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sexta-feira, agosto 14, 2015

quando rir já não é o melhor remédio

diversão, eis a palavra que sumiu da propaganda atual. e nem falo da extra-muros. mas principalmente da intra-muros. encontre-me um publicitário feliz, hoje, leia-se divertindo-se com o que faz, e eu te darei meu reino de fracassos risíveis e sucessos improváveis.





p.s: ao contrário das hienas, a quem erroneamente se atribui o riso quando no ato de acasalar - apenas uma vez por ano - elas produzem o som similar ao riso humano quase sempre. a sua semelhança com o riso publicitário de hoje é que o principal motivo do "riso" emitido pelo animal é a frustração. a similaridade é ainda maior se considerarmos que as hienas(e os publicitários, of course) riem conforme sua posição dentro do grupo. as(os) que conseguem posições de liderança acabam emitindo um som mais grave e baixo, bem diferente da risada aguda e alta da dominadas/dos. em situações de competição, os animais de posição inferior na hierarquia riem muito mais. então, ao que parece, tanto no caso das hienas quanto no dos publicitários, é literalmente um riso para não chorar. contudo, muitos publicitários também riem quando estão fodendo alguém ou sendo fodidos

sem que se deem ou deem por isto(esqueça o ato sexual) o que os diferenciam das hienas que não fodem ninguém por mera vaidade ou desejo de "phoder".

in tempo: se fui feliz na propaganda? sim, muito até. como não? bons salários, boas doses de liberdade - conquistadas com muito trabalho duro: éramos workaholicos sem o saber - e sem sentir, e sem reclamar(ganhávamos bem para isto) - e bons clientes dispostos ao risco de acertar. outros e bons tempos onde as hienas não se reproduziam tanto. até porque os leões da época, bem mais camaradas, e sem maiores preocupações com a juba, não davam muito espaço para os que não cultivavam o bom humor, que era farto e que justificava as verdadeiras razões do riso.

saudosista eu? nem um pouco. como diria o bardo, há coisas que deixam de ser boas quando duram mais do que o efêmero, como yo por exemplo;)

quinta-feira, maio 07, 2015

raposas globais e suas pérolas. e as galinhas de capoeiras com seus ovos de ouro tratadas como se de granja fossem

Para Conar, regular até mesmo a publicidade infantil é censura.

Publicidade para crianças
Em evento, publicitários criticam qualquer iniciativa de regulação da propaganda – inclusive aquelas direcionadas a menores de 12 anos. “As crianças tem direito à informação”, alegam

                               O mundo todo celebrou esta semana, no dia 3 de maio, o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. A data, como todos os anos, foi marcada pelo lançamento de relatórios que revelam os desafios do jornalismo nas sociedades contemporâneas. Entre eles, a violência que segue acometendo profissionais e comunicadores populares nas mais diferentes regiões do planeta. Para quem quiser conferir como anda a situação no Brasil, fica a sugestão de leitura da publicação lançada pela Artigo19, que relata 15 homicídios, 11 tentativas de assassinatos e 28 ameaças de morte no País motivadas pelo exercício da liberdade de expressão.
Todos os anos, também a Imprensa Editorial, responsável pelo Portal Imprensa, organiza na mesma data o Fórum Liberdade de Imprensa & Democracia. O evento tem sido marcado pela reunião de “eminentes nomes do jornalismo brasileiro" que, invariavelmente, compreendem que qualquer regulação dos meios de comunicação é prática de censura. Este ano, o apresentador do Jornal Nacional, Heraldo Pereira, soltou a pérola: “Ainda bem que temos o PMDB, que já disse que é contrário à Lei da Censura que o PT quer aprovar. Não adianta falar que é regulação, por que não é”.
A novidade de 2015, cuja edição foi patrocinada pelo Grupo Globo, com o apoio de diversas entidades empresariais, foi incluir, no hall dos temas a serem debatidos, a questão da publicidade. Sim, o Portal Imprensa embarcou na onda de que as propagandas comerciais também são manifestações de liberdade de expressão – e que, por isso, devem ser protegidas pelo mesmo princípio constitucional que impede que manifestações de pensamento sofram quaisquer restrições. Num painel intitulado “Limites na criação publicitária: liberdade de consumo X controle e regulamentação”, três profissionais da propaganda se revezaram para defender "o direito da população ser informada pela publicidade", e para atacar principalmente iniciativas de proteção das crianças em relação à publicidade infantil.
Um dos alvos foi a Resolução n. 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), aprovada em março de 2014, que considera abusivas a publicidade e a comunicação mercadológica dirigidas às crianças de até 12 anos. Por ser um ato normativo primário previsto no Art. 59 da Constituição Federal, as Resoluções do Conanda possuem poder vinculante e devem ser seguidas e consideradas por todos os agentes sociais e estatais. Ou seja, desde o ano passado, a publicidade dirigida à criança é considerada ilegal segundo o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto da Criança e do Adolescente e a própria Constituição. Mas continua sendo sistematicamente empregada tanto pelos anunciantes quanto pelas agências de publicidade, com a conivência dos veículos de comunicação, que lucram com tais anúncios.
Observando essas ilegalidades, o Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, enviou, em abril passado, cinco representações para os Ministérios Públicos de São Paulo e Paraná e para os Procons de São Paulo e do Espírito Santo. O objetivo não é acabar com a publicidade, mas garantir seu direcionamento para os adultos e não mais para as crianças.
Para Mônica Spada e Souza, diretora executiva da Maurício de Souza Produções, que esteve no evento do Portal Imprensa, restringir a publicidade infantil é “subjulgar a inteligência das crianças”, que, na sua avaliação, tem todas as condições para compreender a diferença entre realidade e fantasia e também tem “direito ao acesso à informação”. Mônica é defensora da tese de que são os pais que tem que definir o que seus filhos podem ver – mesmo que, em grande parte das vezes, as crianças estejam sozinhas diante da televisão.
Edney Narchi, vice-presidente executivo do Conselho de Autorregulamentação Publicitária (Conar), outro convidado do Fórum, concorda plenamente que “o Conanda quer restringir o direito de acesso à informação pela publicidade”. Para ele “espécies de pessoas e de ONGs são contra porque são contra a propaganda mercadológica”, assim como a “Anvisa é contra porque é contra a publicidade de medicamentos e de determinados alimentos”.
Ou seja, para o Conar, não há qualquer motivo para que a sociedade se preocupe com o bombardeio publicitário sofrido pelas crianças ou para que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária se preocupe com os índices crescentes de automedicação da população brasileira.
Reportagem do próprio Jornal Nacional veiculada nesta terça-feira 5, sobre o Dia Nacional do Uso Racional de Medicamentos, mostrou que mais de 39 mil pessoas foram intoxicadas por remédios no ano passado e destacou os riscos do consumo sem receita de medicamentos. Mas, para o mercado publicitário, restringir este tipo de anúncio, com buscou fazer a Anvisa, é “ser contra por ser contra”.
“A comunicação é algo tão sensível que não deve ser motivo de lei”, cravou Edney Narchi, ignorando que, no mundo todo – sobretudo em democracias mais antigas que a nossa –, a banda não toca desse jeito. Para o Conar, nossa Constituição Federal é autoritária e a autorregulamentação é o que deve existir em termos de regras para o funcionamento do setor. O resto é censura!
O terceiro convidado do painel, Carlos André Eyer, diretor de criação da NBS, reforçou o mesmo ponto de vista desta discussão bastante plural, como deveria se esperar de um evento organizado por uma empresa jornalística e que leva a palavra "democracia" no título. “Estamos terceirizando a educação das pessoas ao vilanizar a publicidade e os produtores de conteúdo. Temos é que dar estrutura para as famílias educarem seus filhos em vez de acharmos que é preciso privar as crianças de algumas coisas”, disse Eyer. E encerrou com mais uma pérola do encontro: “Todos os departamentos de marketing das cervejarias estão tentando fazer propaganda com menos mulher gostosa no vídeo, mas não dá certo. O bebedor médio de cerveja gosta é disso. Então a culpa não é da propaganda, é do consumidor”.
Precisa dizer algo mais?
Para quem quiser conhecer melhor o debate sobre publicidade infantil, visite o site do projeto Criança & Consumo, do Instituto Alana.
(por bia barbosa, jornalista, especialista em direitos humanos e integra a coordenação executiva do intervozes. material extraído da carta capital).

quarta-feira, março 25, 2015

sim, o maléfico anda fazendo escola

gladiadores do altar da igreja universal. 
qualquer semelhança com a ideologia nazi-fascista-imperialista-midiática 
seria mera coincidência?

























 “Quando se estuda jornalismo na faculdade é para se formar redatores iguais. O que importa é o marketing, que sejam lidos”, disse. A formação seria então mais comercial do que profissional. O resultado, para Savio, é que a imprensa trata de eventos, não de processos. Assim, produz-se coberturas sem contextualização e que não dão conta da complexidade do mundo(Roberto Savio, presidente da agência italiana Inter Press Service).


misterwalk comenta: e  o que dizer então de publicitários formados nestas formas de gelo destas mesmas faculdades? são estes que vão produzir diferenciação, rupturas, disrupturas na comunicação de marketing de marcas? 

ah! conta outra. não me faça rir como aquela agência que diz ser diferenciada por instinto e em suas contas apresenta um repeteco de perfil que desmente toda e qualquer diferenciação anunciada ou melhor, neste caso, renunciada. 

o mal da maioria esmagadora das agências é que elas querem se diferenciar pelo que é produzido por seus intestinos( e chama isto de genial) e não pelo cérebro, corroborando a ideia, dominante na prática, da sustentabilidade do negócio baseado no fato sólido porém de resultados aquosos que merda dá dinheiro. então pra que mudar? diferenciação? apenas na tentativa do disfarçe o cheiro, onde nem nisso há diferenciação. é sempre a mesma cantilena do pensamento estratégico, de mais um termo em inglês, das pesquisas, do digital. bom você,se publicitário, minimamente ativo, conhece o repertório passivo como ninguém. 

ao fim e ao cabo, toda unificação é maléfica. mas o mal do mau é que até ele pode ser bem feito, o que no caso da formação publicitária atual não acontece. mas que causa tanto mal como mal maior seria se esta formação conseguisse formar algo mais que gladiadores de mais do mesmo.

p.s. se você acha que não, cito  o desastre de comunicação do governo ao produzir mais do mesmo sem a menor ideia do que seja timing, já que não havia ideia nenhuma em sua comunicação que não fosse repetição de outras cópias. nem precisou a oposição produzir material. o fogo amigo resolveu tudo de uma vez só. deve ser isso que se aprende na faculdade. como dar tiro no pé com metralhadora para demonstrar poder de fogo(leia-se criatividade;efetividade).

sábado, março 14, 2015

na agência glamurosa boceta "capô de fusca"* ganha troféu calota. é no brasil? sim. mas oficialmente só na "geografia da áfrica" ?



troféu calota 2010
Publicitárias denunciam abusos de que são vítimas no trabalho e afirmam: os anúncios que indignam as mulheres nascem da cultura interna das próprias agências


“Não existem muitos casos de propagandas machistas no Brasil porque a publicidade brasileira é madura para perceber que a pior coisa que pode fazer é irritar o consumidor, seja ele mulher, homem ou criança. De qualquer forma, nós não temos uma declaração oficial a respeito desse assunto”. Essa foi a resposta da assessoria de imprensa do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), por telefone, à pergunta da Pública referente a algumas peças publicitárias lançadas no Carnaval e no Dia Internacional da Mulher, rechaçadas nas redes sociais por serem consideradas machistas – algumas inclusive retiradas de circulação. O Conar é um órgão de autorregulamentação das agências publicitárias, encarregado de receber denúncias de consumidores ou órgãos públicos e julgar se a propaganda deve ser tirada do ar e a agência eventualmente advertida. Das 18 denúncias de machismo em propaganda recebidas em 2014 (pesquisadas pela Pública no site do Conselho), 17 foram arquivadas, e apenas uma, da cerveja Conti, que dizia em sua página do Facebook “tenho medo de ir no bar pedir uma rodada e o garçom trazer minha ex” terminou com um pedido de suspensão e advertência da agência que realizou a campanha.


Outra campanha, do site de classificados bomnegócio.com, em que o Compadre Washington chamava uma mulher de “vem ordinária”, que havia recebido pedido de suspensão, foi posteriormente reavaliada e o processo arquivado. As justificativas das decisões geralmente são de que as propagandas não são machistas mas sim humorísticas, como esta de março de 2014, referente a um spot de rádio da Itaipava: “Uma consumidora paulistana entendeu haver preconceito machista em spot de rádio da cerveja Itaipava. A anunciante e sua agência alegam o caráter evidentemente humorístico da peça publicitária. O relator aceitou esse ponto de vista e recomendou o arquivamento, voto aceito por unanimidade”.


A visão do Conar parece ser compartilhada pela maioria das agências, criadoras das peças publicitárias. Chamada a dialogar sobre a campanha “Verão” em que uma mulher chamada Vera é impedida de passar por um homem na praia, ela tentando correr e ele barrando sua passagem com o slogan “não deixe o Verão passar” ou em uma que ela leva e traz cervejas para os homens só de biquíni enquanto eles olham para seu corpo e chamam “vem Verão, vai Verão” ou ainda uma terceira em que a moça aparece de biquíni com uma lata e uma garrafa de cerveja na mão com o slogan “faça sua escolha” com a indicação de 300, 350 ou 600 ml – estes em uma alusão ao silicone do seio da modelo, a agência preferiu se pronunciar apenas por e-mail de sua assessoria de imprensa. “A Y&R, agência que criou a campanha, respeita, bem como seu cliente, todas pessoas e em especial as mulheres. Em momento nenhum faz qualquer tipo de alusão para desmerecer ou agredir quem quer que seja e considera que o humor utilizado não tem tom de agressividade ou qualquer juízo de valor”.









Peça publicitária da campanha “Verão” da Itaipava / Reprodução



As entrevistas também foram negadas pela agência F/Nazca Saatchi &Saatchi, responsável pela campanha da Skol para o Carnaval que teve que mudar a campanha depois que seus cartazes de “Deixei o não em casa” foram pichados com a frase complementar “mas trouxe o nunca” por duas garotas de São Paulo, e pela Ajinomoto do Brasil, fabricante da Sopa Vono, que teve sua fanpage no Facebook invadida por reclamações por peças consideradas machistas e também teve de tirá-las do ar. Via assessoria de imprensa a F/Nazca Saatchi &Saatchi e a Ajinomoto disseram que lamentam o ocorrido, respeitam as mulheres, que o objetivo da peça era humorístico e que estão repensando suas estratégias.



De onde surge então o machismo das peças criadas pelas agências? Uma nova pista surgiu quando através de um pedido feito em um grupo fechado no Facebook, 15 mulheres de 20 a 40 anos, atuantes em áreas diversas da publicidade contaram à Pública como é o ambiente em que trabalham, dentro das agências. Os relatos, feitos sob anonimato pelo temor de perder o emprego, trazem casos de abuso, assédio e violência psicológica que viveram ou ainda vivem em suas carreiras. Trechos destes depoimentos estão destacados ao longo do texto.









A campanha de Vono que foi retirada do ar após reclamações na fanpage da marca









Anúncio da Skol e a intervenção de Mila Alves e Pri Ferrari. A foto teve mais de 8 mil curtidas no Facebook / Foto: Reprodução






“Antes de falarmos sobre publicidade machista, temos que falar sobre machismo na publicidade” argumenta a diretora de criação Thaís Fabris, idealizadora do projeto 65|10 que discute o papel da mulher na publicidade. “O ‘65’ vem do dado de uma pesquisa do Instituto Patrícia Galvão que aponta que 65% das mulheres brasileiras não se identificam com a publicidade e com a forma com que são retratadas pela publicidade. O número ‘10’ é de uma pesquisa que nós fizemos que mostrou que apenas 10% dos criativos dentro das agências brasileiras são mulheres. E é na criação que as campanhas são feitas”.





A diretora de criação e idealizadora do 65|10 Thais Fabris / Foto: Joseh Silva


A gerente de planejamento Carla Purcino concorda: “Quando a gente olha para a representatividade feminina na publicidade percebe que é praticamente 50%. Mas a distribuição dentro dos departamentos é muito diferente. Entende-se que a criação é um reduto masculino e que a mulher é mais adequada para o departamento de atendimento. E na maioria das vezes as mulheres do atendimento precisam ser bonitas para seduzir os clientes. Quem trabalha no meio sabe de agências que já demitiram times inteiros de funcionárias dessa área por não serem tão bonitas. ‘Contratem garotas bonitas’. E isso obviamente influencia sobremaneira o resultado final”. As duas disseram topar dar o nome por trabalharem hoje em agências mais inclusivas mas Carla lembra que chegou a ouvir de um diretor de uma agência onde trabalhou, após pedir a negociação de alguns direitos trabalhistas, que “se ela fosse homem ele meteria a mão na sua cara”. Por outro lado, por se colocar contra campanhas machistas nas agências onde trabalhou, ela já foi chamada a ajudar quando uma delas foi atacada nas redes sociais: “Me pediram ajuda para contornar a situação e a gente conseguiu resolver mas a coisa ainda acontece muito de fora pra dentro. Por pressão das pessoas as agências são obrigadas a resolver aquelas campanhas pontuais, a coisa não parte de dentro pra fora. É algo como ‘ai, que gente chata’. E as publicitárias ainda têm muito medo de se pronunciar. Elas normalmente se calam diante de piadas e colocações machistas para não perderem seus empregos. Tem uma grande agência que entrega, na festa de fim de ano, um prêmio chamado ‘calota de ouro’ referindo-se ao volume da vagina da mulher. E para sobreviver, elas acabam entrando no jogo”.




A gerente de planejamento Carla Purcino sempre se posicionou contra o machismo nas agências onde trabalhou / Foto: Joseh Silva

Veja aqui, imagens encontradas da festa da agência África em 2010.







“Trabalhei para marcas como Brahma, Skol e Budweiser, em que o machismo impera em qualquer peça de comunicação. Por mais que tentássemos abrandar ou mostrar um novo viés para a campanha, sempre éramos obrigadas a seguir os conceitos e o lugar-comum das marcas de cerveja em que a mulher é só mais um ser criado para satisfazer e obedecer o homem”. R.J. 32



Como diretora de criação, Thaís diz que, para fazer parte do grupo, muitas mulheres também acabam se masculinizando e até reproduzindo esse machismo. “É a maneira que encontram de preservar suas carreiras. Emudecem e não questionam ou entram na lógica e reproduzem”.




Propaganda do Ministério da Justiça também foi considerada machista e retirada do ar / Foto: Reprodução


Não existem dados oficiais sobre diferenças de salários e cargos na publicidade brasileira separados por gênero mas no geral, segundo o PNAD de 2013, mulheres recebiam cerca de 26,5% a menos que homens na mesma posição. E segundo a pesquisa “A mulher publicitária, preconceito e espaço profissional: estudo sobre a atuação de mulheres na área de criação em agências de comunicação em Curitiba” realizada em 2009, as mulheres correspondiam a menos de 20% nas áreas de criação. Em sua conclusão, o estudo aponta que muitas vezes as próprias mulheres contavam casos de discriminação sem entender como tal: “Percebe-se, assim, que a discriminação por parte do gênero masculino em relação ao feminino está tão enraizada na profissão, que acaba sendo acatada como uma manifestação sociocultural natural para as mulheres que trabalham dentro desses ambientes extremamente machistas. O discurso dos indivíduos que atuam na área, afirmando que existem mulheres que não servem para essa profissão por serem muito frágeis e fracas, é típico da construção hierárquica desigual da sociedade, que surge de seus tempos mais remotos.”


“Existe quase uma ordem natural de colocar as mulheres nas áreas de atendimento e gerenciamento de projeto do que em qualquer outra. existe uma série de piadas extremamente machistas e misóginas que ‘brincam’ com essa relação de mulher sempre virar atendimento”. F.B, 32





O anúncio da Always com Sabrina Sato que quer falar sobre vazamento menstrual e de imagens íntimas / Foto: Reprodução




Recomendações internacionais


A pesquisa “Representações das mulheres nas propagandas na TV” citada pela Thaís no começo da matéria, foi publicada em 2013 pelo Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Data Popular. De acordo com os dados obtidos 84% dos entrevistados (homens e mulheres de todo o país) reconhecem que o corpo da mulher é usado para venda de produtos; 58% entendem que as propagandas na TV mostram a mulher como objeto sexual e – ao contrário do que acredita o Conar – 70% defendem a punição aos responsáveis por propagandas que mostram a mulher de modo ofensivo.



O Brasil é signatário da Declaração e Plataforma de Ação da IV Conferência Mundial Sobre a Mulher, realizada em 1995 em Pequim, que determina: “incentivar a participação das mulheres na elaboração de diretrizes profissionais e códigos de conduta ou outros mecanismos apropriados de auto-regulação, para promover uma imagem equilibrada e não-estereotipada das mulheres na mídia; incentivar a criação de grupos de vigilância que possam monitorar os meios de comunicação e com eles realizar consultas, a fim de garantir que as necessidades e preocupações das mulheres estejam apropriadamente refletidas neles; promover uma imagem equilibrada e não-estereotipada da mulher nos meios de comunicação”.



Mas depois disso, o país já recebeu recomendações internacionais para que preste mais atenção à forma como retrata a mulher em suas propagandas. Em 2003, o relatório do comitê da Cedaw (Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher do qual o Brasil é signatário) afirmava: “O Comitê está preocupado com a evidente persistência de visões conservadoras e estereotipadas, comportamentos e imagens sobre o papel e responsabilidades de mulheres e homens, os quais reforçam um ‘status’ inferior das mulheres em todas as esferas da vida”. O relatório também recomendava que fossem criados programas para fomentar “a eliminação de estereótipos associados aos papéis tradicionais na família, no trabalho e na sociedade em geral”; e que os meios de comunicação (mídia) “fossem encorajados a projetar uma imagem positiva das mulheres e da igualdade no ‘status’ e nas responsabilidades de mulheres e homens, nas esferas pública e privada”.


“O diretor da agência onde eu trabalhava diversas vezes insinuava que eu (por ser lésbica) queria ficar com as meninas da equipe dele. Quando tinha Happy Hour da agência, ele me fazia perguntas constrangedoras a respeito da minha vida pessoal e ainda ficava perguntando o que eu gostaria de fazer com as meninas da equipe dele se elas me dessem bola. Isso tudo é pouco. Diversas vezes esse diretor insinuou coisas pra mim, fazia aqueles “elogios” desconfortáveis sobre roupa, corpo, olhar. Dizia que se eu conhecesse como ele era, eu não seria lésbica”. P.R, 29


De acordo com a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher – Convenção de Belém do Pará – de 1994 – o Brasil tem cinco formas de violência contra a mulher tipificadas: sexual, física, moral, psicológica e econômica, explica Raquel Marques, diretora da ONG Artemis. “Na Venezuela, a mesma convenção deu origem a uma lei com 14 tipificações de violência contra a mulher, inclusive a midiática. Porque você transmitir mensagens que reforcem estereótipos ou reforcem violência causa dano coletivo e o dano coletivo vem da naturalização dos comportamentos. A publicidade, mais do que nenhum outro veículo traz expressões que se tornam até parte do nosso vocabulário, jingles, chavões, é muito poderoso”.


“Cansei de contar quantas infinitas vezes tive que dizer em voz alta para os diretores e supervisores o quanto eles estavam sendo machistas com determinadas peças. Às vezes, nem só nas campanhas mas também na conversinha de cozinha. Por eu sempre me posicionar firmemente, eles me chamavam de feminazi e sempre que podiam, faziam piadas machistas perto de mim para me ver reagir”. T.B. 29

Incentivo à violência contra a mulher


E essa violência pode ser incentivada pela publicidade como observa Thaís Fabris. “Nós publicitários temos que perceber a responsabilidade que temos enquanto criadores de comunicação em massa. Não é porque uma coisa funciona, que as pessoas compram, que a gente pode reforçar estes estereótipos muito perigosos. Quando a gente fala em ‘mulher objeto’, essa mulher está lá na outra ponta, com o homem se achando dono dela e acreditando que se aquele brinquedo não funcionar do jeito que ele quer, ele pode quebrar. E você tem uma mulher morrendo a cada 90 minutos no Brasil. A gente está sim reforçando e habilitando esse comportamento. A propaganda que pergunta ‘você está pronta pra ir pra praia?’ tem responsabilidade sobre a mulher que está morrendo em mesa de cirurgia ou morrendo de anorexia! A propaganda é feita pra isso, pra influenciar decisões e gerar a compra de produtos. Mas eu já disse e repito: antes de falar sobre publicidade machista, precisamos falar sobre machismo na publicidade. Porque ela existe, é real, acontece todos os dias dentro das agências”.


“Os meninos de uma agência na qual trabalhei encontraram com uma modelo famosa numa padaria e voltaram dizendo o quanto ela era gostosa, “rabuda” entre outros adjetivos horríveis. Senti-me enojada com os comentários, a ponto de não aguentar e rebater dizendo que mulher não era pedaço de carne. Isso foi suficiente para que todos se unissem contra mim e começassem então um massacre machista. Tudo o que eu falava era contestado. Todas as opiniões que eu dava eram minimizadas. Todos os meus trabalhos eram “meia-boca”. Acho que minha estadia nessa agência, em especial, foi uma das piores experiências profissionais que tive na minha vida”. C.C, 34





Mais um anúncio da Skol
A reação delas


Esse machismo dentro e fora da publicidade começa a criar novos nichos de atuação para as mulheres que se levantam contra ele. A Think Eva, é uma empresa criada pelas amigas Juliana de Faria (Jules), Maíra Liguori, e Nana Lima para prestar consultoria para marcas, agências, instituições, ONGs e órgãos públicos que queiram dialogar com as mulheres de um “jeito não ofensivo, mais efetivo e respeitoso”. Jules é a idealizadora do Think Olga, site sem fins lucrativos que promove o empoderamento feminino e responsável pela campanha Chega de Fiu Fiu. “As mulheres não estão mais deixando passar. Muito porque hoje elas mesmas falam de suas angústias e não dependem mais de uma revista feminina pra isso, por exemplo. A gente vive um momento de transição e existe gente querendo entender isso. Nós trabalhamos com essas pessoas” explica Jules. Apesar de ter sido lançada há pouco mais de um mês, a empresa já recebeu vários pedidos inclusive de palestras para funcionários de agências e revistas. O 65|10 da Thaís Fabris também oferece serviços de consultoria criativa para empresas e coaching profissional para criativos. Até uma cerveja feminista foi criada pelo grupo, que pretende com isso levar a discussão pra mesa do bar. “Pensamos em criar com a cerveja um ‘puxador de assunto’. Não é sobre supremacia feminina, é sobre igualdade entre gêneros” define Thaís.





Maíra Liguori, Nana Lima e Jules de Faria do Think Olga




(machismo é a regra da casa, por andrea dip, para http://apublica.org/)



* capô de fusca é a equivalência nordestina para a tal calota. mas se na região não se chega a institucionalização canalha da premiação, nos corredores a canalhice corre solta em eleições cotidianamente não menos desprezíveis .

sábado, fevereiro 28, 2015

essa é pra esquecer

Se não investigamos mais a verdade da história e sim a história da verdade (Foucault), o que ficamos sabendo?
                                                        
em publicidade, como de resto na vida hoje, a mentira é tratada como verdade. e o inverso, uma espécie de quase vice-versa, ou seja: a verdade é empregada apenas como mentira para que tenha ares de verdade. como no caso dos comerciais da coca-cola que "reconhecem" a montanha de açucares na sua cola ou da dove: com suas mulheres de verdade, escolhidas a dedo para compor um painel das felizes infelizes com seus corpos e suas caras massacradas por um ideal sublimado por estas próprias companhias. 

e o grande exemplo da verdade mentirosa usada para solidificar uma mentira - aqui não cabe vice-versa, são as campanhas, machistas, sexistas, desrespeitosas,  protestam as mulheres (alguma bonita e gostosa?, eis aqui uma anti-desambiguação) mas que falam direto na cara a verdade da mentira construída a partir de mentiras que são a verdade estereotipada no dia a dia que definiram a sexualização dos comerciais de cerveja. você ai no sofá, prefere a mentira-verdade da garota verão ou a verdade-mentira das garotas dove ? na dúvida, conte as manchas do sofá.

muitos poucos, para além do * bill - "tive uma grande ideia: vamos dizer a verdade ", conseguiram ir além na profissão tendo a verdade pessoal e profissional como mapa da mina. e conseguiram exprimir isto num trabalho sem manchas.

verdade é que a grande maioria, para deleite geral, fizeram uso no atacado e no varejo da mentira para expressar aquilo que julgavam ser suas verdades.

mentir em publicidade - não seja tosco de pensar apenas na mentira como argumento de venda(isso é coisa para amadores) - e uma prática alçada ao gigantismo nos bastidores ou dizem quase todos no back stage. e já agora, não se esqueça que quem usa neologismos é sempre mais perigoso na sua mentira.

a verdade - ou a mentira ? - é que na história da humanidade a verdade nunca foi uma coisa muito saudável, para quem a conta e para quem a escuta. por que seria diferente na publicidade ? já a mentira, principalmente as bem contadas, são inesquecíveis. como o(s) deus(es) por exemplo.

se como dizem, em se tratando da verdade, " diga-a e saia correndo",  na publicidade/propaganda, não dá tempo. pois é ela que tem as pernas curtas.e num instante você é atropelado. não é à toa que o pensamento de direita(olavo de carvalho) elaborou a preciosidade : "a mentira tem o privilégio de poder se expressar com muito mais brevidade do que sua refutação". e onde a brevidade pode ser mais útil do que na publicidade?

e quando ela, a verdade, vem à tona você já boiou já faz tempo. mas há sempre uma mentira contada sobre sua versão, seja ela verdadeira ou não.

então, não se esqueça, ou melhor esqueça: "compre a verdade. mas não a venda".



digamos que é uma homenagem aos grandes jinglistas (sá&guarabira), que entre outros clientes, trabalharam para para o banco nacional do magalhães pinto da época. verdade? mentira? como diria o provérbio, "meia verdade é sempre uma mentira inteira".


* não sabe quem é o bill, nem conhece a frase? ah! foda-se!


quarta-feira, fevereiro 18, 2015

nóis vinhemo aqui pra beber ou pra bater punheta ?


                                         pri ferrari (à direita), e sua colega, se mobilizaram contra a campanha da skol

no carnaval, mídia promove violência contra as mulheres. campanhas publicitárias e enquetes jornalísticas reforçam o desrespeito e incentivam o estupro no período.

Em pleno carnaval, onde se registra um aumento nos casos de violência, a cerveja Skol resolveu lançar uma campanha publicitária que trata as mulheres – mais uma vez – sem opinião própria e à mercê dos homens. A campanha trazia frases como “Esqueci o não em casa”, “Topo antes de saber a pergunta”, entre outras, espalhadas em outdoors na cidade de São Paulo.

As frases chamaram a atenção da publicitária Pri Ferrari e da jornalista Mila Alves, que, com um olhar crítico e atento, observaram o incentivo à perda de controle, em um período onde já se registra um alto índice de estupros. Elas decidiram então fazer intervenções nos materiais, acrescentando outras palavras aos outdoors para reforçar o respeito às mulheres e o não à violência.

A reação e intervenção de grupos feministas conseguiu constranger a referida marca de cerveja, que se viu obrigada a retirar a campanha das ruas paulistas. Foi uma vitória das mulheres, ainda que o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) não tenha sequer se manifestado a respeito.

A máxima no imaginário popular e machista é que, quando uma mulher diz “não”, ela está querendo dizer “sim”. Isso é usado como justificativa para os crimes de violência, entre eles o de estupro, que acontecem com mais intensidade no carnaval.

Outra violência frequente no período são os beijos forçados nos blocos. Mesmo assim, a afiliada da Rede Globo na Bahia lançou uma enquete em um de seus telejornais perguntando se o beijo forçado deveria ser proibido ou não. Não é possível aceitar este tipo de posicionamento vindo de um veículo que forma opinião.

A enquete também chegou às redes sociais e repercutiu negativamente. A deputada federal Jandira Feghali (PC do B-RJ), por exemplo, afirmou que “este é o tipo clássico de jornalismo que só ajuda a agravar mais o machismo da sociedade e a visão da mulher como posse do homem".
Sobre a intervenção na campanha da Skol, Pri Ferrari postou a ação em seu perfil no Facebook, que teve mais de 20 mil curtidas e quase 8.000 compartilhamentos. A iniciativa chegou até a Ambev, responsável pela fabricação da cerveja. O diretor da empresa ligou para a publicitária informando que iria montar uma força tarefa para retirar todas as peças publicitárias de circulação.

Porém, os estereótipos construídos pelas propagandas de cervejas não têm só na Skol seu exemplo. Já é incontável a quantidade de ações de grupos feministas contra o machismo nas peças publicitárias. A marca Itaipava, desde o mês de janeiro, traz explicitamente a mulher como mercadoria em sua propaganda. As cenas são as clássicas do machismo: uma mulher que pouco fala, dona de um bar, vestida com roupas minúsculas, servindo cerveja aos homens e que tem o nome de “Verão”, em uma alusão à estação do ano.

No texto “A cerveja e o assassinato do feminino", a doutora em Sociologia da Universidade de Brasília (UnB), Berenice Bento, afirma que “nesses comerciais não há metáforas. A mulher não é "como se fosse a cerveja": é a cerveja. Está ali para ser consumida silenciosamente, passivamente, sem esboçar reação, pelo homem. Tão dispensável que pode, inclusive, ser substituída por uma boneca de plástico, para o júbilo de jovens rapazes que estão ansiosos pela aventura do verão".

Berenice Bento considera que, mesmo com a luta do movimento feminista, que pauta a violência contra as mulheres como uma das piores mazelas, a estrutura hierarquizada das relações entre os gêneros ainda é muito presente. Ela revela as múltiplas fontes que alimentam o ódio ao feminino.

As campanhas publicitárias das cervejas no Brasil retratam bem isso. E não se pode dizer que isso é natural ou uma “brincadeira”. É o retrato do machismo que mata mulheres e meninas. Retrato de uma sociedade que precisa ser transformada, e que atitudes como as de Pri Ferrari e Mila Alves, ou de iniciativas como as da Rede Mulher e Mídia, sempre atenta e combativa às violações à imagem da mulher nos meios de comunicação, precisam sem ampliadas e divulgadas.

(por mabel dias, intervozes)

terça-feira, fevereiro 10, 2015

também o drama dos publicitários: antes, durante e, principalmente, depois

....no labirinto do filme, os caminhos desembocam numa ordem: a urgência contraditória de ser e ser visto e, ao ser visto, ser amado e admirado.... 


 o que é muito improvável na publicidade (ser amado).


No caminho do cinema, deslizei o dedo pela ultima vez na timeline do celular e esbarrei em duas leituras tão contundentes quanto díspares sobre Birdman, filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu favorito ao Oscar deste ano. Uma das leituras exaltava as qualidades técnicas do filme - a fotografia entre o escuro dos bastidores e as cores do palco e da rua, a sequência sem cortes perceptíveis, as referencias de Hitchcock a Antonioni, passando por Fincher e Lynch, a atuação de Michael Keaton, o retrato do mundo da fama, dos críticos, do nosso medo da invisibilidade. Outra leitura apontava uma lista de clichês sobre o heroi em crise americano: o grande ator e mau pai de família, instável e inseguro, que brilha na tela e sofre no camarim.
Ao fim da sessão, levei algum tempo para listar minhas próprias impressões, sem exatamente discordar com o que havia lido até então. A primeira delas é que, de fato, Iñarritu conseguiu um feito e tanto ao amarrar tantas possibilidades de leitura quanto cabiam em um cenário, entre o claustrofóbico e o labiríntico, pelo qual todos os caminhos levam ao teatro. No filme, há um público do lado de dentro e outro do lado de fora, mas só nós, os espectadores do cinema, temos a prerrogativa da onisciência. Ela nos dá a possibilidade de buscar, por nós mesmos, quem são os homens por trás das máscaras apresentadas em sequência. É algo mais do que buscar o rosto real entre a peruca e as rugas (captadas em proximidade) de Riggan Thomson, personagem de Michael Keaton: ambos, em tese, são mais conhecidos por suas fantasias, a do Batman e a do Birdman, e levaram anos se estapeando em papeis menores até encontrarem um figurino que abarcasse o tamanho de suas pretensões.
Nessa interseção, Iñarritu mostra que os caminhos do sucesso e do prestigio são só aparentemente distintos ou anuláveis. Thomson quer se ver livre da máscara que lhe deu a fama. Quer provar que não é, ou não foi, apenas um rostinho bonito (e coberto) a serviço da indústria do entretenimento. Pena, no entanto, para se dissociar da velha imagem e encontrar a própria identidade. Seu personagem na franquia de super-heróis, afinal, era amado. E era amado porque levava o público a uma fantasia perfeita montada sobre maniqueísmos e efeitos especiais. Mas a arte não é entretenimento, insiste o personagem-ator. Arte é questionamento. É provocação. É precisão. É atuação na medida exata, portanto. Daí a obsessão em levar à Broadway uma peça adaptada a partir de um texto de Raymond Carver, dramaturgo que, anos antes, incentivou o protagonista a se transformar em ator – graças a um elogio escrito a mão em um guardanapo de papel. É o primeiro de três papeis literais, vulneráveis e simbólicos, do filme.
A operação hercúlea para levantar mundos e fundos pelo projeto artístico, portanto, é nada mais que um projeto pessoal. Nas linhas labirínticas do cenário, não são apenas as vaidades de atores e personagens que se cruzam e confundem os limites entre o cálculo humano e a atuação. Confundem-se também as fronteiras entre o que é entretenimento e o que é a grande arte. Em uma das cenas, Thompson cita os nomes de grandes atores contemporâneos que poderiam integrar o elenco de sua peça. Desiste quando se dá conta de que todos estavam comprometidos nas filmagens de franquias de super-heróis, entre eles Michael Fassbender e Robert Downey Jr. Essa fronteira fica ainda mais confusa quando Thomson esbarra nos caminhos em direção à legitimidade de seu trabalho: o controle do elenco e a intransigência da crítica.
No filme, todos parecem conectados com os novos signos dos circuitos de consagração, quase todos calculados em compartilhamentos, retuítes e número de visualizações. E daí?, pergunta-se Thomson antes de concluir que um cachorrinho fofo brincando com uma bola também é um fenômeno de cliques e compartilhamentos.
Noves fora a parafernália tecnológica das grandes franquias, o voo mais alto de um artista é quase uma concessão entre o humor, o ressentimento e a preguiça das vozes autorizadas: os críticos que escrevem à mão e mal se dão ao luxo de conferir o objeto analisado. Mas quem deu aos entendidos o cálculo de uma fronteira e outra? Quem garante que esta fronteira não é, em si, uma criação aleatória (e por isso arbitrária)? O que move e o que valida o espetáculo é só, e não apenas, a vaidade.
As perguntas sobre o preço dessa empreitada podem não ser novas, mas, em Birdman, parecem colocadas num contexto providencial. A cada investida, Thomson se transforma na alegoria de um imperativo contemporâneo: o olhar do outro define quem eu sou. Ainda que este olhar seja uma construção arbitrária. Enquanto tenta, em vão, exercer o controle sobre a própria peça, o ator-personagem recebe ordens sobre o que e como fazer, mas as previsões dos entendidos, dos colegas de palco à indolência da crítica, são desmentidas o tempo todo pelo imponderável. Numa das cenas, ele é humilhado por Mike Shiner, personagem interpretado por Edward Norton chamado a compor o elenco da peça para atrair o grande público. Shiner leva longos minutos para mostrar a Thomson que ele é um ator liquidado e que depende do prestígio dele, Shiner, para não transformar sua peça em um fracasso. No mesmo instante, uma família pede para tirar uma foto com o ídolo – e ignora solenemente o rosto que garantiria o sucesso do espetáculo.
Esse reconhecimento parece pouco para quem, perto dos 60 anos, ainda incorpora na vida real a confusão entre ser admirado e ser amado. Estes parecem caminhos excludentes, e a inexistência de um meio-termo entre eles leva o protagonista a um quase estado de demência. O drama dele é, assim, o drama de todos nós. Afinal, o que fazer para não ser esquecido? Do que mais é preciso abrir mão, além da própria identidade, em nome dessa consagração?
Em seus filmes anteriores, quando contava com a parceria do roteirista Guillermo Arriaga, Iñarritu mostrou como a ação humana, por mais banal que parecesse, possuía alcance tão inescapável quanto destruir. No mundo globalizado de Babel, por exemplo, o hobbie do pacato cidadão japonês é o pivô de uma crise diplomática entre os EUA e o Marrocos, entre o mundo ocidental e o tribal. O mesmo acontecia em Amores Brutos e 21 Gramas: a ação humana, mostrava o diretor, não era jamais um ato isolado, mas uma sequência encadeada e encadeadora de eventos. Nada era acaso, nada era sorte; tudo estava apenas conectado.
Em seu último filme, Biutiful, já sem a companhia de Arriaga, a fórmula de histórias paralelas que se cruzam é mantida, mas a mensagem é distinta. Quanto mais o pai à beira da morte interpretado por Javier Bardem tenta controlar um destino manifesto, mais o destino se mostra inevitável. O destino ainda é uma sucessão lógica de escolhas, mas o papel humano não é outro se não o de espectador. Temos, assim, uma espécie de ensaio sobre a nulidade.
Em Birdman, Thomson nada mais é do que o espectador da sua história - e da história dos papeis incumbidos a ele. A empreitada de tentar domá-la desaba à medida que ele se percebe incapaz de lidar com ele(s) mesmo(s), e não apenas com o sucesso ou a consagração. Pior: a vida que se interpreta e a vida que se vive podem não ser as mesmas, mas não estão desconectadas nem obedecem às demarcações de tempo e espaço do teatro. No filme, no palco ou na plateia, nunca se sabe exatamente onde estão os roteiros, os improvisos ou as dissimulações - nem mesmo onde começa e onde termina a excitação.
No labirinto de Birdman, todas as entradas e saídas se confundem, mas desembocam na mesma ordem: a urgência contraditória de ser e ser visto e, ao ser visto, ser amado e admirado. Cabe a Sam, a filha de Thomson vivida por Emma Stone, o papel (literal) revelador desse vazio. Ela passa boa parte do filme preenchendo um rolo de papel higiênico com pequenos traços de caneta. Descobrimos, em certo momento, que cada traço representa dez mil anos na história do Planeta. Olhada em perspectiva, a história da humanidade era resumida em um pequeno e inexpressivo pedaço de papel, no qual todas as grandes obras foram construídas e fadadas ao esquecimento. Sam parece ser a única personagem que não se importa com isso. Para ela, tanto faz: o sucesso e a consagração artísticas, no fim das contas, servem como passatempo de um público seleto capaz de pagar uma fortuna por um bom assento no teatro ou cinema e cuja maior preocupação, ao fim do espetáculo, é a sobremesa depois do programa. Enquanto fala, o interlocutor, Thomson, desaparece. É então que descobrimos quem é a sua plateia: nós. O alerta tem o mesmo destino de todas as mensagens escritas em papel apresentadas na trama: o descarte. Quem se importa?
Entre tantos truques e referências, Birdman surge como favorito ao Oscar de melhor filme. Parece consagrado antes da premiação, o que não deixa de ser irônico. Nas últimas semanas, não poucos críticos especializados o apontaram como o grande filme da carreira de Iñarritu, de Keaton e de todo mundo que colocou o empreendimento de pé. Parece contraditório, mas, caso leve o prêmio, seria curioso ver diretor e elenco levarem o exercício de metalinguagem às últimas consequências: “Obrigado pela lembrança, mas podem desistir. Estamos todos fadados ao aniquilamento”.
(birdman o drama de todos nós, do matheus pichonelli, na carta capital)

sábado, fevereiro 07, 2015

então você é redator ? 500.000 mil zeros na redação* do enem só podem estar errados


basta ler o copy dos anúncios em qualquer meio pra ver que a correção deixou passar um batalhão de candidatos bem sucedidos para a redação publicitária que é feita hoje em dia - na web então, uuui! (cai o pano rápido enquanto aquele redator/a manhoso termina o boquete com que garante o seu texto e seu emprego). 

* o tema era a publicidade infantil em questão no brasil. 

agora você já sabe porque ninguém lê texto (grande) no brasil. se ninguém sabe escrever "uai" como é que vai ler ?