o blog que dá crise renal em quem não tem crise de consciência. comunicação, marketing, publicidade, jornalismo, política. crítica de cultura e idéias. assuntos quentes tratados sem assopro. bem vindo, mas cuidado para não se queimar. em último caso, bom humor é sempre melhor do que pomada de cacau.
quinta-feira, maio 01, 2014
chega de bananada com creme de leite!
| à esquerda, foto do neymar em apoio a daniel alves. à direita foto de ota benga, zoológico do bronx, nova york, 1906. |
A foto da esquerda todo mundo viu. É o craque Neymar com seu filho no colo e duas bananas, em apoio a Daniel Alves e em repulsa ao racismo no mundo do futebol.
Já a foto à direita, é do pigmeu Ota Benga, que ficou em exibição junto a macacos no zoológico do Bronx, Nova York, em 1906. Ota foi levado do Congo para Nova York e sua exibição em um zoológico americano serviu como um exemplo do que os cientistas da época proclamaram ser uma raça evolucionária inferior ao ser humano. A história de Ota serviu para inflamar crenças sobre a supremacia racial ariana defendida por Hitler. Sua história é contada no documentário “The Human Zoo”.
A comparação entre negros e macacos é racista em sua essência. No entanto muitos não compreendem a gravidade da utilização da figura do macaco como uma ofensa, um insulto aos negros.
Encontrei essa forte história num artigo sensacional que li dia desses, e que também trazia reflexões de James Bradley, professor de História da Medicina na Universidade de Melbourne, na Austrália. Ele escreveu um texto com o título “O macaco como insulto: uma curta história de uma ideia racista”. Termina o artigo dizendo que “O sistema educacional não faz o suficiente para nos educar sobre a ciência ou a história do ser humano, porque se o fizesse, nós viveríamos o desaparecimento do uso do macaco como insulto.”
Não, querido Neymar. Não somos todos macacos. Ao menos não para efeito de fazer uso dessa expressão ou ideia como ferramenta de combate ao racismo.
Mas é bom separar: Uma coisa é a reação de Daniel Alves ao comer a banana jogada ao campo, num evidente e corriqueiro ato racista por parte da torcida; outra coisa é a campanha de apoio a Daniel e de denúncia ao racismo, promovida por Neymar.
No Brasil, a maioria dos jogadores de futebol advém de camadas mais pobres. Embora isso esteja mudando – porque o futebol mudou, ainda é assim. Dentre esses, a maioria dos que atingem grande sucesso são negros. Por buscarem o sonho de vencer na carreira desde cedo, pouco estudam. Os “fora de série” são descobertos cada vez mais cedo e depois de alçados à condição de estrelas vivem um mundo à parte, numa bolha. Poucos foram ou são aqueles que conseguem combinar genialidade esportiva e alguma coisa na cabeça. E quando o assunto é racismo, a tendência é piorar.
E Daniel comeu a banana! Ironia? Forma de protesto? Inteligência? Ora, ele mesmo respondeu na entrevista seguida ao jogo:
“Tem que ser assim! Não vamos mudar. Há 11 anos convivo com a mesma coisa na Espanha. Temos que rir desses retardados.”
É uma postura. Não há o que interpretar. Ele elaborou uma reação objetiva ao racismo: Vamos ignorar e rir!
Há um provérbio africano que diz: “Cada um vê o sol do meio dia a partir da janela de sua casa”. Do lugar de onde Daniel fala, do estrelato esportivo, dos ganhos milionários, da vida feita na Europa, da titularidade na seleção brasileira de futebol, para ele, isso é o melhor – e mais confortável, a se fazer: ignorar e rir. Vamos fazer piada! Vamos olhar para esses idiotas racistas e dizer: sou rico, seu babaca! Sou famoso! Tenho 5 Ferraris, idiota! Pode jogar bananas à vontade!
O racismo os incomoda. E os atinge. Mas de que maneira? Afinal, são ricos! E há quem diga que “enriqueceu, tá resolvido” ou que “problema é de classe”! O elemento econômico suaviza o efeito do racismo, mas não o anula. Nesse sentido, os racistas e as bananas prestam um serviço: Lembram a esses meninos que eles são negros e que o dinheiro e a fama não os tornam brancos!
Daniel Alves, Neymar, Dante, Balotelli e outros tantos jogadores de alto nível e salários pouca chance terão de ser confundidos com um assaltante e de ficar presos alguns dias como no caso do ator Vinícius; pouco provavelmente serão desaparecidos, depois de torturados e mortos, como foi Amarildo; nada indica que possam ter seus corpos arrastados por um carro da polícia como foi Cláudia ou ainda, não terão que correr da polícia e acabar sem vida com seus corpos jogados em uma creche qualquer. Apesar das bananas, dificilmente serão tratados como animais, ao buscarem vida digna como refugiados em algum país cordial, de franca democracia racial, assim como as centenas de Haitianos o fazem no Acre e em São Paulo.
O racismo não os atinge dessa maneira. Mas os atinge. E sua reação é proporcional. Cabe a nós dizer que sua reação não nos serve! Não será possível para nós, negras e negros brasileiros e de todo o mundo, que não tivemos o talento (ou sorte?) para o estrelato, comer a banana de dinamite, ou chupar as balas dos fuzis, ou descascar a bainha das facas. Cabe a nós parafrasear Daniel, na invertida: “Não tem que ser assim! Nós precisamos mudar! Convivemos há 500 anos com a mesma coisa no Brasil. Temos que acabar com esses racistas retardados, especialmente os de farda e gravata”.
Quanto a Neymar, ele é bom de bola. E como quase todo gênio da bola, superacumula inteligência na ponta dos pés. Pousa com seu filho louro, sem saber que por ser louro, mesmo que se pendure num cacho de bananas, jamais será chamado de macaco. A ofensa, nesse caso, não fará sentido. Mas pensemos: sua maneira de rechaçar o racismo foi uma jogada de marketing ou apenas boa vontade? Seja o que for, não nos serve.
Sou negro, nascido em um país onde a violência e a pobreza são pressupostos para a vida da maior parte da população, que é negra. Querido Neymar – mas não: Luciano Hulk, Angélica, Reinaldo Azevedo, Aécio Neves, Dilma Rousseff, artistas e a imprensa que, de maneira geral, exaltou o “devorar da banana” e agora compartilham fotos empunhando a saborosa fruta, neste país, assim como em todo o mundo, a comparação de uma pessoa negra a um macaco é algo culturalmente ofensivo.
Eu como negro, não admito. Banana não é arma e tampouco serve como símbolo de luta contra o racismo. Ao contrário, o reafirma na medida em que relaciona o alvo a um macaco e principalmente na medida em que simplifica, desqualifica e pior, humoriza o debate sobre racismo no Brasil e no mundo.
O racismo é algo muito sério. Vivemos no Brasil uma escalada assombrosa da violência racista. Esse tipo de postura e reação despolitizadas e alienantes de esportistas, artistas, formadores de opinião e governantes tem um objetivo certo: escamotear seu real significado do racismo que gera desde bananas em campo de futebol até o genocídio negro que continua em todo o mundo.
Eu adoro banana. Aqui em casa nunca falta. E acho os macacos bichos incríveis, inteligentes e fortes. Adoro o filme Planeta dos Macacos e sempre que assisto, especialmente o primeiro, imagino o quanto os seres humanos merecem castigo parecido. Viemos deles e a história da evolução da espécie é linda. Mas se é para associar a origens, por que não dizer que #SomosTodosNegros ? Porque não dizer #SomosTodosDeÁfrica ? Porque não lembrar que é de África que viemos, todos e de todas as cores? E que por isso o racismo, em todas as suas formas, é uma estupidez incompatível com a própria evolução humana? E, se somos, por que nos tratamos assim?
Mas não. E seguem vocês, “olhando pra cá, curiosos, é lógico. Não, não é não, não é o zoológico”.
Portanto, nada de bananas, nada de macacos, por favor!
(contra o racismo nada de bananas, nada de macacos, por favor! do negrobelchior, douglas belchior. em seu blog na carta capital)
terça-feira, abril 29, 2014
estupidez em penca é tão mal ou pior que o racismo: até porque ambos são interdependentes
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| ao dar uma banana "alimento o racismo, me entubo ou mantenho a minha neles" ? |
idem o gesto amplificado do daniel. não o cantor sertanejo. mas o outro. o sertanejo que ganhou o mundo pelo força dos pés, e que agora enfia os pés pela mãos, tamanha é a força do racismo. principalmente quando age sobre aqueles que não tem a compreensão na sua totalidade da chaga e de quão nocivo e entranhado "naturalmente" está o conceito de "raça desqualificada". ainda mais num pais como o brasil onde a escravidão continua sobre todos aqueles que não tem os instrumentos(ideológicos e/ou financeiros) para se livrarem do chicote e das correntes de algo que escapole toda vez que nos deparamos com negros a "usurpar" o direito a liberdade de ser um humano livre de qualquer algoz. seja qual for a situação. e isto acontece de forma ainda mais agressiva do que se o negro fosse marginal, porque também o racismo estabelece que"este é o seu papel".
num ensaio sobre chaplin adorno, e horkheimer, - o grande ditador - afirmava que era completamento esvaziado de conteúdo político a cena em que chaplin martelava soldados nazistas com panelas, provocando gargalhadas que esvaiam-se como espuma de sabão." para adorno( e horkheimer), de alguma maneira chaplin havia "humanizado" hitler ao fazer a paródia do ditador e brincar com os símbolos do nazismo no filme. esses símbolos deveriam ser tratados com um interdito, jamais como comédia. uma cicatriz de lamento, pois o holocausto será sempre uma ferida eterna na civilização." assim deveríamos tratar a escravidão, e sua consequência maior: o racismo.
por isso afirmo que dá no mesmo o gesto do daniel alves. comer a banana é mais uma casca de banana do racismo. vê-se também o negro curvando-se para apanhar as sobras - o negro, o pardo, o moreno, o escurinho, o chocolate, eufemismos também ditados pelo amplexo do racismo que degrada a cor em suas gradativizações, com suas cotações transitando por uma escala de cores cuja matiz é a dominação pela força da escravatura do papel incrustado aos negros. papel este que escamoteia até a figura do jesus de pele escura, uma evidência climática-geográfica pela geopolítica de um encaracolado cabeludo de olhos azuis e tez esbranquiçada - jesus não era um macaco também ?, então dá para sentir, literalmente, que nos fodemos com casca, jesus e tudo quando se trata de justificar a "superioridade branca".
além do mais, para amplificar o equivoco - e a estupidez - a campanha da loducca - na maioria das vezes publicitário tem mania de querer dar jeito no mundo (dito de um certo "cowboy", bjarke rink, enquanto ainda diretor de criação da propeg e não mais afetado aos centauros) mas que sempre, acrescento eu, atrelado a intenções sub-reptícias faz com que acabem(ou comecem) em merda. oportunismo que descamba para a cara de pau(ou seria nariz de pau) da venda de camisetas no site do hulk, que se colore seja do que for, sem dó nem piedade, desde que isso lhe renda alguns carapauszinhos.
e como se mais não bastasse, bastaria ver os comentários no facebook da ana maria braga - macacos sentiriam-se ofendidos em ser comparados aos leitores desta mulher(provavelmente sentiriam-se ofendidos se comparados a mim também) para ver que não somos todos macacos porque macacos não fazem macacadas nem macaquices: isso é literalmente coisa do humano espécie vorazmente predadora de tudo e de todos, e que entre os artefatos de caça, dominação e mortandade usa também o racismo em todas as suas formas: veladas ou bananosas.
somos todos macacos não passa de mais destes equívocos ambivalentes. ao fim e ao cabo soam brandos e socialmente destinados a reinserção(se é para reinserir é porque foi alijado ou posto para fora. adivinhe por quem?) na base do aplaquemos a consciência com a grandeza da nossa permissão - agora igualdade - tal e qual o dito " negro de alma branca" era para nossos avós. e tome mais uma "compressa para a descompressão", só que agora na versão rede social.
definitivamente não somos todos macacos porque ainda precisamos "involuir" bastante para chegar perto desta evolução.
sábado, abril 26, 2014
pra você que não se tocou no último feriadão(fudido na ida ou na volta) já que vem mais um
Desisti do carro há quase 3 anos. A decisão veio acompanhada do desligamento do serviço de telefonia celular, da TV por assinatura e de uma reforma alimentar que eliminou produtos industrializados, carne, café e bebida alcoólica dos meus hábitos. Um processo de desintoxicação, que visava, acima de tudo, expurgar os males da civilização. Queria me proteger da sociedade de consumo – e do espetáculo.
Sob forte inspiração de Gandhi e influência direta de Lia Diskin, da Palas Athena, posso resumir minha busca numa palavra: práxis. O mal estar da pós-modernidade havia se materializado em mim de forma irreversível e concreta por meio da incoerência absurda entre o que penso e o que faço.
Weber já apontava para essa interdependência entre o nosso comportamento como gerador daquilo que nos aprisiona. “Somos assombrados pelos monstros que criamos”, reforça Edgar Morin referindo-se ao imaginário social construído pelas religiões e, sobretudo, pela mídia. Sair dessa lógica, no entanto, é bem mais difícil e complexo do que simplesmente abrir mão dos fetiches, dos instrumentos de representação – e de coerção – já arraigados nos modos de vida dessa sociedade.
Há duas semanas fui convidado a abrir um seminário sobre educação para o trânsito e mobilidade urbana, na Unicamp. Ali, tentei fazer uma conexão direta entre a cultura do automóvel e a indústria cultural. Parti da minha experiência pessoal, das mudanças provocadas no meu dia-a-dia, mas sobretudo pelo imbricamento entre o tecnologismo capitalista, aqui representado pelo automóvel, como seu símbolo supremo, e a cultura de consumo, exarcebada pela “sociedade do espetáculo”.
Parti de um diálogo entre a ideia de cultura, sua origem etimológica, explorada em meu novo livro, O Poder da Cultura, e a contraposição entre cultura matrística e cultura patriarcal proposta por Humerto Maturana, em Amar e Brincar, editado, não por acaso, pela Palas Athena. E a cultura do automóvel como uma espécie de síntese imagética dessa cultura patriarcal, baseada na competição, no status, na busca do poder, da distinção, da privatização do espaço público, e o consequente modelo de desenvolvimento decorrente dessa cultura.
Mesmo sendo o meio menos eficaz de locomoção no espaço urbano, o automóvel representa um dos maiores itens no orçamento familiar do brasileiro médio e um dos maiores custos para a sociedade, pois exige grandes investimentos de infraestrutura. Isso sem contar a conta ambiental e no sistema de saúde, já que o acidente de automóvel é uma das maiores causas de morte no mundo.
Mesmo assim constitui a base do nosso projeto desenvolvimentista, símbolo do governo JK, de Itamar e até mesmo de Lula, que utilizou o incentivo ao consumo de automóveis como um dos principais agentes provocadores da resistência do país à crise financeira. Ao mesmo tempo que estimulava o endividamento da família brasileira, aumentava os impostos da atividade cultural, que segundo pesquisas do próprio governo, gera mais empregos que a indústria automobilística.
Mas há também uma interdependência entre indústria cultura e do automóvel. Adorno nos deixou a seguinte provocação em seu clássico texto sobre “A Indústria Cultural” (1947):
A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada em si mesma. Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo e chega o momento em que seu elemento nivelador mostra sua força na própria injustiça a qual servia. Por enquanto, a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e a do sistema social.
A competição, o individualismo, a busca de status, a opção pelos grandes amontoados urbanos e a consequente exclusão das vias de acesso àqueles que não possuem automóveis, são urgências do homem civilizado contemporâneo. A busca incessante por informação, o acúmulo do know-how, a via expressa. O carro potente, veloz, automático, seguro, confortável, tornou-se uma espécie armadura que protege o “homem de bem” das inseguranças do século XXI.
A via asfaltada, a velocidade, a pressa, são necessidades contemporâneas fabricadas por nosso modelo civilizacional. O automóvel torna-se o fetiche supremo, uma espécie de falos coletivo que move, como nenhum outro objeto, em direção ao abismo dos sentidos.
Vivemos num vácuo de significados. O ato do consumo nos conforta, nos dá a segurança e a autoconfiança para continuarmos em frente, fazendo aquilo tudo que já não acreditamos, mas já não temos força ou uma nova utopia que nos redirecione.
O único antídoto que eu conheço para esse vazio é preenchê-lo com arte e cultura. Da boa e também da ruim. Daquilo que eu gosto e do que eu duvido. Um pouco também daquilo que só os loucos, os sonhadores e atrevidos têm condição de nos mostrar.
Enquanto for presa fácil dos meios de comunicação, com sua publicidade e o seu marketing, e da cultura oficial, com demagogia e populismo crescentes, o cidadão, de bem ou do mal, só verá esse vazio aumentar. E gerar os desequilíbrios e distúrbios imaginários que vivemos atualmente.
Seis meses depois religuei o celular; hoje utilizo o automóvel da minha companheira em situações específicas, uma ou duas vezes por semana; bebo moderadamente e estou em busca de uma clínica de reabilitação para viciados em cultura e café. Se alguém aí souber, por favor me avisa!
* Este texto não faz parte do livro O Poder da Cultura.
**texto do leonardo brant, para http://www.culturaemercado.com.br/
domingo, abril 20, 2014
acertos e equívocos. quais, onde e porquê? responda você que se diz publicitário antenado e inteligente
"Sarah Zelinski, Kayla Hatzel e Dylan Lambi-Raine, alunas do curso de estudos de gênero da Universidade de Saskatchewan, no Canadá, tiveram uma ideia criativa para expor a forma como a publicidade explora massivamente os estereótipos de gênero. As estudantes canadenses produziram um vídeo no qual invertem o papel de homens e mulheres em anúncios reais.
Quando acaba de apresentar os anúncios originais, o vídeo pergunta se o espectador achou os mesmos “ridículos”. Após o questionamento, são apresentados os anúncios com os “papéis” invertidos. O resultado é a sensação de que os estereótipos de gênero estão de tal forma culturalmente enraizados que o ridículo de explorá-los só se torna evidente com a inversão dos “papéis”.
O vídeo, intitulado ‘Representations of gender in advertising’ (‘Representações de gênero na propaganda’), ainda apresenta estatísticas quanto aos números da violência de gênero no Canadá e os relaciona com a representação da mulher nos anúncios publicitários.
“Algumas campanhas retratam a mulher como altamente sexual e submissa. E o homem, como dominante e agressivo”, diz Sarah Zelinsky. na revista forum http://www.revistaforum.com.br/ com direito a alguns comentários, dois abaixo servidos como entrada. ah! quem é o mário? sei lá. não vai querer que eu responda que é aquele que te pegou atrás do armário(olha o conteúdo da proposta). no mais, minha nossa, não sei o que é pior: a pretensa densidade dos comentários ou a falta dela ou o tamanho do equívoco - não é de boa intenção que as faculdades andam cheias? na proposta dos estudantes. aliás, é nisso que dá ser estudante de publicidade. argh!
julho 26, 23:49
"O vídeo devia ter parado na crítica ás propagandas usando mulheres. Quando passa para a inversão de esteriótipos, torna-se absurdamente falacioso.
Isso porque mulheres consideradas fisicamente inadequadas para estas propagandas também nos pareceriam estranhas, tanto quanto os homens nos pareceram. Mas seria possível tornar as fotos notoriamente mais atraentes se usassem homens que correspondessem à estética esperada, e atuassem de forma menos caricata.
A inversão de papéis, se tivesse sido realizada com honestidade, não pareceria tão ridícula e absurda. Apenas causaria surpresa nas pessoas, caso fossem divulgadas como marketing real.
É com esse tipo de coisa que o feminismo se estrepa. Não precisamos criar verdades, nem argumentos que subestimam a lógica das pessoas" paula moiana da costa
"acho que trazer à consciência a opressão contras as mulheres e o modo de vida descartável que as propagandas usam para vender seus produtos, a partir das ilustrações dessas mesmas campanhas, é crucial para uma tomada de novos posicionamentos. mas não acho a inversão de papéis, uma boa saída. é emergencial despertarmos para um outro nível de consciência, pela convivência igualitária e não reproduzir os mesmos hábitos machistas, pelas mulheres. é como tornar as coisas perpetuadas pelas mesmas opressões, só que de lado diferentes. o ser humano precisa se conscientizar que a igualdade é elemento básico para uma convivência substancial. penso que a guerra dos sexos, como essa, da troca de papéis não avança em nada numa evolução dos gêneros. ninguém precisa se definir em relação ao outro, precisamos de autonomia, pela própria autonomia. precisamos lutar pelo pensamento de nos reconhecermos, de fato, humanos e semelhantes em sua categoria" mario.
quarta-feira, abril 09, 2014
e tome o conar provando do seu próprio veneno.no mínimo(a feijoada e não só) vai dar dor de barriga
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| de cara usar palhaço e nariz de palhaço para afirmar cidadania já é um tiro no pé |
o conar, você já sabe: é aquela entidade destinada a produzir bobajadas
em nome de um ética e moral gaiatas - e por isso mesmo extremamente perigosas, tal como a bancada evangélica, o bolsonaro, o clube militar, e a tfp - que em nome do politicamente correto procura pelo em ovo e chifre em cabeça de cavalo, enquanto comerciais que propagam nascimento de pelos em cabeça de careca, remédio para varizes e hemorroidas e celulites - manja ai o famigerado goycochea?! (só o nome tem bafo de cadeia), para não falar do aumenta paus(piroca, caralho, pênis, o que você quiser) que não tem o menor problema em ludibriar o cidadão, encher o nosso saco, e foda-se o tal respeito ao consumidor e as diretrizes e guide lines pomposos do conar passam em alto, limpo e bom som(a qualidade é uma merda, mas isto não é privilégio deles).
pois bem, pegaram no pé do conar por conta de sua campanha, criada pela almpap/bbdo(ninguém escapa de fazer merda, não fosse este o destino do brasil e quem mora nele). os argumentos assentes particularizam o fato de que a campanha ridiculariza as demandas dos cidadãos e dissemina informações incorretas sobre a defesa do consumidor.
para encurtar a história e economizar os meus adjetivos, já que não tenho o menor saco para o conar, siga o link abaixo. divirta-se (se puder) ou irrite-se ainda mais com o conar apanhado, desrespeitando, segundo as diversas entidades que solicitaram a retirada da campanha do ar(as campanhas estão no link) já que (segundo as mesmas entidades), cabe ao sistema nacional de defesa do consumidor impor sanções mais efetivas quando há o desrespeito ao consumidor, com a aplicação de multas ou a determinação de uma contrapropaganda, por exemplo. os vídeos omitem ainda que a publicidade é regulada por lei, o código de defesa do consumidor (CDC), junto com a constituição federal.
conforme o artigo 37, § 2° do CDC, “é abusiva, dentre outras, a publicidade discriminatória de qualquer natureza, a que incite à violência, explore o medo ou a superstição, se aproveite da deficiência de julgamento e experiência da criança, desrespeita valores ambientais, ou que seja capaz de induzir o consumidor a se comportar de forma prejudicial ou perigosa à sua saúde ou segurança”
e agora conar? vai chupar ou chapar esta? alguém duvida que vai dar de ombros e alegar o de sempre? ou seja o que dizem todos aqueles que também dizem defender o bem em nosso nome mesmo que não tenhamos pedido - claro a turma que defende o estupro, a sheherazade, a volta de 64, sempre pede, pois não sabem viver sem que lhes digam o errado como certo e o certo como errado, vide suas argumentações.
e o sprit de corps dos publicitários, vai peidar nesta feijoada também?
quinta-feira, abril 03, 2014
dor de cotovelo ou indigestão pra lá de premiada?
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| ganhei mais um ?* |
quem de nós não sabe o que é bom e não sabe quando está fazendo merda ? que atire o primeiro prêmio?
*veja ilustre leitor(passageiro) que se pergunta porque raios esta ave está, embora não sentada, ilustrando este post?ora! tal ave galiforme, da família dos cracídeos, gênero penélope, é o jacu,símbolo mór do único prêmio - prêmio não, troféu - que faz por merecer a quem o ganha dada a particularidade do pássaro que é capaz de competir com publicitários, graças ao trabalho de conseguir cagar o seu peso - mas não em oiro, como imaginam os jacus publicitários.
segunda-feira, março 31, 2014
kombinationsfahrzeug: ou surpreendentemente bem bom(ou pon) em todos os sentidos
na contra-mão do modorrento panorama publicitário criativo brasileiro atual, com seus achaques e afetações, dentre eles os indefectíveis comerciais de varejo, telefonia, cerveja e automóveis - dúvida é se mais achaques ou afetações - eis que surge, soberana, uma cinquentona que resgata o que de melhor a propaganda brasileira - muito mais teve do que tem - sem por isso deixar de ser uma formulação hodierna, ainda que em sua base estejam princípios que remontam, na publicidade aos anos 60, e no produto,aos anos 40 (chupem esta antenados).
o filme de despedida da kombi é o corolário - corolário não é colírio apedeuta publicitário, mas não deixa de sê-lo - de uma ideia bem desenvolvida. vá lá, do planejamento à criação e com execução afinada e sem over.
oportunidades como esta são raras. e um dos maiores méritos da almap, e da equipe envolvida no projeto(cliente inclusive) foi de não derrapar em oportunismo, mal que assola de roldão a " mente publicitária focada na geração de negócios para salvar o negócio", que chusma por ai.responsável pela derrocada da imagem do publicitário como criador de soluções diferenciadas para resolver problemas de comunicação mercadológica - hoje eles não criam diferenciação nem para resolver os problemas deles, deles publicitários, basta ver remuneração e salários, só para saída ou seria entrada? - .
o filme poderia ser um longa, tamanha a capacidade histórica da kombi de marcar memórias e criar/participar de histórias por onde esteve/andou. vê-lo, é emocionante, enquanto comum mortal, imagino mais ainda para proprietários de kombi(mesmo os que as massacram, como kombeiros) e para publicitários demodé como eu que, tiro a minha lasquinha, como a kombi, tenho a similitude de ver pelo retrovisor muito arroubo que ficou pelo caminho).e esta emoção não uma emoção histérica ou falseada mas sim comovente pelas entranhas. principalmente pelo tour de force na locução de uma velha senhora, como somente as velhas senhoras são capazes de nos tocar, graças ao poder de nos mostrar o que somos ou o que fomos, e o que podemos ser, ou poderíamos ter sido - não sei se só eu percebo a fina ironia(ou se foi intenção dos criadores) no período do se estar surpreendentemente bem tanto ao fim quanto ao começo, linha que se perde facilmente na vida, tanto na pessoal, como na profissional e que na publicidade então, maior parte nem sequer linha torta que seja.
escrever mais sobre este trabalho é divagar sobre o talento alheio quando ele fala por si próprio e inscreve-se num patamar de importância com o fato que documenta - sim senhor, a propaganda de qualidade quando não inventa nem floreia, nem masturba, também documenta seu tempo tornando-se por isto mesmo documento histórico.
mas o principal a realçar, dentre tudo que realça, é o texto. é uma redação publicitária que arrepia - quando estava na ativa o que não arrepiava,não passava(grande, nem por isso menos insuportável, marco antônio) enquanto hoje confunde-se boca com a tampa do vaso e temos o que lemos. o copy da kombi é um texto onde tudo cumpre a sua função: nos emociona, nos faz rir delicadamente(nele a gracinha realmente tem graça/nos faz sorrir sutilmente e não gargalhar as cuspidas), nos faz refletir, nos convence, nos apaixona, e nos faz amar, o que tivemos e o que não tivemos, mas acima de tudo: o que não poderemos mais ter, muito embora as kombis, mais valorizadas do que nunca, ainda estarão soberanas quando eu e você caro leitor não estivermos mais aqui. este texto, despretenciosiamente simples, mas grandioso, nos faz sentir orgulho do produto, e da profissão, algo que deveria ser um guide line mandatory a qualquer peça. há que se dizer que o poder do texto é incomensuravelmente maior do que o da imagem - eu acredito nisto e ponto, a ponto de sacrificar empregos e oportunidades - e a maior prova disto é que este comercial só é o que é pelo texto, e pela narração sobre humana da vergueiro, cuja consubstanciação o faz não só antológico, como mitológico.
tempos virão em que gerações posteriores ao suscitar a já há muito tempo saudosa kombi - com todas as suas limitações técnicas e perigos embarcados(talvez por isso mesmo seja a kombi que é ou foi, e até hoje não tenha encontrado, em que pese tanto desenvolvimento industrial, substituta a altura, nem sequer falando do seu aplomb, item que será difícil igualar) lembra-se-ão, reviverão, conjuntamente o fato, e este comercial que de novo por seu paralelismo conceitual nos assoma o "monstro" que foi bernabach.
e talvez ai seja o segredo de quem ultrapassou o brief. para resultados grandes deve-se "pensar pequeno" - o que é diferente de pensar com a pequenez da pretensão, do ego de querer fazer-se a si maior do que o objeto da ação, da enorme confusão entre efeitos técnicos e qualidade da ideia, mal que assola os arrivistas de plantão.
e para completar a felicidade desta criação, o registro de que este é um dos raros casos,e bota raro nisso, em que o "pitaco" do cliente, um revendedor, no caso o ben pon, foi do caralho, mas do grande caralhinho mesmo!
mas o cara era holandês, não se animem;)
e dando a césar o que é de césar, a ficha técnica que se apertar também dá na kombi.
Anunciante: Volkswagen
Título: Campanha Kombi Last Edition
Produto: Kombi
Diretor Geral de Criação: Luiz Sanches
Diretores de Criação: André Kassu, Marcos Medeiros
Direção de Criação Digital: Luciana Haguiara, Sandro Rosa
Diretor de Arte: Benjamin Yung Junior, Marcelo Tolentino
Redatores: Marcelo Nogueira, Marcelo Pignatari
Fotógrafo: Fabio Bataglia
Art Buyer: Teresa Setti, Ana Cecília da Costa
Produtor Gráfico: José Roberto Bezerra
Arquitetura de Informação: Vanessa Marques, Luiz Felipe Fernandes
Diretor de Operações: Victor Groba
Gerente de Projetos: Denise Aya Kotsubo
Diretor de Produção Digital: Fernando Boniotti
Producer: Danubia Fujita
Produtora: Inkuba
Atendimento: Gustavo Burnier, Filipe Bartholomeu, José Fernando Lopes, Ana Beatriz Moreira Porto, Aline Macedo, Fernanda Portugal
Planejamento: Cintia Gonçalves, Sergio Katz, Marcus Freitas, Denis Carvalho, Tatiana Weiss, Rodrigo Friggi
Mídia: Brian Crotty, Kauê Lara Cury, Fabio Urbanas, Daniele Valle, Katia Piccardi, Stefano Justo
Aprovação: Marcelo Olival, Carlos Leite, Ana Cristina Mota e Camila Canais
sim, o óbvio, o link para o filme, que é sempre bom rever. quanto a mim dá uma saudade danada. da kombi e do que é ser publicitário(isto tinha que estar na tv aberta para matar as bactérias e vírus que se instalaram por lá.
https://www.youtube.com/watch?v=I_B4-UjQtD8
quinta-feira, março 27, 2014
en passant ou a ética e(m) seu dúbio entendimento
Há algum tempo questiono a forma como se desenvolve um posicionamento de Marca. Quando se olha só para fora e cria-se um quadrante de posicionamento, nem sempre são levados em consideração a competência essencial e os diferenciais da marca em questão. Existe uma posição a ser ocupada no mercado, mas será que a sua marca dá conta de estar ali?
Quando se olha só para dentro – e isto acontece mais do que a gente imagina – chega-se a uma definiçao que desconsidera o ambiente externo e todos os stakeholders da marca. Nao adianta construir algo de dentro pra dentro, que quase ninguém percebe o valor. Por isto, o olhar precisa ser sempre amplo, para o que a marca faz de melhor, o que faz o olho da sua equipe brilhar, o que a diferencia e como isto se coloca à serviço da sociedade.
Hoje, com um mundo altamente conectado e de altas expectativas sobre as marcas, este posicionamento, que parece estático, deve se transformar numa ética. Um código de princípios legítimo, inspirador, que se transforme em prática. Encontrei uma definição de ética de um psicanalista, que achei muito coerente – “ética são as escolhas que conseguimos bancar” - E com esta definição, fiquei muito feliz em ver duas empresas brasileiras no ranking aqui – vc viu?*
Comentários
marcelo antelo
Um ranking que aliás preza principalmente pela ironia aplicada pelo instituto de pesquisa porque incluir o BB, como empresa ética, nessas alturas do campeonato é querer fazer piada com os gringos ou tirar onda com os brasileiros! Esse Ethisphere eu não contrato nem prá pesquisa de síndico aqui do prédio!
Responder
celso muniz
tenho simpatia pelos posts da tania. mas quando, em sua felicidade, ela
inclui o banco do brasil, ai fodeu. sugiro a tania, sair do mundo web e ir para o mundo do “banco que mata velhinhas”. ou seja: compareça a qualquer agência do banco do brasil – a escolha é sua – em fim começo de mês (e não só) e veja a ética equiparar-se aos desmandos só cometidos em campos de concentração. um dos problemas da propaganda brasileira – a “superestrutura” do marketing – é ignorar a realidade, a tal ponto, que a depura em seus comerciais assépticos e ditirâmbicos, já em si um atentado à ética, como se diuturnamente o trucidamento do cidadão (cliente) - seja na agência, seja no caixa eletrônico, seja no famigerado atendimento por telefone (nem estou falando dos juros, que me fazem querer o pior dos agiotas como cunhado) não existisse; ou que deixariam de existir a base do lexotan de bordões e slogans que exaltam a falácia de tal ética. a felicidade da tania, assim sendo, é uma felicidade de pirro.
(não existe posicionamento, existe ética – reflexão da tania savaget,
em direto do blue bus)
*in tempo: banco do brasil e natura, foram as duas marcas elencadas pela (sic!) ética
Quando se olha só para dentro – e isto acontece mais do que a gente imagina – chega-se a uma definiçao que desconsidera o ambiente externo e todos os stakeholders da marca. Nao adianta construir algo de dentro pra dentro, que quase ninguém percebe o valor. Por isto, o olhar precisa ser sempre amplo, para o que a marca faz de melhor, o que faz o olho da sua equipe brilhar, o que a diferencia e como isto se coloca à serviço da sociedade.
Hoje, com um mundo altamente conectado e de altas expectativas sobre as marcas, este posicionamento, que parece estático, deve se transformar numa ética. Um código de princípios legítimo, inspirador, que se transforme em prática. Encontrei uma definição de ética de um psicanalista, que achei muito coerente – “ética são as escolhas que conseguimos bancar” - E com esta definição, fiquei muito feliz em ver duas empresas brasileiras no ranking aqui – vc viu?*
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marcelo antelo
Um ranking que aliás preza principalmente pela ironia aplicada pelo instituto de pesquisa porque incluir o BB, como empresa ética, nessas alturas do campeonato é querer fazer piada com os gringos ou tirar onda com os brasileiros! Esse Ethisphere eu não contrato nem prá pesquisa de síndico aqui do prédio!
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celso muniz
tenho simpatia pelos posts da tania. mas quando, em sua felicidade, ela
inclui o banco do brasil, ai fodeu. sugiro a tania, sair do mundo web e ir para o mundo do “banco que mata velhinhas”. ou seja: compareça a qualquer agência do banco do brasil – a escolha é sua – em fim começo de mês (e não só) e veja a ética equiparar-se aos desmandos só cometidos em campos de concentração. um dos problemas da propaganda brasileira – a “superestrutura” do marketing – é ignorar a realidade, a tal ponto, que a depura em seus comerciais assépticos e ditirâmbicos, já em si um atentado à ética, como se diuturnamente o trucidamento do cidadão (cliente) - seja na agência, seja no caixa eletrônico, seja no famigerado atendimento por telefone (nem estou falando dos juros, que me fazem querer o pior dos agiotas como cunhado) não existisse; ou que deixariam de existir a base do lexotan de bordões e slogans que exaltam a falácia de tal ética. a felicidade da tania, assim sendo, é uma felicidade de pirro.
(não existe posicionamento, existe ética – reflexão da tania savaget,
*in tempo: banco do brasil e natura, foram as duas marcas elencadas pela (sic!) ética
terça-feira, março 25, 2014
pausa para o café - ou nada como o bom e velho simples para o sofisticado soar mais alto sem afetação
receita da proximity bbdo paris com o auxílio luxuoso na direçao de m.roulier e p. lhomme d´la potager - para os publicitários abobados eis a receita(do café, a criativa vão se catar) http://www.cartenoire.fr/girls-only/recette_rose.pdf
quinta-feira, março 20, 2014
é caso de dizer desta água não beberei( porquê se beber top-top) ou ai que saudade dos hippies
Agrotóxicos, metais pesados e substâncias que imitam hormônios podem estar na água que chega à torneira da sua casa ou na mineral, vendida em garrafões, restaurantes e supermercados. Saiba por que nenhuma das duas é totalmente segura.
Adicionam-se sulfato de alumínio, cloreto férrico ou outro coagulante à água. Nessa fase, a coagulação, as partículas de sujeira agregam-se (Foto: Anne Vigna)
10. 5 mil ingrediente químicos diferentes entram na composição de produtos de higiene pessoal;
89,9 % destes produtos não foram testados para saber se trazem riscos à saude.
leia matéria completa - antes de beber água ou tomar banho em http://www.apublica.org/2014/03/da-para-beber-essa-agua/
Adicionam-se sulfato de alumínio, cloreto férrico ou outro coagulante à água. Nessa fase, a coagulação, as partículas de sujeira agregam-se (Foto: Anne Vigna)
10. 5 mil ingrediente químicos diferentes entram na composição de produtos de higiene pessoal;
89,9 % destes produtos não foram testados para saber se trazem riscos à saude.
leia matéria completa - antes de beber água ou tomar banho em http://www.apublica.org/2014/03/da-para-beber-essa-agua/
terça-feira, março 18, 2014
é para e neste pais que você faz publicidade
“A escravidão venceu no Brasil. Nunca foi abolida”.
Fome, secas, epidemias, matanças: a Terra aproxima-se do apocalipse. Talvez daqui a 50 anos nem faça sentido falar em Brasil, como Estado-nação. Entretanto, há que resistir ao avanço do capitalismo. As redes sociais são uma nova hipótese de insurreição. Presente, passado e futuro, segundo um dos maiores pensadores brasileiros.
Eduardo Viveiros de Castro, 62 anos, é o mais reconhecido e discutido antropólogo do Brasil. Acha que “a ditadura brasileira não acabou”, evoluiu para uma “democracia consentida”. Vê nas redes sociais, onde tem milhares de seguidores, a hipótese de uma nova espécie de guerrilha, ou resistência. Não perdoa a Lula da Silva ter optado pela via capitalista e acha que Dilma Rousseff tem uma relação “quase patológica” com a Amazônia e os índios. Não votará nela “nem sob pelotão de fuzilamento”.
Professor do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, autor de uma obra influente (destaque para A Inconstância da Alma Selvagem ou Araweté — O Povo do Ipixuna, este último editado em Portugal pela Assírio & Alvim), Viveiros de Castro é o criador do perspectivismo ameríndio, segundo a qual a humanidade é um ponto de vista: a onça vê-se como humana e vê o homem como animal; o porco vê-se como humano e vê a onça como animal. Humano é sempre quem olha.
Nesta longa entrevista, feita há um mês no seu apartamento da Baía de Botafogo — antes ainda da greve dos garis (homens e mulheres do lixo), um exemplo de revolta bem sucedida — e publicada nesse domingo pelo jornal português O Público, 16-03-2014, Viveiros foi da Copa do Mundo ao fim do mundo. Acredita que estamos à beira do apocalipse.
Eis a entrevista.
Vê sinais de uma revolta nas ruas brasileiras? Aquilo que aconteceu em 2013 foi um levantamento mas não uma revolta generalizada. Acha que isso pode acontecer antes da Copa, ou durante?
É muito difícil separar o que você imagina que vai acontecer daquilo que você deseja que vá acontecer.
Vamos separar. O que desejaria que acontecesse?
Revolta popular durante a Copa.
E isso significa o quê, exatamente?
Manifestação. Não estou imaginando a queda da Bastilha nem a explosão de nada, mas gostaria que a população carioca o deixasse muito claro. Embora a Copa vá acontecer em várias cidades, creio que o Rio se tornou o epicentro do problema da Copa, em parte porque o jogo final será no Maracanã.
Mesmo nas manifestações, o Rio foi a cidade mais forte.
São Paulo também teve manifestações muito importantes, mais conectadas com o Movimento Passe Livre [MPL, estudantes que em Junho de 2013 iniciaram os protestos contra o aumento dos transportes]. Voltando ao que eu desejaria: que a população carioca manifestasse a sua insatisfação em relação à forma como a cidade está sendo transformada numa espécie de empresa, numa vitrine turística, colonizada pelo grande capital, com a construção de grandes hotéis, oferecendo oportunidades às grandes empreiteiras, um balcão de negócios, sob a desculpa de que aCopa iria trazer dinheiro, visibilidade, para o Brasil.
O problema é que vai trazer má visibilidade. Vai ser uma péssima propaganda para o Brasil. Primeiro, porque, se estou bem entendendo, vários compromissos contratuais com a FIFA não estão sendo honrados, atrasos muito grandes, etc. Segundo, porque essa ideia de que os brasileiros estão achando uma maravilha que a Copa se realize no Brasil pode ser desmentida de maneira escandalosa se os turistas, tão cobiçados, chegarem aqui e baterem de frente com povo nas ruas, brigando com a polícia, uma polícia despreparada, brutal, violenta, assassina. Tenho a impressão de que não vai fazer muito bem à imagem do Brasil.
Outra coisa importante é que a Copa foi vendida à opinião pública como algo que ia ser praticamente financiado pela iniciativa privada, que o dinheiro do povo, do contribuinte, ia ser pouco gasto. O que está se vendo é o contrário, o governo brasileiro investindo maciçamente, gastando dinheiro para essas reformas de estádios, dinheiro dos impostos. Então, nós estamos pagando para que a FIFA lucre. Porque quem lucra com as copas é a FIFA.
Desejaria que essa revolta impedisse mesmo a Copa?
Impedir a Copa é impossível, não adianta nem desejar. Não sei também se seria bom, poderia produzir alguma complicação diplomática, ou uma repressão muito violenta dentro do país. Existe uma campanha: Não Vai Ter Copa. O nome completo é: Sem Respeito aos Direitos Não Vai Ter Copa. No sentido desiderativo: não deveria haver, desejamos que não haja.
O que se está dizendo é que os direitos de várias camadas da população estão sendo brutalmente desrespeitados, com remoções forçadas de comunidades, desapropriando sem indemnização, modificando aspectos fundamentais da paisagem carioca sem nenhuma consulta. Isso tudo está irritando a população.
Mas não é só isso: a insatisfação com a Copa foi catalisada por várias outras que vieram surgindo nos últimos anos, que envolvem categorias sociais diversas, e não estão sendo organizadas nem controladas pelos partidos. Essas manifestações têm de tudo, uma quantidade imensa de pautas [reivindicações]. Tem gente que quer só fazer bagunça, tem gente de direita, infiltrados da polícia, neonazistas, anarquistas. Um conjunto complexo de fenômenos com uma combinação de causas. Uma coisa importante é que são transversais: tem gente pobre e de classe média misturada na rua. É a primeira vez que isso acontece. O que talvez tenha em comum é que são todos jovens. Da classe média alta à [favela da] Rocinha.
Mas agora não são muito expressivas em termos de números. E não são as favelas que estão em massa na rua.
As famosas massas ainda não desceram, e provavelmente não vão descer durante a Copa. Nem sei se vão descer em alguma momento, se existe isso no Brasil. Mas acho que vai haver uma quantidade de pequenas manifestações. Por exemplo, a Aldeia Maracanã [pequena comunidade de índios pressionada a sair, por causa das obras do estádio] produziu uma confusão muito grande, se você pensar no tamanho da população envolvida. Os moradores daquela casa eram 14 pessoas e não obstante mobilizaram destacamentos do Bope [tropa de elite], bombas, etc. Quem está, em grande parte, criando a movimentação popular é o estado, com a sua reação desproporcional. OMovimento Passe Livre ganhou aquela explosão em São Paulo por causa da brutalidade da reação policial. O Brasil nunca teve esse tipo de confronto entre a polícia e jovens manifestantes. A polícia não sabe como reagir, não tem um método, então reage de maneira brutal. Os próprios manifestantes não têm experiência de organização. O que estão chamando de black bloc não é a mesma coisa que black bloc na Dinamarca, na Alemanha ou nos Estados Unidos.
Mais volátil.
Ideologicamente pouco consistente. Sabemos que o black bloc europeu é essencialmente uma tática de proteção contra a polícia. Noutros países, como os Estados Unidos, tem uma certa tática de agressão a símbolos do capitalismo. Aqui no Rio está uma coisa meio misturada, ainda não se consolidou uma identidade, um perfil tático claro para o que se chama de black bloc. E eles estão sendo demonizados. Acho até que, no caso do Brasil, o fato de que sejam black coloca uma pequena ponta de racismo nessa indignação. Não duvido de que no imaginário da classe média por trás da máscara negra esteja também um rosto negro. Pobres, bandidos, etc.
Mas isso está acontecendo ao mesmo tempo que a polícia continua invadindo as favelas, matando 10, 12, 15 jovens por semana. Até recentemente esse comportamento clássico do estado diante da população muito pobre, isto é, mandar a polícia entrar e arrebentar, era algo que a classe média tomava como... [sinal de longínquo].
Porque se passava lá nos morros.
Quando a violência começou a atingir a classe média — ainda que uma bala de borracha não seja uma bala de fuzil, porque o que eles usam na favela é bala de verdade e o que eles usam na rua é bala de borracha, ainda assim você pode matar com bala de borracha, pode cegar, etc —, à medida que a polícia começou a atacar tanto a rua quanto o morro houve um aumento da percepção da classe média em relação à violência da polícia nas favelas, o que é novidade. A imprensa fez uma imensa campanha para santificar a polícia com a coisa das UPP [Unidade de Polícia Pacificadora, programa para acabar com o poder armado paralelo nas favelas, instalando a polícia lá dentro], mas todo o mundo está percebendo que essas UPP são no mínimo ambíguas. Basta ver o caso do [ajudante de pedreiro]Amarildo, que foi sequestrado, torturado e morto pela polícia [em Junho de 2013, na Rocinha], e sumiu da imprensa.
Vinte e cinco policiais foram indiciados.
Quero ver o que vai acontecer. Quem deu visibilidade à morte do Amarildo não foi a grande imprensa. Foram as redes sociais, os movimentos sociais. Essa morte é absolutamente banal, acontece toda a semana nas favelas, mas calhou de acontecer na altura das manifestações, então foi capturada pelos manifestantes, o que produziu uma solidariedade entre o morro e a rua que foi inédita.
Num país como este, em que a desigualdade, a violência, continuam, porque é que as massas não saem?
Quem dera que eu soubesse a resposta. Essa é a pergunta que a esquerda faz desde que existe no Brasil. Acho que há várias razões. O Brasil é um país muito diferente de todos os outros da América Latina, por exemplo da Argentina. Basta comparar a história para ver a diferença em termos de participação política, mobilização popular.
Tenho impressão de que isso se deve em larga medida à herança da escravidão no Brasil. O Brasil é um país muito mais racista do que os Estados Unidos. Claro que é um racismo diferente. O racismo americano é protestante. Mas no Brasil há um racismo político muito forte, não só ideológico como o americano, interpessoal. O Brasil é um país escravocrata, continua sendo. O imaginário profundo é escravocrata.
Você vê o caso do menino [mulato] amarrado no poste [no bairro do Flamengo, por uma milícia de classe média que o suspeitava assaltante] e que respondeu de uma maneira absolutamente trágica quando foi pego: mas meu senhor, eu não estava fazendo nada. Só essa expressão, “meu senhor”... O trágico foi essa expressão. Continuamos num mundo de senhores. Porque o outro era branco.
Como um DNA, algo que não acabou.
Não acabou, pois é. É o mito de que no Brasil todas as coisas se resolvem sem violência. Sem violência, entenda-se, sem revolta popular. Com muita violência mas sem revolta. A violência é a da polícia, do estado, do exército, mas não é a violência no sentido clássico, francês, revolucionário.
E toda a vez que acontecem coisas como essas manifestações de junho, por exemplo, há aquela sensação: dessa vez o morro vai descer. O morro não desceu. Em parte porque já não é mais o morro, boa parte do morro é de classe média. Evidentemente, houve um crescimento económico. As favelas da minha infância, nos anos 50, eram completamente diferentes, como essas vilas da Amazônia, feitas de lona preta. Hoje são casas de alvenaria, feitas de tijolos. Ainda assim a miséria continua. Quero dizer apenas que a distância entre a classe média e o morro diminuiu do ponto de vista económico.
Ao fazer ascender esses milhões da miséria, o PT neutralizou a revolução?
Em parte pode ser isso. Houve uma espécie de opção política forçada do PT, segundo a qual a única maneira de melhorar a renda dos pobres é não mexer na renda dos ricos. Ou seja, vamos ter que tirar o dinheiro de outro lugar. E de onde é que eles estão tirando? Do chão, literalmente. Destruindo o meio ambiente para poder vender soja, carne, para a China. Não está havendo redistribuição de renda, o que está havendo é aumento da renda produzida pela queima dos móveis da casa para aquecer a população, digamos. Está um pouquinho mais quente, não estamos morrendo de frio, mas estamos destruindo o Brasil central, devastando a Amazônia. Tudo foi feito para não botar a mão no bolso dos ricos. E não provocar os militares.
A ditadura brasileira não acabou. Nós vivemos numa democracia consentida pelos militares. Compare com aArgentina: porque é que no Brasil não houve julgamento dos militares envolvidos na tortura? Porque os militares não deixam. Vamos ver o que vai acontecer agora, no dia 1 de Abril.
Com o aniversário do golpe militar.
Já existe uma campanha aí, subterrânea, para que no dia 31 de Março apaguem-se as luzes, toquem-se buzinas, para comemorar o 50º aniversário do golpe. Ou seja, existe uma campanha da direita para mostrar que a população ainda apoia a direita. Não sei que sucesso vai ter, mas não duvido que haja uma manifestação, oculta, pessoas que vão apagar as luzes das suas casas ou piscar as luzes à meia-noite, alguma coisa assim.
Mas nenhuma possibilidade de viragem à direita.
Não creio.
O atual regime não é uma democracia?
O Brasil é uma democracia formal, claro, mas consentida pelo status quo. A abertura foi permitida pelos militares. ALei da Anistia foi imposta tal qual pelo governo militar. Eles não foram destronados, presos, criminalizados. Simplesmente foram anistiados. E boa parte do projecto de desenvolvimento nacional gestado durante a ditadura militar está sendo aplicado com a maior eficiência.
Pela esquerda.
Pela chamada esquerda, pela coalisão que está no poder, na qual a esquerda é uma parte mínima, porque tem os grandes proprietários de terra, os grandes empresários.
Está cumprindo um ideário que vem da ditadura?
O PT é um partido operário do século XIX. Eles têm um modelo que é indústria, crescimento, como se o Brasil fosse os Estados Unidos do século XXI. Com grande consumo de energia. Uma concepção antiga, fora de sintonia com o mundo atual. Agora está começando a mudar um pouco, mas a falta de sensibilidade do governo para o fato de que o Brasil é um país que está localizado no planeta Terra, e não no céu, é muito grande. Eles não percebem. Acham que o Brasil é um mundo em si mesmo.
Ou seja, que não vai ser afetado pelo aquecimento global, etc.
É, que todas essas coisas são com os outros. Um pouco como acontece nos Estados Unidos, em países muito grandes. A única visão global que o Brasil tem é de se tornar uma potência geopolítica. O Brasil, hoje, é um ator maior, de primeira linha, em Moçambique, em Angola, nos países latino-americanos. Está disputando com a China pedaços de Moçambique. A Odebrecht está construindo hidroeléctricas [barragens] em Angola e assim por diante. O Brasil se imagina como potência que vai oprimir. Agora é a vez de sermos opressores, deixarmos de ser os oprimidos. Agora os brasileiros da vez vão ser os haitianos, os bolivianos, os paraguaios, que trabalham nas “sweetshops” de São Paulo, nas terras em que plantamos soja e etc. O PT nunca foi um partido de esquerda. É um partido que procurava transformar a classe operária numa classe operária americana.
E nunca o Brasil foi um país tão capitalista.
Minha mulher me contou que, conversando com um desconhecido, operador da bolsa de valores, isto em 2007, 2008, ele dizia: se eu soubesse que ia ser tão bom para nós jamais teria votado contra o Lula.
Onde está a esquerda? Qual é a sua opção de voto? Ou a opção deixou de ser votar?
Tanto a esquerda como a direita são posições políticas que você encontra dentro da classe média. A classe dominante é de direita de maneira genética, a grande burguesia, o grande capital. E os pobres, a classe trabalhadora... se eu fosse fazer um juízo de valor um pouco irresponsável diria que 60 a 70 por cento do Brasil estaria muito feliz com um governo autoritário, que desse dinheiro para comprar geladeira, televisão, carro, etc. Uma população que tem uma profunda desconfiança em relação a esses jovens quebradores de coisas na rua, que seria a favor da pena de morte, que é violentamente homofóbica.
Depois do garoto do Flamengo ter sido amarrado por aquela milícia, ouvi trabalhadores negros pobres dizerem: tem mais é que botar bandido na cadeia, fizeram foi pouco com ele.
Ou seja, é um país conservador, reacionário, em que os pobres colaboram com a sua opressão. Não todos, mas existe isso. A escravidão venceu no Brasil, ela nunca foi abolida. Sou muito pessimista em relação ao Brasil, digo francamente. Em relação ao passado e ao futuro. Em relação ao passado no sentido de que é um país que jamais se libertou do ethos, do imaginário profundo da escravidão, em que o sonho de todo o escravo é ser senhor de escravos, o sonho de todo o oprimido é ser o opressor. Daí essa reação: tem mais é que botar esses caras na cadeia. Em vez de se solidarizar. E podia ser o filho dele facilmente. E às vezes é o filho dele.
Oswald de Andrade, o poeta, dizia: “O Brasil nunca declarou a sua independência.” Em certo sentido é verdade, porque quem declarou a independência do Brasil foi Portugal, um rei português. Eu diria: e tão pouco aboliu a escravidão. Porque quem aboliu a escravidão foi a própria classe escravocrata. Não foi nenhuma revolta popular, nenhuma guerra civil. E em relação ao futuro sou pessimista porque... talvez ainda tenha um pouco de esperança, mas acho que o Brasil já perdeu a oportunidade de inventar uma nova forma de civilização. Um país que teria todas as condições para isso: ecológicas, geográficas.
Uma espécie de terceira via do mundo?
É, outra civilização. Porque civilização não é necessariamente transformar um país tropical numa cópia de segunda classe dos Estados Unidos ou da Europa, ou seja, de um país do hemisfério norte que tem características geográficas e culturais completamente diferentes.
Lembremos que houve um projeto explícito no Brasil, e que deu certo, que está dando certo, por isso é que sou pessimista, que é o projeto iniciado com Pedro II, em parte inspirado pelo célebre teórico racista Gobineau, que era uma grande admiração de D. Pedro: o Brasil só teria saída mediante o braqueamento da população, porque a escravidão tinha trazido uma tara, uma raça inferior.
Havia que lavar o sangue.
É uma ideia antiga, que já vem dos cristãos-novos que vieram de Portugal, que tinham de limpar o sangue. A gente sabe que quase toda a população portuguesa que se instalou no Brasil é de cristãos-novos, Diria que 70 por cento desses brancos orgulhosos de serem brasileiros são judeus, marranos, convertidos a ferro e fogo pela Inquisição. Então, havia essa ideia de que o Brasil era um país racialmente inferior porque era composto de negros, índios, portugueses com essa origem um pouco duvidosa. E já Portugal em si não é...
A Holanda.
Exato. Não é a coisa mais branca que podemos encontrar na Europa. A Península Ibérica é um pouco africana, foi dominada 800 anos pelos árabes. Então o Brasil só ia melhorar com branqueamento. Isso foi uma política de estado que durou décadas e trouxe para o Brasil milhões de imigrantes alemães, italianos, mais tarde japoneses. Com o propósito explícito de branquear, não só geneticamente, mas culturalmente e economicamente. E eles foram para o Sul, de São Paulo até ao Rio Grande. Mas, esse que é o ponto curioso, a partir do governo militar para cá essa população branca invadiu o Brasil, a Amazônia. A colonização da Amazônia a partir da década de 70 foi feita pelos gaúchos, muitos deles pobres, que foram expulsos, alemães pobres, italianos pobres, cujas pequenas propriedades fundiárias foram absorvidas pelos grandes proprietários, também gaúchos, também brancos, e que foram estimulados pelo governo, com subsídios, promessas mirabolantes, a irem para a Amazônia.
Hoje, tem um cinturão de cidades no sul da Amazônia com nomes como Porto dos Gaúchos, Querência, que é um lugar onde se guarda o gado, típico do Rio Grande do Sul. Os gaúchos [de origem europeia] chegaram numa região temperada, subtropical [sul do Brasil] em que você podia mais ou menos copiar um tipo de estrutura agrícola, de produção alimentar do país de origem. Só que na Amazônia isso é uma abominação. É um preconceito muito difundido essa ideia de que pessoal do Norte não sabe trabalhar, é preguiçoso. Você ouve muito isto no Paraná, noRio Grande do Sul. Quem sabe trabalhar é o colono alemão, italiano.
Hoje o Brasil foi branqueado. Essa cultura country aí é uma mistura de cultura europeia com cultura americana, de grande carrão, 4x4, pick ups, rodeos, chapéus americanos, botas. Existe um projeto de transformar o Brasil num país culturalmente do hemisfério norte, seja Estados Unidos, seja essa Europa mais reacionária. Porque estamos falando de colonos alemães que vieram do campesinato reacionário, bávaro, pomerano, e dos camponeses italianos, que eram entusiastas do nazismo e do fascismo na II Guerra. Continuam sendo. O que tem de grupo de extrema-direita no sul do Brasil é muito. O foco da direita fascista, nazista é o Paraná e o Rio Grande do Sul. Então o Brasil é um país dividido entre um sul branco e o resto não branco, português, negro no litoral, índio no interior.
O censo da população dá por uma unha uma maioria não-branca.
O agronegócio é na verdade o modelo gaúcho, desenvolvido no pampa, nos campos do Rio Grande. Plantação extensa de monocultura, de soja, de arroz, de cana. Então o Brasil está perdendo a oportunidade de se constituir como um novo modelo de civilização propriamente tropical, com uma nova relação entre as raças, que fosse efetivamente multinacional. Um país que se constituiu em cima do genocídio indígena, da escravidão, da monocultura. Que continua fazendo o que fez desde que foi criado, exportando produtos agrícolas. Que continua a alimentar os países industrializados. Primeiro a Europa, depois os Estados Unidos, agora a China. Continua sendo o celeiro do capitalismo.
E o matadouro.
O segundo maior rebanho bovino do mundo, depois da Austrália. Um país que se está destruindo a si mesmo para se transformar numa caricatura dos países que lhe servem de modelo cultural. Em vez de, ao contrário, saber utilizar a sua situação geográfica altamente privilegiada, a sua situação demográfica, uma população imensa, para construir um novo estilo de civilização.
O senhor está descrevendo a derrota do “Manifesto Antropófago” de Oswald de Andrade [visão de um Brasil que se torna forte por comer, absorver o outro]
É, acho que sim. Bom, nenhuma derrota é definitiva. O meu pessimismo nem passa tanto pelo fato de que o Brasil não tem jeito, porque acho que ainda poderia haver uma revolução antropofágica no Brasil. Mas hoje isso é uma questão que já não teria mais sentido colocar pelo simples fato de que estamos numa situação planetária em que a catástrofe já se iniciou. O mundo está entrando, num sentido físico, termodinâmico, num outro regime ambiental que vai produzir catástrofes humanas jamais vistas, no meu entender: fome, epidemias, secas, mudança de regime hidrológico, tudo. Nessas circunstâncias, é possível que cheguemos a um momento em que noções como Brasil, Estados Unidos, países, comecem a perder a sua nitidez. Pode ser que daqui a 50 anos a palavra Brasil não tenha mais nenhum sentido. Que tenhamos que falar em Terra.
É um pré-apocalipse?
Dira que sim. Isabelle Stengers, filósofa belga, diz que a palavra crise não é adequada porque supõe que você pode superá-la, quando o que estamos vivendo é uma situação que não tem um voltar atrás. Vamos ter que conviver com ela para sempre. Um novo regime do mundo, de climas, de águas, não haverá mais peixes, os estoques estão acabando no mundo, a quantidade de refugiados que vão invadir a Europa vai ser brutal nas próximas décadas. Se a temperatura subir quatro graus, que é o que todos os climatologistas estão imaginando, isso vai produzir uma mudança total no que é viver na Terra. E a quantidade de africanos que vai invadir a Europa vai ser um pouco maior do que aqueles pobres que morrem afogados ali em Lampedusa. E como os países ricos vão reagir? É uma questão interessante. Vai ser com armas atômicas? Vão bombardear quem? O meu pessimismo passa mais por aí.
No Brasil as crises são estritamente políticas. Faz reforma política? Vai ter revolta da população? Será que há Copa? Tudo isso é verdade, fundamental, mas a gente não pode perder de vista o cenário mais amplo.
Não vê ninguém no Brasil, politicamente, que tenha uma visão ampla? O senhor votou na Marina Silva [nas últimas presidenciais].
Votei na Marina em 2010, com certeza. Não tenho certeza nenhuma de que votaria nela em 2014, talvez não.
Eduardo Campos [candidato pernambucano que fez uma aliança com Marina]?
De forma nenhuma. A Dilma, nem sob pelotão de fuzilamento voto nela. Esses idiotas do PSDB nem pensar. Então talvez eu não vote. Talvez vote nulo.
Qual é a missão, o papel, a hipótese para alguém como o senhor? Virar uma espécie de guerrilheiro nas redes sociais?
É. Eu diria que a revolução antropofágica do Oswald de Andrade só é possível sob o modo da guerrilha. Estamos falando de uma coisa que foi pensada em 1928...
Mas que foi revivendo, anos 60, agora.
O Oswald, um homem da classe dominante, pensava no Brasil como uma coisa sobre a qual você podia pôr e dispor. Nesse sentido, ele pertence à geração dos teóricos do Brasil, que eram todos da elite dominante paulistana ou pernambucana: Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior. Os modernistas eram uma teoria do Brasil, de como o Brasil deve ser organizado, governado.
Talvez os muitos povos brasileiros que compõem esse país só tenham chance de ganhar uma certa emancipação cultural, política, metafísica, no contexto do declínio geral do planeta. Nessas condições é possível que haja esperança para os negros, os índios, os quilombolas [descendentes de escravos], os gays, os pobres desse planeta favela. Não esqueçamos que o mundo tem três bilhões e meio de habitantes vivendo em cidade, metade da população mundial. Desses, no mínimo um bilhão vive em favelas. Ou seja, um sétimo da população mundial vive em favelas. O Brasil deve ter uma proporção maior que a Alemanha, Estados Unidos. Diria que deve andar na casa dos 30 milhões. [A população de] um bom país europeu.
Seria uma guerrilha nas redes sociais? Admite o uso de violência ou uma guerrilha virtual apenas?
Nem uma coisa nem outra. A existência da Internet mudou as condições da guerra, em geral, sim. O maior ato de guerra recente, no bom sentido, de que me consigo lembrar foi o Edward Snowden. Não mais os Estados Unidos espionando a Rússia, nem a Rússia espionando os Estados Unidos, mas o vazamento de informações secretas dos estados. Isso é muito significativo. Um jornalista morando aqui no Rio de Janeiro, que trabalha para um jornal inglês, que recebeu informações de um analista americano, que estava escondido em Hong Kong: isso só é possível com Internet. As redes sociais mudaram completamente as condições de resistência ao capitalismo.
Uma nova forma de guerrilha?
Que não é nececessariamente violenta, embora exista o problema do hacker, do bombardeio de sistema eletrônico. Mas o que penso não é bem por aí. Quando penso em guerrilha, é no sentido de combates locais, ponto a ponto. Não estou falando de quebrar a porta do banco ou bater na polícia. Falo em combates em que você seja capaz de conectar combates locais através do mundo inteiro.
Existem formas novas de resistência e aliança entre as minorias étnicas, culturais, econômicas do planeta que passam pela conectividade universal da rede, que é frágil, ao contrário do que se imagina, com pontos fracos, nós, gargalos, em que os Estados Unidos têm um poder muito grande. Mas eu diria que é muito difícil controlá-la até porque essa rede é indispensável para o capitalismo. Difícil o capitalismo danificá-la demais, senão vai perder seu principal instrumento hoje. Ainda que haja várias tentativas, no Brasil inclusive, de vigilância.
É possível que a gente passe para um estado de vigilância à la George Orwell. Tudo isso é possível. Mas acho também que a situação atual permite o desenvolvimento de uma guerrilha de informação, muito mais que de ação física, porque a informação hoje é uma mercadoria fundamental, estamos na economia do conhecimento, então a guerra é uma guerra também pela informação. É por aí que tenho alguma esperança, muito mais que numa saída nas ruas, com ancinhos, forcados, machetes.
Parar de imaginar uma luta de classes e imaginar uma guerrilha de classes. Classe definida, agora, não só de maneira classicamente econômica mas no contexto da nova economia, que mudou a composição de classes. Vários intelectuais hoje pertencem à classe dominada, operária. Então, vejo mais uma guerrilha do que uma guerra, com a vantagem de que as guerras em geral terminam na constituição de um novo poder totalitário, um novo terror. O “Manifesto Antropófago” pode acabar se realizando mais por esse lado. O sonho clássico da revolução, como transformação de um estado A em estado B é um sonho pouco interessante.
Não há desfecho.
Não há desfecho. Prefiro falar em insurreição do que em revolução, hoje. Um estado de insurreição permanente como resistência. A palavra talvez seja mais resistência, insurreição, do que revolução e guerra. Guerrilha é sempre de resistência. O modelo da resistência francesa [na ocupação alemã], criar redes subterrâneas de comunicação. Estamos nessa posição, somos um planeta invadido por alienígenas, digamos, que é o grande capital, a TV Globo, o agronegócio, a hegemonia norte-americana sobre os sistemas de entretenimento; como é que você cria uma rede de resistência a esses “alemães”? Sou um ativista das redes, de fato. Mas não convoco para manifestações, não pertenço a nenhuma organização, estou um pouco velho para sair na rua.
( Nota: A imagem que ilustra a reportagem é de Déborah Danowski).(publicado no ihu on-line)
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