto a Anhanguera como a UNIPAR divulgaram pedidos de desculpas protocolares (aliás, idênticos) pela “mensagem equivocada” e reafirmando que a docência “é o caminho para o desenvolvimento social e econômico”.

Uma “mensagem equivocada” (ou ato falho?) que sincronicamente é cometida no momento da destruição da CLT, a proposta de uberização da educação (clique aqui para a notícia) e a perspectiva generalizada de trabalho intermitente, “pejotização” e terceirizações radicais.

Mais um exemplo da publicidade brasileira atual atravessando agressivamente os umbrais da sinceridade: no final, o ato falho da peça publicitária revela o projeto secreto de grupos como Kroton e da norte-americana Laureate Universities – a gestão educacional por planilhas na estrita filosofia da relação custo-benefício.


3. “Uberização” é questão de ter tempo


E por falar em uberização, nada mais explícito do que as peças publicitárias do Uber – afinal, o modelo universal das futuras relações trabalhistas para todas as profissões: precarização, trabalho desregulamentado, salários miseráveis e patrões invisíveis escondidos pelas plataformas tecnológicas e transações econômicas misteriosas na sombra do espaço digital.

“Dirijo para me dedicar a música”, diz um jovem segurando um violão; “Dirijo para cuidar da minha família”, afirma uma sorridente mulher madura. São algumas peças publicitárias colocadas em pontos de ônibus (claro, é ali que os “losers” refletem sobre sua própria miséria, como a Laureate nos ensina) para eufemisticamente fazer o elogio dos bicos profissionais.

Mas que atmosfera respira essa sinceridade bruta das atuais peças publicitárias? Certamente a do sentimento de terra arrasada, o mesmo sentimento que fez milhões de brasileiros correrem para sacar contas inativas do FGTS.

O pensamento da sobrevivência no curto prazo, de viver um dia de cada vez sem pensar no amanhã. Precarizado e sem garantias sociais, o futuro será similar com o que ocorre em países como Japão e Coréia do Sul: idosos morrendo sozinhos pelo empobrecimento e desigualdade por simplesmente terem sido deixados para trás na luta darwinista social.


4. Para o Santander carteira de trabalho já era!


Mas talvez a sinceridade mais brutal esteja na peça publicitária do banco Santander – afinal, o sistema financeiro é a entidade com a lógica mais fria e agressiva, sob a sombra da tecnologia digital.

Criado pela agência Talent Marcel, o comercial promove a maquininha de cartões (a “vermelhinha”) da Getnet, empresa de tecnologia de meios de pagamento do grupo Santander - veja o vídeo abaixo.   

Nas primeiras imagens, uma surrada carteira de trabalho sendo jogada no fundo de uma gaveta. Por que? “Pode ser pela vocação, falta de um empurrãozinho, a crise, uma puxada de tapete... mas o fato é que você virou EMPREENDEDOR!”, e a gaveta é fechada como se ali o passado fosse encerrado e esquecido.

O eufemismo é explícito: desempregados viraram “empreendedores”. Solução? A vermelhinha para fechar mais negócios com cartões. E decreta de uma forma sinistra sob uma narração com um tom entre o sarcasmo e agressividade: “não importa o que te trouxe até aqui... essa é a sua nova carteira de trabalho!”.

São exemplos de uma tendência publicitária atual sem retórica, com alguns eufemismos, mas direta, agressiva, como fosse a nova pedagogia para as massas em tempos ainda mais difíceis que se avizinham. Uma publicidade que parece ter perdido a vergonha ou pudores. Não tem mais tons pastéis ou “Oh Happy days!” para dourar a pílula. Agora vai a seco!

Definitivamente, é o zeitgeist contemporâneo no qual, por exemplo, nazifascistas perderam a vergonha e dão às caras de forma franca nas ruas e redes sociais. E até elegem presidentes...

 

*Publicidade brasileira convocada para educar as massas no "Brave New World", por wilson roberto vieira ferreira, em seu cinegnose


sexta-feira, setembro 01, 2017

cada qual deve lutar de sua trincheira, mesmo que ela seja uma banheira - se ela é furada ou não isto é por sua própria conta e risco

nicanor parra, poeta, matemático, físico e intelectual chileno, em sua casa, em santiago 1995
ao expor sua luta entre o " seu estado de intelectual burguês e sua profunda simpatia pelo proletariado como a luta entre o prazer e o dever"*nicanor expõe a fratura de muitos de nós ditos de esquerda(sim, de esquerda, aquilo que hoje parece ser um desvio social, pelo menos se você der ouvidos aos comentários de redes e a bancada da bala, da bíblia e do boi " ("povo marcado, povo feliz")

ainda segundo ele," sua vida são os livros, as viagens, a ciência; mas por outro lado percebe que seu dever é, inevitavelmente, se identificar com o proletariado, e todos os seus esforços levam a essa meta: “ainda estou longe de dar um sentido à vida, mas estou me aproximando disso, e em meus últimos poemas há uma espécie de janela que se abre para essa posição que é crítica, mas que também diz algo”.

”parra sustenta que sua poesia reflete sua posição ambígua entre duas classes sociais, o proletariado e a burguesia: “é a poesia da classe média chilena, do pequeno burguês consciente. eu me declaro marxista, mas não sou um comunista militante, e não sou porque estou ‘apoltronado’. não sirvo para a luta, para comícios, nem para sair com um cartaz numa manifestação. eu só posso lutar da minha poltrona de intelectual. porém, meu amor está no proletariado”.

considerando estas palavras vindas de uma entrevista dos anos 60, muitas ilações podem ser feitas, inclusive a de que a esquerda brasileira atual não morre de amores pelo proletariado - pelo menos não tanto como a dos anos 60 - não sem antes amar a si própria, com certa timidez, e como se pudesse existir entre livros, viagens, e o intelecto, distante do povo que nem sempre a compreende - também pudera o discurso é ininteligível à "populéia"(a recíproca é verdadeira), sem ter a consciência do peso pequeno burguês que carrega, neste brasil, onde o povo anda-a corneando a chifres e passos largos para o abismo social que se nos apresenta, cuja culpa não pode ser tão-somente creditada aos desvios e erros da esquerda mas a uma desconcertante superioridade da direita para conspurcar até mesmo as ações de esquerda que muitos reconhecem bem intencionadas (de boa intenção, a esquerda estaria agora vazia ?) 

a questão não é nova, e diversos teóricos - se você não os leu, não vai valer a pena serem citados. e se leu, e não lembra, fodeu -  já abordaram o tema, que permanece renitente quando as ações do homo politicus do pequeno burguês de esquerda, esbarra na encruzilhada que não une, mas sim divide, o sentimento de solidariedade e simpatia(muitas vezes demagógicas) pela classe e o compromisso de classe propriamente dito, que nem a própria classe respeita, já que o nosso proletariado muitas vezes não se reconhece como tal, até quando se asfixia com a votação na direita;

derivações à parte, talvez pretexto para aqui chegar, a poesia de nicanor, considerado um mestre da anti-poesia, não deixa dúvidas de que lado ele está.

a dúvida está em de que lado está agora aqueles em que nós confiamos, incluindo a nos próprios(se não confiamos em nós próprios, fodeu).


agora, um pouco da poesia(ou anti-poesia, como queiram) de parra, que só agora, aos 103 anos(sim o poeta está vivo)  foi traduzido para o brasil, apesar de várias vezes indicado ao nobel, um premio pequeno burguês, como todo premio - e de sua irmã, violeta no vídeo mais abaixo.


A MONTANHA RUSSA
Durante meio século

A poesia foi

O paraíso do tonto solene

Até que vim eu

E me instalei com minha montanha russa.

Subam, se lhes parece.

Claro que não respondo se descerem

Vertendo sangue pela boca e nariz.




ADVERTÊNCIAS 

Proíbe-se rezar, espirrar,
Cuspir, elogiar, ajoelhar,
Venerar, grunhir, expectorar.

Neste recinto é proibido dormir
Inocular, falar, excomungar
Compor, fugir, interceptar.

Rigorosamente proíbe-se correr.
É proibido fumar e fornicar.
(tradução de frank morais)

PAI NOSSO

Pai nosso que estás no céu
Cheio de todo tipo de problemas
Com o cenho franzido
Como se fosses um homem vulgar e comum
Não penses em nós.

Compreendemos que sofres
Porque não podes consertar as coisas.
Sabemos que o Demônio não te deixa tranquilo
Desconstruindo o que constróis.

Ele se ri de ti
Mas nós choramos contigo:
Não te preocupes com suas risadas diabólicas.

Pai nosso que estás onde estás
Rodeado de anjos desleais
Sinceramente: não sofras mais por nós
Tens de perceber 
Que os deuses não são infalíveis
E que nós perdoamos tudo.
(tradução de carlos machado)
                                                              






             

*trechos aspeados fazem parte de entrevista transcrita in opera mundi(brasil)e publicada originalmente na revista ercília(chile)