quarta-feira, janeiro 14, 2015

bad news, good news? maybe not, maybe yes ou je suis é o caralho!

Mantive, durante anos, na sala do meu escritório uma capa da revista Time retratando centenas de corpos espalhados no chão de Ruanda, vítimas do genocídio perpetrado pela maioria hutu contra a minoria tutsi em 1994. Nela, pessoas procuram por parentes e aves procuram por almoço.
O título era algo como “Este é o início dos últimos dias, o apocalipse'' – talvez uma tentativa de chamar a atenção dos Estados Unidos e Europa para o massacre através de um elemento simbólico que está no alicerce de sua fundação: o julgamento final do Novo Testamento.
Mas não era o começo do fim, apenas mais um expurgo – tanto que, após os 800 mil mortos em Ruanda, tivemos tempo de matar mais 400 mil no Sudão.
Essa capa era um lembrete para me empurrar para fora da zona de conforto. E também uma verdade incômoda. Em 1998, quando estava cobrindo a guerra pela independência de Timor Leste, onde o exército indonésio matou – de bala ou de fome – mais de 30% da população da ilha, um vendedor me disse, ao saber de onde eu era, que ficava feliz pelo Brasil, visto como um grande irmão lusófono, apoiar a luta.
Não tive coragem de dizer a ele que o meu país nem sabia de sua existência e que se aqueles mauberes pardos vivessem ou morressem, praticamente nenhuma ruga de preocupação seria produzida. Duvido que entre vocês, leitores, muitos tenham ouvido falar do Massacre do Cemitério de Santa Cruz, em Dili, capital de Timor. Imagine quantos massacres mais, mundo afora, acontecem invisíveis.
Por que relatamos tão pouco mortes nesses locais? A discussão faz parte de alguns debates acalorados em jornalismo. Isso é de interesse público? Do nosso público? As pessoas se interessam em saber sobre isso? Como as pessoas vão se interessar sobre isso se não as informamos com a devida importância? É possível ter opinião formada (não preconceito de internet) sobre aquilo do qual nunca se ouviu falar? Enfim, “Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais''?
Some-se a isso alguns elementos. Na teoria, a Declaração Universal dos Direitos Humanos diz que todos temos direito à dignidade por termos nascido humanos. Na prática, a vida de não brancos vale menos que a vida de brancos. E a vida de ricos vale mais que a vida de pobres. E as das mulheres menos que as dos homens. Simples assim. Se essa vida for de religião que cause estranhamento aos olhos ocidentais, pior ainda.
Outro elemento é a justificativa cultural, de que mortes em Nova Iorque, Roma, Paris e Londres causam mais impacto porque estão mais “próximas'' de nós. Elas aconteceriam no mesmo “caldo cultural'' em que estamos inseridos, com o qual temos uma histórica troca e convivência mútua e através do qual construímos nossa sociedade.
Sabemos quem são e como vivem e trabalham os moradores dessas cidades. E, a partir desse conhecimento, geramos empatia: nos projetamos no outro, entendemos a sua dor e conseguimos até senti-la.
Sim, mas se dividimos elementos simbólicos com a “metrópole'' também temos elos com as outras “colônias'', que passaram por processos históricos semelhantes aos nossos e, como nós, têm que pagar, até hoje, seus tributos. Seus problemas econômicos e sociais são semelhantes e, não raro, suas dores também. Mas damos as costas ao Sul e nos projetamos apenas ao Norte, sonhando, talvez um dia, em sermos reconhecidos como parte da mesma civilização ocidental da qual não fazemos parte.
Não é inato um jovem brasileiro se interessar mais por Miami do que por La Paz. Ele aprende isso. Da mesma forma que aprende que a África, boa parte da América Latina e o Sul da Ásia são locais em que a vida não vale muita coisa, em que selvagens se matam desde sempre, como se as marcas da colonização e os processos políticos e econômicos globais, somados à ignomínia dos seus líderes locais, não valessem de nada.
Se eles tivessem oportunidade de conhecer o outro, as coisas seriam diferentes.
Uma menina-bomba, com cerca de dez anos de idade, teria se explodido, neste sábado (10), levando 20 pessoas consigo em um mercado na cidade de Maiduguri, norte da Nigéria, área de atuação do Boko Haram – milícia fundamentalista que deturpa os ensinamentos do islamismo em sua luta por poder. Ganhou pouca atenção no noticiário.
Da mesma forma, provavelmente você nunca ouviu falar de Ricky.
Tive o prazer de conhecê-lo há alguns anos. Sua história é incrível. Ele foi raptado e escravizado quando criança pelo Exército de Resistência do Senhor, em Uganda – um grupo fundamentalista que deturpa os ensinamentos do cristianismo em sua luta por poder, liderado por Joseph Kony, que se dizia porta-voz de Deus. Os meninos passavam por lavagem cerebral para se tornar soldados e, as meninas, para servir de escravas sexuais. Ele conseguiu fugir, graduou-se e criou a Friends of Orphans, uma organização não-governamental que luta para reintegrar esses jovens à sociedade.
Disse-me que não há como alguém conhecer uma criança que foi escravizada para matar e morrer e aquilo não mudar a vida dessa pessoa definitivamente. Porque o relato levaria a perceber que todos aqueles que matam em nome de Alá ou Jeová, na verdade, não acreditam neles. E que mesmo esses “combatentes'' não são bestas-feras, mas pessoas transformadas em máquinas de guerra. Às vezes em nome daquilo que enche o tanque de nossos carros, às vezes em nome daquilo que brilha em dedos e pescoços.
Entramos na rede e, em um pé de página, a Anistia Internacional denuncia que os açougueiros do Boko Haram podem ter matado centenas, em sua maioria mulheres, crianças e idosos, na Nigéria. Faltam braços para apurar e checar a informação ocupados com outros assuntos . Alguns importantes e que também são de interesse público. Outros, nem tanto.
Temos afinidade com aquilo que nos é mais próximo ou que desperta determinados sentimentos. Entendo que a libertação de 150 escravos que sangram na Amazônia para produzir boi que muitos nem sabem como vira bife choca menos que o resgate de um jovem sequestrado em nossa cidade.
Mas todos sabem o que é uma criança. É duro, portanto, imaginar que não desperte sentimentos. Talvez isso ocorra por banalização dessa violência. Talvez por um ato de fuga consciente ou inconsciente diante da crença na incapacidade de fazer qualquer coisa para resolver o problema – mesmo que a indignação com a história de vida daquela criança africana possa te levar a ajudar na melhoria da qualidade de vida das crianças que estão ao seu lado.
Talvez a resposta resida no fato de que uma criança nua, exausta e com olhar perdido numa cama na beira de estrada depois de uma hora de sexo forçado ou coberta de sangue após um dia de confronto armado ou explodida em mil pedaços após um ataque suicida não é uma coisa fofa de se ver. Pelo contrário, para muitos é tão repugnante a ponto de transferirem a culpa pelo ocorrido para a própria vítima que “se deixou ficar naquela situação deplorável''.
A discussão não é apenas sobre a distante África, mas também sobre as periferias de nossas cidades que ficam logo ali. Em São Paulo, no Rio e em tantas outras, há uma matança de jovens, negros e pobres – segundo as estatísticas do poder público. Mas desde que seu sangue não respingue nos outros, tudo bem.
Não estou comparando tragédias pelo número de mortes, uma vez que uma única morte pode compor uma tragédia. Mas a indignação por algo não exclui a indignação por outra coisa. E jogar para baixo do tapete os incômodos que também dizem respeito a todos nós, não fazem eles desaparecerem.
Portanto, busquem informação na internet para além de sua zona de conforto. E exijam de nós, jornalistas, que tenhamos coragem de oferecer informação que as pessoas não querem ler a despeito da audiência, da circulação e de outras formas de “medir'' o interesse público.
Por fim, dei de presente a capa da revista para uma amiga que estava em seus primeiros passos no jornalismo. Não que eu não precise mais do lembrete, a ética é o exercício diário da memória. Mas aquilo é muito forte para ficar na memória de uma pessoa só. Torço para que a geração dela, inspirada em nossos erros e acertos, seja melhor que a nossa.
Em tempo: Há boas coberturas com olhar brasileiro sobre essas regiões do planeta. Sem demérito aos demais colegas, destaco as reportagens sobre a epidemia de ebola em Serra Leoa, tocadas pela repórter especial Patrícia Campos Mello e pelo repórter fotográfico Avener Prado, ambos da Folha de S.Paulo.
(por que há tragédias e mortes que dão audiência e outras não ? no blog do sakamoto)

segunda-feira, dezembro 29, 2014

el cid ou porque não se faz história com estórias mas com slogans sim









slogan inteligente é mau slogan. 
abraham moles.









ao criar este livro, claudio magalhães teve uma boa ideia. devia-se, até, levantar-lhe um brinde. com "caninha 51", é claro.

esta associação mental, imediata - e inevitável - já diz tudo sobre a importância e o poder imperativo do slogan.

o slogan é. dispensa explicações,teorias, exegeses. um bom slogan basta-se a si mesmo ,por si só. por isso ele tem tanta relevância na propaganda.

o slogan - e o cartaz - juntos ou separados, constituem o estado mais puro - a forma elementar, o nível primário - da propaganda.

todos os outros mídias básicos - jornal e revista, tv, rádio e cinema - não tem a propaganda como função primordial. eles destinam-se a informar, entreter, educar, etc. a propaganda adere colateralmente a tais funções principal e delas se serve para veicular o anúncio coaxialmente.

algo análogo se dá com a mensagem. a retórica publicitária tende a atuar como envoltório do núcleo persuasivo. na propaganda, o texto, o " copy" 
( valendo aqui o conceito teórico que compreende a imagem como "texto", ela também ) é apenas o envoltório edulcorante que vai tornar mais palatável a ideia persuasiva central, a palavra de ordem - ou seja, a essência real da propaganda, seu duro e cru objetivo final: seduzir para possuir.

o slogan e o cartãz não. eles são a essência, respectivamente verbal e imagística da persuasão pura.

o " grito de guerra " ( o slogan) e o " grito na parede" ( o cartaz ) são exatamente isso: gritos. o grito primal - instinto, emoção, vida - a área periférica da pré inteligência ou o denso nódulo central da pós-inteligência. a reflexão, por favor, mantenha-se lá fora.

slogan e cartaz tem uma única finalidade específica: propaganda. eles foram feitos por ela e para ela. e só servem para isso mesmo: fazer propaganda. qualquer outra função que porventura agreguem, é incidental, cumulativa, suplementar. descartável.

impacto perceptivo vigoroso. instantaneidade na comunicação.nenhuma obrigação com o pensamento lógico. estímulo, estímulo, muito estímulo, nenhuma decifragem - como prescreveu abraham moles" - slogan inteligente é mau slogan " .

instant-communication: dois segundo cronométricos, para cumprir sua função. um segundo a mais e o slogan(ou o cartaz) estarão inexoravelmente jogados ao lixo da despercepção e do desinteresse.

ocorre-me parodiar suskind: o slogan é a quintessência do texto propagandístico. sua " essence absolue".

por isso o slogan e o cartaz constituem o epítome da linguagem publicitária. atrás de sua aparente espontaneidade e do mimetismo de uma simplicidade que, de fato, não é simples, disfarça-se de uma manifestação requintada do talento publicitário: " a síntese que surpreende", na definição ideal de roberto duailibi.

slogan, do gâles, " sluagh-ghairm" era, na escócia ancestral, " o grito de guerra de um clã". os ingleses se apropriam da palavra lá pelo sec. XVI e, já então, ela significa " divisa de um partido político" e logo ingressa na liça eleitoral. guerra, política, eleição - é tudo a mesma coisa.

cabe aos americanos, no séc XIX, transcreverem-na para a área da propaganda mercadológica, onde o slogan se aclimata como se esse fora o seu habitat original. afinal,insisto, é tudo um campo de batalha...

constantino olhou para o alto e viu inscrito nos céus " in hoc signo vinces ". pode-se dizer que deus lhe ditou o slogan com que se vincularam,definitivamente, cristianismo e a cruz, com o poder de roma.

se deus se serviu do slogan, não se devem atribuir muitas restrições pelos mortais publicitários, eles também filhos de deus. ou deuses ex-machina como tantos pensam que são ...

não obstante, é forte o preconceito contra o slogan e controversa sua valorização, justamente porque ele tem tanta vida e tanta força. pode-se esperar unanimidade nos cemitérios. jamais na praça pública ou no mercado.

a veemência na sua crítica é a medida proporcional da sua importância. o slogan mexe com as pessoas, desperta-as, mobiliza-as. porque desacomoda, incomoda.

folheei livros tentando arrolar esses preconceitos. desisti logo no começo desta coleta de adjetivos, tão grande ameaçava ser a sua lista.

ambíguo, autoritário, banal, cansativo, comunista, condenável, demagógico, dissimulador, dominador, emocional, enganador, esotérico, fascista, hegemônico, hipnótico, irracional , irritante, manipulador, medíocre, mentiroso, mistificador, nazista, nefasto, nocivo, obsessivo, passional, perigoso, polêmico, reacionário, repetitivo, reprovável, superficial, suspeito, tribal, trivial, vago, vazio, vulgar, zurrado ...

inútil divagar. só há uma força capaz de enfrentar um bom slogan: outro slogam melhor.... (cid pacheco, prefaciando slogans: os 1000 melhores slogans da propaganda brasileira, organizado por claudio magalhães e andré mota, letter editora, em 1991).


misterwalk provoca: a questão que se impõe é a seguinte: mudou tanto o mundo( ah! a internet ) que não há mais lugar para slogans ? - os poucos que ousam não tem o brilho que já foi alcançado com a "ferramenta" - ou mudamos nós ? e desprezamos um recurso matador por desconhecimento de causa e efeitos ou, pior: pelo medo de não parecermos modernos, como convém aos publicitários antenados que assim se chamam? 





  

quinta-feira, dezembro 18, 2014

telling stories sim, storytelling não



sucesso em propaganda, por maior que seja o trabalho consistente - e o talento - é meteoro ensandecido. que se imagina cometa do comigo ninguém pode. até porque há quem faça sucesso sem trabalho. e sem consistência. mas estamos falando, aqui, de gente com capacidade de trabalho e talento acima da média.

como em tudo nessa " vida profissional marvada", nada dura para sempre. mesmo os protagonismos de quem trabalhou e trabalha muito para isto. então, chega uma hora, em que mesmo os mais fundamentais e absolutamente profissionais parecem querer fazer o seu trabalho emergir sem periscópio embarcando - ou criando a sua - em qualquer onda. e o que é pior: o fazem como antevisão(ante e não anti, suas antas) do futuro. matéria em que publicitários - na prática, e na teoria - são um fiasco.

é nesta hora que passam a produzir os chamados factótuns que em nosso idioma ganhou uma derivação para além do significado original, que é a referente ao indivíduo que se julga ou se mostra capaz de tudo resolver. e que pela derivação referida passou a ser também o que é capaz de produzir fogos de artifício como munição que: em vez de abater o inimigo, ou criar alicerces, a curto, médio e longo prazo, desanda a profissão e alimenta o fosso do descrédito. isto vem acontecendo década após década, crescentemente(o descrédito) pós fase chamada de ouro da publicidade. a fase atual, de que seria mesmo? de platinum ? é o que dizem. mas quem paga para tanto, para além do prêmio, nunca acha que vale 

o estratagema ou o factótum tem sempre a mesma função: atrair ou chamar atenção para si ou seu negócio, através de fogo de espoleta, quando a "aura" - e o bolso - começam a se esvaziar.

na publicidade já tivemos denominações desprovidas de conteúdo as dezenas, como augúrios de novos tempos e xamãs de resultados inquestionáveis. bellow disto, above daquilo, unidades de inteligência x(é preciso ser muito displicente para criar uma denominação que afunda o resto dos departamentos) do 360º, do planejamento estratégico, que recebeu mais prolongamentos adjetivados do que botox em cara de socialite e por ai vai. a lista é longa e vazia, como o são todos os factótuns. até chegarmos ao storytelling. sendo que tudo isso não passa em maior ou menor grau do desmembramento das expertises " agenciadas" pelas chamadas agências de serviço completo, ou full time como queiram, dos bons tempos em que redator escrevia argumento que baste. roteiro já era outro departamento que a agente contratava(agenciava). mais custos? bom, é melhor do que ter redator perneta metido a stoytellista. agencias de publicidade estão se tornando " a malhação" do copy. e quase ninguém se salva. e por favor não me venham falar no on-line como divisor de mundos que tanto num mundo como no outro, existe picaretagem, mediocridade, e inteligência. até agora bastante limitada no meio. o mundo on-line está devendo. e convenhamos que já teve tempo para dizer a que veio. afirmo isso apesar das novas categorias de cannes exacerbarem o poderio das ações(outro factótum) até não mais poder. o ditame das redes sociais também é outro fenômeno cuja genealogia torna-se mais misteriosa do que parece na mão dos publicitários que enxergam nela a manipulação(por eles)de um poderio que não tem e jamais terão. quem não sabe escrever não produz comandos eficientes calcado só no visual.

mas o que interessa dizer é que: minha nossa! nunca vi tanta coisa ruim como hoje em dia cognominada de storytelling. publicitários -redatores principalmente - que sempre calcaram seu trabalho como contadores de (boas) histórias(piadas nem tanto) que se tornaram ícones da comunicação/propaganda, chegaram a um ponto tão rasteiro que mesmo um peidinho de texto que seja é a saga de tal reductio que nem sequer é absurdo. é medíocre mesmo. basta ver o lázaro ramos, narrando as tais apalavradas storytellings de conhecida marca de automóveis. hão de se recordar muitos que se apresentássemos tal estória, como outras que estão veiculadas(na internet principalmente) não só seriam reprovadas como certamente não terminaríamos a semana no emprego. e sabe o profeta quem arriscaria nos contratar. mas há quem ache nisto de agora uma grande piada e dê risadas. talvez porque contando a mesada em que se transformou o salário dos storiestellings, só rindo mesmo. e cá pra nós, o lázaro ramos jamais será o grande otelo, mesmo "herdando" suas caras e bocas e alguns maneirismos. esta é a diferença entre quem conta estórias e quem faz história. fazer história contando estórias? bom, os clássicos, conseguiram. os storytellistas duvido muito. 

e se dúvida houver, retire a imagem e veja o que sobra dos tais storytellings. se, como dizem, isto é o futuro presente da narrativa na propaganda - e na comunicação - é urgente que estejamos de volta a outro futuro, o quanto antes. caso contrário, cada vez mais, sobre o copy publicitário, só ouviremos estórias más, que ninguém quer ou irá recordar e sobretudo maldizer quem as contar ou cantar, ainda que seja em loas por descrito.



in tempo: neste momento, um dos maiores talentos que conheci, e com quem tive o prazer(onde está agora o prazer nesta atividade?) de trabalhar e aprender(muito), edson das neves athayde, é um dos embaixadores do storytelling, mundo e inclusive brasil afora, fazendo disso seu cavalo de troia para sua reentrada triunfal? na fcb portugal. a questão é: para além de seus milhares de seguidores no facebook, que onanizam-se a cada testículo(muita bobagem; o.k. a vida é cheia de bobagem e sem bobagem não há piada)publicado, onde está o trabalho, sua marca de sempre, a ser mostrado pela fcb para além das tardes das segunda-feiras onde os fcbelistas storytelizam-se à torto e à direito? certamente não vai ser com o storytelling de cambitos que a fcb vai regurgitar marcas que andam a se estropiar por lá. o factótum irá cansar antes de alcançar seus resultados? não sou eu que o dirá. oxalá esteja errado. não é isso que dizem todos aqueles que tem, nem que seja vaga, a certeza de que a história é outra ?



segunda-feira, dezembro 01, 2014

santa ignorância ou o (d)efeito i-phone

tenho minhas dúvidas que os publicitários que fizeram a graçola* acima tenham folheado o aurélio para além da capa dura. 
anos 80, pouquinho mais, pouquinho menos, costumava-se definir um publicitário como aquele profissional que sabia um pouco sobre quase tudo o que traduzindo ao pé da letra dava quase nada sobretudo. mas eles sabiam "operacionalizar" o seu quantum diagonal de informação como ninguém. e com isto, posavam de experts não só para os estagiários mas principalmente para os clientes. e não raro fazendo trabalhos memoráveis.

hoje a coisa esfumou. com tanta informação à mão, publicitários a cada balbucio "ininglish" e de tantas titulações e das embromações, do tipo storytelling, atestam cada vez mais e mais que não sabem mais e mesmo nada de nada. mas acham - e agem- com se soubessem tudo de tudo - e assim, como é desagradável e desestimulante conversar com publicitários hoje em dia, pra não falar do odor do seu trabalho.

o nada rombudo em quase tudo o que se vê e ouve, impera. e a mais completa ausência do tudo -e do todo, e de suas particularidades - num restinho de nada nem que fosse pra remédio, está em ratio.

deformáveis como o i-phone - e com baterias de menor duração ainda - não raro confundem a bunda com a cabeça e vice-versa. a escatologia do ofício tenta perfumar a santa ignorância com títulos acadêmicos mas a academia nunca produziu propaganda que merecesse alguma consideração.

e a maior prova disso, são os salários. de merda, pois não ?


*  esqueci de dizer que os publicitários hoje em dia se acham muito, mas é muito mesmo e não é pouco, engraçados. só que eles se querem assim querendo por querer. e não sem querer querendo, o que é uma condição fundamental para o alcance da espontaneidade do riso. leiam bergson meus filhos.

quarta-feira, novembro 19, 2014

sábado, setembro 20, 2014

a pinta da marina depois que se pintou*


MarinaSilva-Ceilandia-set2014-ftoVagnerCampos-MarinaSilvaOnline InternaCom as pesquisas de intenções de voto de todos os institutos (principalmente os que fazem sob encomenda para a Globo e a Folha) demonstrando que Marina começa a cair e que a morte do Campos e o "escândalo" da Petrobras não surtiu o efeito destruidor que esperavam na candidatura da Dilma, os meios de comunicação e a candidata de oposição começam uma nova fase para tentar forçar um segundo turno.
Vimos a Marina constrita, devastada, pela perda do "grande líder" brasileiro que iria mudar a história política do nosso povo.
Depois surgiu a Marina "ungida" pelo dedo de Deus à condição de candidata, posto que foi a escolhida para não embarcar no jato a ser derrubado para que pudesse se oferecer ao povo brasileiro como a salvadora do perigo ateu e comunista.
E nos ofereceram a Marina da nova política, a mulher sofrida, guerreira, renascida das doenças, anticorrupção, antipartidos, que não se vendeu para os petralhas e do ninho de mensaleiros saiu pura e virgem.
Mas toda virgindade será castigada! E rapidamente a castidade política da Marina surge como um "mictório público", no qual transborda jato sem dono, milhões não declarados, mesada de banco, ligações espúrias com a agroindústria, submissão aos interesses de pastores racistas e homofóbicos, e alianças com coronéis da política.
E seu programa de governo parece mais um caderno de criança de pré-primário, riscado e rabiscado de tanto escrever, rasurar, apagar e deixar o dito pelo não dito.
E Marina, a ungida, não suporta que a tratem como uma candidata a cargo público. Como é que o eleitorado ousa criticar suas propostas? Ou acusá-la de ser vinculada ao mercado financeiro por ter uma educadora e dona de banco como principal assessora? Ou de mudar seu programa apenas para aplacar a ira do Malafaia, se foi apenas um problema de impressão?
Não, Marina não pode ser tratada como uma candidata qualquer, ou se esqueceram que ela foi a escolhida para ser presidente?
E os meios de comunicação, a poderosa indústria de oposição política em operação no País, começou a fase Marina a vítima, a mulher sofrida e frágil sendo brutalmente atacada pelos que se beneficiaram de sua dedicação, saúde e agora a tratam como lixo.
E Marina assume esse novo personagem sem nenhuma vergonha. E a capa da Veja é exemplar dessa nova personagem da Marina. E aí temos a obrigação de denunciar essa farsa.
Marina jogou no lixo sua história de luta ao lado dos povos da floresta e do PT, quando se uniu aos que querem destruir o projeto do governo democrático e popular, que é a continuidade da luta do Chico Mendes, e da brava gente do Acre que está com a Dilma.
Se no passado Marina estava ao lado dos companheiros que enfrentavam jagunços, como afirma, infelizmente hoje alguns jagunços estão ao seu lado, como os parentes dos que mataram Chico Mendes.
E com quem está a filha do Chico Mendes? Com o PT e a Dilma.
E se Marina reivindica seu passado, se fosse algo sério e não uma parte de um plano para derrotar a Dilma, e se ainda tivesse um resquício apenas da combatividade e do compromisso com as lutas históricas dos explorados e oprimidos, como dos que lutaram nos empates nos seringais, Marina teria vergonha do que representa hoje, um instrumento para os setores mais reacionários e obscurantistas do nosso País, que aceita qualquer um no governo, desde que não seja Dilma.
Para quem discorda, temos à esquerda da Dilma o PSOL, o PSTU, o PCB, e quanto de espaço os meios de comunicação oferecem a eles para apresentarem suas propostas para o País? As suas divergências com Dilma, Marina e Aécio?
E se os ataques à Marina ofendem tanto a Veja, a Globo e a Folha, o que dizer do ataque que saem de suas matérias desde sempre contra o Lula, a Dilma e o PT?
Marina pode ser candidata ao cargo que quiser, e eu, como todo brasileiro, tenho o direito de criticar seu programa, suas declarações e o que dizem seus assessores e apoiadores. É o mínimo que qualquer eleitor deve fazer em relação aos que reivindicam seu voto e que pretendem interferir na sua vida caso eleito. Ou então a democracia representativa deve passar a se chamar ditadura.


* o título original do artigo, que é do walter takemoto, educador é : marina silva: parem de querer me destruir, na carta capital.
in tempo: aviso aos navegantes: não sou eleitor de marina(of course) tampouco de dilma, como poderia parecer, e muito menos petista.

sexta-feira, setembro 12, 2014

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não XXII

não há ironia na constatação. todos que se dizem defensores da família - a família é um projeto de deus(sic!) - não passam de grandessíssimos "filhos da mãe".

quinta-feira, setembro 11, 2014

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não XXI

marina, dilma, aecio, verdes, pecebistas, psolistas, pastores e outrens estão, em matéria de mesmismo e pulhices, empatados técnicamente .

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não XX

a virtude é uma qualidade inversamente proporcional ao sucesso na política(e, of course, em outras atividades) salvo a virtude, se é que há, em desvirtuar as coisas a seu favor.

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não XVIX

em virtude(na verdade na falta de virtudes) e do alto nível baixo do pais, creio que não temos um candidato a altura à presidência, apesar do esforço de todos eles de quererem nos levar a crer em seus propósitos de nos tirar da lama, quando o querem é tirar o pé da lama ao custo de nos chafurdar ainda mais.

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não XVIII

descasca-se o tiririca, mas a maioria dos candidatos é muito mais risível e sem graça - e por isso mesmo imensamente perniciosa - do que ele

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não XVII

erasmo quis processar tiririca por paródia. é ; erasmo tornou-se paródia(péssima)dele mesmo. a convivência com o roberto deu nisso.

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não XVI

tiririca é uma das principais plantas daninhas diz site da embrapa. se vissem as outras plantas do "guia" mudariam rapidinho a classificação.

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não XV

tem gente que vota em candidato favorito, só pra dizer que seu candidato venceu - e se considerar assim uma espécie de "fodão do bairro do peixoto" -.
eu prefiro perder a votar assim. é uma questão de consciência e classe ou se preferirem de consciência de classe.

segunda-feira, setembro 08, 2014

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não XIV

considero marina equívoco memorável. entre outras contradições a fé religiosa q se sobreppôe a fé política embora queira parecer o contrário

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não XIII

se marina eleita fizer dízimo do salário, motivo de impeachment? afinal, nossa república é laica e isso seria utilização indébita ou não ?

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não XII

mas vá lá que marina seja eleita, no dicionário da política nova vai ser presidente ou presidenta ?

sexta-feira, setembro 05, 2014

terça-feira, setembro 02, 2014

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não VIII

mais um adere a pedofilia eleitoral. desta vez eduardo da fonte: o homem que dá choques na celpe mas foge do fonoaudiólogo, como quem foge do dentista, esbanja cara de pai babado enquanto filho faz "gato" de cabo eleitoral. ao que parece políticos - que já faziam isto na surdina(ou à boca chiusa, pra ficar mais "chique") - estão fazendo releitura do "brasil cem por cento família", ainda mais ad absurdun, na ânsia do poder e do parecer íntimo e criativo. então podam-se as criancinhas, da ou de família ou não, expostas no guia, em situações constrangedoras, a tal ponto que deixam a postura do tiririca no guia elevar-se a imagem do dalai lama. a bem da verdade, diga-se de passagem, que quem inaugurou o "família a cem por cento" nesta temporada canhestra foi a renata, não a do latino, se não me faço óbvio. a catilinária nunca esteve tão infame.

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não VII

em pernambuco o coronelismo não morreu. eduardo, vivo ou morto, é a conserva disto

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse, tuitadas ou não VI

notícias da web falam do desaparecimento "inexplicável" e crescente das abelhas ao redor do mundo. phs e hapvida devem ter culpa no cartório. politicamente, uso da abelha como analogia de contigente partidário é igual a mel de supermercado; e usar abelhas, parodiando a beyoncé, é demais até para a "rainha" da colmeia publicitária. quem não tenha cabeça de camarão. que engula esta para não ser chamado de zangão.

segunda-feira, setembro 01, 2014

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse V

túnel do tempo da web é cruel.indo e vindo dos anos 70, me desencanto cada vez mais:como pudemos regredir tanto, em tudo? política,sexo,cultura, idem jornalismo, publicidade e até no rock ´n´ roll. talvez porque na época bosta era bosta e não cult.

sábado, agosto 30, 2014

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse IV

não voto em candidato que abraça e beija crianças babadas, tampouco os que as colocam no guia como peça criativa.até PV vez, "qué" isso vovô?

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse III

guia eleitoral e a velha pedofilia de sempre.crianças, até bebês, colocados em situações de assédio e risco como muleta no angario de votos - cleiton cólicas e teresinha nunes,sem falar do desafino patriota da renê, baixam ainda mais o nível disto, donde se conclui que nível do seu eleitorado equivale ao conteúdo das fraldas(ou seriam fraudes?)

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse II

utilização de eduardo campos post mortem é de fazer inveja a urubus de funerárias.nem eles, tão ávidos por dividendos, se atreveriam a tanto.

da série rápidas e rasteiras ou curta e se não engrosse I

aviso aos navegantes: não faço negócio, nem voto, com evangélicos, nem para ir para o céu.

quinta-feira, agosto 07, 2014

“considere esse o melhor curso de publicidade que você fará na vida”



pra nunca mais ninguém dizer que só sou do contra. digo que não discordo. concordo, e assino embaixo que concordo. até porque não é faculdade (argh!) é curso técnico, do tipo madureza ou se preferir por correspondência, o que é muito diferente da picaretagem não presencial.

por estas e outras- ideias abandonadas - é que a publicidade nunca mais foi a mesma. principalmente depois dos cursos universiotários. não mataram o bill, nem conseguiram suplantar a essência do seu pensamento como pensavam os adeptos do tecnhique-modern-boring que está ai, e que deve piorar, com a ascensão de programadores às direções criativas sem falar do falso beletrismo do storytelling que produz histórias que nem as "antigas" revistinhas da ediouro publicariam(quer aprender a contar história leia pelo menos estas ou "mais moderno", a coleção  LP&M pocket)

a recompensa pela boa propaganda continua sendo propalada. mas é paga por ela morta. viva não interessa mais a ninguém. e por falar nisso: how much longer will you focus on the stupid thought in the profession?

clique no link e aproveite - ou não - o curso completo. e cuidado com a porrada. pois não há air-bags.

http://www.buzzfeed.com/copyranter/all-the-great-1960s-volkswagen-ads

domingo, agosto 03, 2014

tomate não é fruta de caroço(no bom preço é)

quem economiza realiza, se desdobra em comerciais da dm9ddb o bom preço,aquele que raramente faz jus ao nome, leia-se walmart : aquela marca que não abre mão dos "princípios", meios e fins, do tio sam - com uma cantiga que prega novo posicionamento - só mesmo na cabeça dos homens de marketing para assegurar assento, ainda mais com a desculpa do posicionamento global(aquilo que se faz de cócoras também é sinônimo).

não tá tudo muito bem, não tá tudo muito bom. num dos filmes lá há uma moçoila que diz ganhar uma merreca, pagar o absurdo do aluguel que é mais de 1/3 do que ganha, que não é acima do mínimo, afirmando que só mesmo no bom preço as coisas rolam  - nesta alquimia a dita cuja ainda manda dinheiro para a mãe e faz uma poupancinha(aprendam publicitários que dizem ganhar mal). portanto, não vou fazer ilações de como as contas não batem e o que rola portanto na baixaria. porém com o tomate acima dos sete reais, por exemplo, ai eu posso lançar a semente do não transgênico consumidor da classe b, e c, que não se pergunta: onde fica a realização e a economia com tomate a preço de caqui? (na verdade caqui anda com complexo de inferioridade, desejando "ser tomate".

então, só se for no seu cu, mau preço. porque no meu a este preço nem tomate nem pepino,e já agora, nem caqui. realizou? porque vou economizar no desenho.

quinta-feira, julho 24, 2014

assim como elas estamos de volta ou, já mandando recado para geração storyteller, com elas não há copy paste ou seja:chega de enganação

a caixa preta dos melhores textos de sempre ?
Em meio às revelações de espionagem da NSA, é crescente o número de empresas da Alemanha que estao optando pelo retorno às velhas tecnologias ao invés de ficarem o tempo todo conectadas à web. Essa tendência está se refletindo nas vendas de máquinas de escrever. Fabricantes alemãs como Bandermann e Olympia já comemoram os resultados. Em 2013, a Triumph Adler, que faz parte da Bandermann, passou a promover seus produtos como “à prova de bugs, à prova de NSA”. Ao longo do ano passado, as vendas da Bandermann cresceram 1/3 em comparaçao ao ano anterior. Enquanto isso, um porta-voz da Olympia diz que a empresa espera, em 2014, bater o recorde de vendas dos últimos 20 anos – “Nós certamente passaremos das 10 mil unidades”. No início do mês, políticos alemães afirmaram estar considerando a utilização de máquinas de escrever para a confecção de documentos confidenciais, numa tentativa de proteger os segredos nacionais da espionagem norte-americana.
(a boa e velha máquina de escrever está de volta - vendas crescem na alemanha. blue bus, hoje, débora schach


quinta-feira, julho 10, 2014

a copa de uma nação sem vergonha e não só de jogadores e publicitários sem-vergonhas


NÃO FOI ACIDENTE, DONA LÚCIA*

capaextraRIO (mirem-se na Alemanha) – No dia da final da Copa das Confederações, há pouco mais de um ano, Carlos Alberto Parreira fez um discurso motivacional antes do jogo e usou uma frase de efeito para os jogadores que dali a instantes enfrentariam a Espanha. “Existe uma hierarquia no futebol, e eles foram campeões do mundo sem enfrentar a seleção brasileira!”, bradou para a turma do #ÉTóisss.
Ui, quanta valentia.
E aí a seleção foi para cima da Espanha, um time já envelhecido e que tinha gasto muitas de suas horas em solos brasileiros tomando caipirinha e comendo putas durante um torneio que não valia nada — exceto talvez ajudar os branquelos e branquelas de camiseta de 200 paus da Nike, unhas muito bem pintadas e cabelos loiros, a não se atrapalharem na hora do sonho intenso e raio vívido, muitas vezes trocados pelo amor eterno seja símbolo, naquela zona de hino que fala de coisas incompreensíveis como impávido colosso, florão (flor grande?) da América, terra garrida, clava forte, verde-louro (é aquele da Ana Maria Braga?) e lábaro que ostentas.
O time ganhou, os branquelos aprenderam a cantar o hino, aparentemente, os jogadores passaram a ensaiar os mesmos versos para cantá-los com os dentes cerrados, e vamos para a Copa do Mundo. Antes, vamos quebrar também umas vitrines, culpar a Dilma, criar umas hashtags, #VemPraRua, #NãoVaiTerCopa, reclamar das filas nos aeroportos, bater umas selfies e escrever #ImaginaNaCopa no Facebook quando atrasar um voo da TAM para Orlando.
Acelera o filme e chegamos ao final de maio, maio agora, um mês e meio atrás. Dia de apresentação da seleção em Teresópolis, entrevistas coletivas, olha só como tudo ficou bonito, olha só a estrutura, os quartos, as bicicletas ergométricas, os campos de futebol, a sala de imprensa, as banheiras de hidromassagem, as TVs de LCD, o WiFi funcionando. Felipão: “Nós vamos ganhar a Copa”. Parreira: “Chegou o campeão. Estamos com uma mão na taça. A CBF é o Brasil que deu certo”.
Acelera um pouco mais o filme, chegamos ao dia 8 de julho, vulgo ontem, Mineirão. Como tinham feito nas cinco partidas anteriores, os jogadores entram em campo um com a mão no ombro do outro, feito minha classe na Escola Municipal Dona Chiquinha Rodrigues, em 1971, no Campo Belo, quando eu estava no primeiro ano primário. Cantávamos o hino todos os dias, mas nunca precisei colocar a mão no ombro de ninguém porque era sempre o primeiro da fila, por ordem de tamanho.
Tal rotina cumprida por todo um período escolar me permite não embaralhar versos até hoje, garanto que nunca enfiei a paz no futuro e a glória no passado depois do formoso céu, risonho e límpido, mas ao mesmo tempo me privou de decorar de maneira adequada o hino da independência, porque esse a gente zoava mesmo, eram os cinco filhos do japonês, cada um deles contemplado com uma desgraça diferente, um era vagabundo, outro era punheteiro, e o coitado do quinto tinha nascido sem pinto. Como esse a gente cantava só uma vez por ano, não tinha problema algum abrir mão daquelas baboseiras de garbo juvenil, grilhões da brava gente brasileira, e perfídia astuto ardil é a puta que pariu. Na mesma vida ter de decorar lábaro que ostentas estrelado e ímpias falanges é um pouco demais, não força a amizade.
Pois que os meninos da CBF, o Brasil que deu certo, adentraram o gramado em formação de grupo escolar, perfilaram-se, urraram o hino nacional segurando uma camisa do Neymar Jr. como se fosse a farda de um soldado abatido em Omaha Beach, enquanto o próprio assistia ao jogo em sua casa no Jardim Acapulco pingando fotos no Instagram, #ÉTóiss.
Parêntese. No dia anterior, três dos meninos da CBF também colocaram fotos no Instagram com a hashtag #jogapraele, respondidas, as fotos, com a hashtag #jogapramim pelo soldado abatido na guerra, Neymar Jr. Todos eles, Neymar Jr., Marcelo, Willian e David Luiz, receberam quantia não divulgada da Sadia, patrocinadora da seleção, para a, como se diz hoje, ação. Foram alguns milhões de curtir & compartilhar que deixaram os marqueteiros da empresa muito satisfeitos e ansiosos para saber quantos frangos seriam vendidos no dia seguinte, enquanto os rapazes rangiam seus dentes gritando pátria amada, Brasil.
Então começou o jogo e foi aquela coisa linda.
Então acabou o jogo e estavam todos atônitos, pasmos, chocados, passados, desacorçoados, e os câmeras da FIFA se divertiram fazendo closes de garotinhos com fulecos na cabeça derramando lágrimas no peito de papai com um TAG-Heuer no pulso. Oh, coitados. E os óculos Prada embaçados com as lentes melecadas de rímel? Pobres almas.
Acelera a fita e chegamos à coletiva de hoje, sete figuras em Teresópolis numa mesa, uns dois ou três eu não tenho a menor ideia de quem fossem, ou sejam, porque continuam sendo alguém. Reconheci Parreira, Felipão, Murtosa, o médico, acho que o preparador físico. Tinha um de agasalho, quase um boneco de cera, no centro da mesa tal qual um Jesus Cristo na última ceia, que entrou mudo e saiu calado, e portanto não devia ter grande importância.
E o que se viu foi uma demonstração de arrogância, soberba, prepotência, falta de humildade, um festival de sandices, um arroto coletivo coroado com a carta da dona Lúcia.
Dona Lúcia é a grande personagem desta Copa do Mundo, e surgiu, infelizmente, aos 44 do segundo tempo. Teria sido muito divertido saber o que ela pensava desde o dia 12 de junho, na abertura em Itaquera. Foi sua carta, na verdade um e-mail, afinal estamos em 2014 e nem dona Lúcia escreve mais a mão, fecha um envelope, lambe um selo e vai ao correio, que absolveu toda a CBF, todos os membros da comissão técnica, todos os jogadores, todos os nossos pecados. Foi a carta de dona Lúcia que permitiu a Parreira, a quem encarregaram de dar à luz a missiva, concluir que está tudo perfeito, que ele é perfeito, Felipão também, os demais da mesa, o futebol brasileiro, a CBF. Afinal, como ele disse há um ano, há uma hierarquia no futebol. E estamos no topo dessa cadeia. É nóis, mano. #ÉTóiss.
Bem, vamos a alguns fatos. Foi o pior resultado de uma seleção brasileira desde o dia em que o Homem de Neandertal deu um bico na cabeça do cara da tribo vizinha, arrancando-a e fazendo a dita cuja voar entre duas árvores. Um 7 x 1 numa semifinal de Copa gerou folhas e folhas de estatísticas, todas elas iniciadas com “nunca”. Nunca isso, nunca aquilo.
Não me senti envergonhado de nada nem durante, nem depois do jogo. Quero que a seleção se foda, não dependo dela para viver, torço para a Portuguesa, e para mim, depois de 1982, tanto faz se a CBF tem um escudo com quatro, cinco ou dez estrelas. Para mim, a equação é simples: quem se dá bem quando a seleção ganha? A CBF e os caras que tomam conta dela, mais um pessoal no entorno, mídia incluída, que se apropria das vitórias e se refere ao time na primeira pessoa do plural. Acho todos desprezíveis, então não me importo se ganha, perde, empata, se goleia, se é goleada. Olho tudo, assim, com o distanciamento e isenção necessários e torcendo apenas por uma coisa: que um dia tudo mude.
Mude, porque gosto de futebol. Porque olho para a Alemanha e fico feliz da vida de ver que um projeto feito há não muito tempo dá tão certo e é baseado apenas em honestidade de princípios, trabalho, dedicação, metas, filosofia.
Filosofia. Essa é a palavra. Em 2000, a Alemanha fez uma Eurocopa de merda e não passou da primeira fase. Fritz, Hans, Müller, Klaus e Manfred se reuniram e decidiram salvar o futebol do país. Para isso, era preciso mudar tudo. Clubes, ligas, divisões de base, campeonatos, estádios, distribuição de dinheiro, formação de técnicos, médicos, preparadores físicos, finanças, tudo. O resultado, óbvio e inevitável, seria uma seleção forte, mais dia, menos dia.
Os resultados estão aí e não vou me alongar neles. São quatro semifinais seguidas de Copas, a Bundesliga tem uma média de público assombrosa, os clubes são saudáveis, vivem decidindo os campeonatos europeus, é um sucesso. A coisa é tão bem feita e bem pensada, que os clubes são obrigados até a estabelecer uma filosofia de jogo e aplicá-la em todas as suas divisões. A distribuição de grana não é a obscenidade determinada pela TV Globo aqui, por exemplo. Atende a critérios técnicos, não a planilhas do Ibope. Em resumo, em 14 anos, o que é quase nada, os caras reconstruíram seu futebol. E o futebol na Alemanha, com o perdão da expressão, mas não encontro outra melhor, é do grande caralho.
Enquanto isso, por aqui, ele é infestado por figuras sombrias e deprimentes, gente ligada ao regime militar, múmias carcomidas, antiquadas, obsoletas, conservadoras (o treinador é admirador confesso de Pinochet), adeptas de rituais de guerra, de conceitos bélicos, de atitudes marciais, gente que não sorri, que dá asco, que, definitivamente, não tem nada a ver com o futebol que o Brasil um dia mostrou ao mundo e fez com que o mundo se encantasse por ele. E até hoje isso acontece. Esse encanto, que é claramente uma herança do passado, segue tão vivo que a Alemanha, hoje, pediu desculpas ao Brasil.
Não precisava. Essa gente não merece tamanha consideração. A seleção brasileira não representa nada, a não ser os interesses (pessoais, muitas vezes; não estou falando só de dinheiro) de meia-dúzia que há décadas se locupleta com ela. Como explicar a escolha do técnico, por exemplo? Felipão, nos últimos dez anos, perdeu uma Euro com Portugal para a Grécia em casa, foi demitido do Chelsea, mandado embora de um time uzbeque e rebaixou o Palmeiras para a Série B. Prêmio: virou técnico da seleção brasileira na Copa do Mundo disputada no Brasil.
Hoje, na tal coletiva, brandiu folhas de papel com seu retrospecto e carga horária de treinos para provar que fez tudo direitinho. Parreira, figura hedionda e sorumbática, interrompia o abatido treinador a cada resposta para rebater toda e qualquer crítica e reforçar sua autoproclamada competência, seu currículo inatacável, seu passado vitorioso de líder de polichinelo, flexão de braço, distribuição de coletes e posicionamento de cones.
O futebol brasileiro recebeu alguns recados nos últimos anos. Quando o Santos tomou duas goleadas do Barcelona, por exemplo. Ou quando o Inter foi eliminado do Mundial de Clubes por um time africano. E, depois, o Atlético Mineiro — por uma equipe marroquina. As finais da Libertadores serão retomadas agora, depois da Copa. Sabe quantos clubes brasileiros estão entre os semifinalistas? Nenhum. A média de público da Série A é não menos que ridícula. O campeonato do ano passado acabou num tribunal fajuto porque a CBF não consegue publicar uma suspensão de jogador num site. O clube que reclamou dessa iniquidade foi chantageado e ameaçado de desfiliação e acabou rebaixado, sem ter direito sequer de buscar seus direitos.
Esse futebol, ontem, levou sete gols da Alemanha. Quatro deles em seis minutos. E a turma responsável por esse vexame hilariante, hoje, não desceu do salto. Não assumiu nenhum erro. Não admitiu nenhuma falha. Não reconheceu suas deficiências. Tratou o resultado como um acidente.
Foi quando surgiu a carta de dona Lúcia. Que termina sua peroração dizendo que não entende nada de futebol. Talvez por isso os sete da mesa, mais os que nela não estavam, tenham tentado convencer dona Lúcia de que foi um acidente.
Mas não foi não, dona Lúcia.
* Ilustro este post, que nem queria escrever, porque não escrevi nada desta Copa, infelizmente (foi uma Copa riquíssima e excepcional), com a melhor das capas de jornal que vi hoje. É do “Extra”, aqui do Rio, que enterra de uma vez por todas o Maracanazo. O que aconteceu em 1950 foi uma tragédia. O que aconteceu ontem, uma vergonha. São coisas bem diferentes.
*no blog do flávio gomes http://flaviogomes.warmup.com.br/