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quinta-feira, maio 29, 2014

a caminho da jequice total ou seja: numa miami dubex jamais seremos algo mais que sacoleiros de gorjetas

Recife é uma das capitais culturais menos jecas do Brasil. O manguebeat ecoou lá, em plena década de 1990, a mesma percepção de país que já animava o modernismo antropofágico e o tropicalismo. A capital de Pernambuco produzia um antídoto contra a crença na circulação de dinheiro como valor central da sociedade – o yuppismo. Mas, ao mesmo tempo, contra uma certa regressão da cultura pop a valores “machos” e “legítimos” do rock, com o grunge.
Adoro a tese de que a estética de Kurt Cobain e do Nirvana era muito mais uma cria do ambiente riot grrrl, de bandas de garotas feministas, do que do ambiente de seus pares mais tradicionalistas, como Alice in Chains e Pearl Jam. Mas o documentário sobre Kathleen Hanna, de onde vem essa conversa, fica para outro texto. É que lembrei de uma camiseta do manguebeat que eu tive que dizia “Mangue bitch”. Smells like mangue bitch. Tem a ver.
Não é pouca coisa cravar a próxima referência numa linha de pensamento cultural que inclui a antropofagia e a tropicália. A nossa versão da contracultura, toda matizada e terceiromundista, mas sem abdicar da inteligência cortante do pensamento alternativo daquele período (1967-1971), não para de crescer como referência na psicodelia mundial. Na verdade, os Mutantes foram redescobertos antes lá fora (pelo próprio Cobain, além de Sean Lennon e David Byrne), vindo se somar a referências internacionais como Caetano e Gil, e a outras que vão sendo descobertas na gringa, como Tom Zé e Tim Maia.
E o nosso modernismo da Semana de 22, mesmo que não tenha sido muito percebido no exterior, e que haja hoje uma linha de jornalismo histórico que tenta tratá-lo como diletância de filhinhos de papai, tem uma formulação sobre a relação entre cultura popular local e cultura internacional que é absolutamente sagaz, totalmente em sintonia com as vanguardas européias. Uma visão que antecipou as artimanhas da cultura pop tanto quanto Dada (1916), o cinema revolucionário russo (1922) ou o surrealismo (1924).
O manguebeat foi uma explosão da inteligência de Recife, e de Pernambuco, em várias linguagens. O cinema é na qual ela mais continua chamando a atenção. Depois do filme que inaugurou o cine pernambucano atual, O Baile Perfumado (1996), vêm se sucedendo obras importantes para o cinema nacional, como Amarelo Manga, Cinema Aspirina e Urubus, Tatuagem e O Som ao Redor. A música, depois da fase brasileiro-eletrônica que revelou Otto e o DJ Dolores, agora tem a “cena Beto”, com músicos e bandas bacanas como Juvenil Silva, Ex-Exus, Dunas do Barato, D Mingus e outros.
Recife tem uma receita única de relacionar maracatu e rock nas ruas do carnaval, de abordar temáticas locais sem muita condescendência ou didatismo pra turista ver, de se manter mais ou menos imune à prostituição institucionalizada do turismo predador. É essa propensão à “psicoprostituição turística” que transformou a produção de outra capital culta do Nordeste, Fortaleza, num gueto minúsculo, ameaçado o tempo todo pelo humor e pela música sexualizados, mercenários e grosseiros. Já Recife vem se mantendo como um laboratório saudável do imaginário nacional.
Ou vinha. Porque uma briga contra a especulação imobiliária acaba de revelar, em toda sua desinibição, uma casta de neo-yuppies locais, que se manifesta postando nas redes sociais frases como “Pra mim eu quero a identidade com cara de Miami mesmo, de Hong Kong e de locais que são explorados o turismo e que se gere empregos, renda e divisas!! CHEGA DE DEMAGOGIA!! Recife não precisa de choro, precisa de renda, emprego e um turismo forte!!!” (vários sics).
Na verdade essa tensão psicocultural é o tema o filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, que trata da chegada de uma milícia de segurança privada a um bairro de classe média, em Setubal, na praia de Boa Viagem. Setubal é zona de transição. A parte, err, chique de Boa Viagem, com seu paredão de “prédios bonitos” na orla, é uma espécie de combinação de Barra (Rio) com região da Berrini (São Paulo). E mostra que herdou as relações da senzala, do engenho, da capitania hereditária, tudo recoberto com muito vidro e dezenas de andares.
Mas o chamado Recife Antigo permanecia quase intocado. Foi em seus puteiros, principalmente o incendiado Frank's Drinks (por algum mistério escrevia-se assim mas pronunciava-se Francis), e também no Atenas Drinks e outros, que aconteceram os primeiras festas e shows de Chico Science e da turma do mangue. Depois da fase mais decadente, houve uma revitalização do centro velho, em parte motivada pelo incremento no orgulho local que a fase do próprio manguebeat produziu – e foi nessa revitalização que os cabarés foram desaparecendo.
Esse é um fenômeno usual. De Nova York a Lisboa, as cenas que projetaram as bandas da new wave, num caso, e o Madredeus, no outro, foram gestadas em regiões decadentes, entregues ao tráfico e à prostituição, antes de influenciarem a cultura mundial. E não é estranho que esses tecidos urbanos e sociais se reconstituam e voltem a circular dinheiro, com base na “contaminação positiva” da cultura que acolheram. São Paulo enfrenta um pouco essa questão com a rua Augusta.
Em Recife o caso é cruel: quer se passar do casario e das instalações industriais e comerciais sobreviventes, sem escalas, a (como disse o despudorado internauta) Miami ou Hong Kong – ou Dubai (tenho certeza de que era desse nome que ele queria lembrar). Recife tem uma configuração especial. A ocupação original é Olinda, mais alta, que permitia a defesa militar. Foi a invasão holandesa que criou Mauritsstad (cidade de Maurício de Nassau), na área baixa, de recifes.
Na capital da Nova Holanda, Maurício impulsionou a tolerância religiosa, permitindo aos judeus a criação da primeira sinagoga das Américas já em 1642, as ciências (o primeiro observatório astronômico do novo mundo) e a engenharia (com as pontes, diques e canais para permitir a tomada do estuário dos rios Capibaribe, Beberibe e Pina), e as belas artes.
Mesmo que não possa se chamar a colonização holandesa de mais humana, arrisco dizer que foi nesse enfrentamento entre Olinda e Recife que se definiu muito do caráter inconformista da segunda. Sair de Recife e entrar em Olinda sempre se parece um pouco com sair de Pernambuco e entrar na Bahia (no sentido de um lugar mais brazuca-cordial; Recife, ao contrário, é marrenta).
O cais José Estelita é um dos limites desse núcleo urbano original. Foi um cais ferroviário, construído no início do século passado, e a RFFSA foi extinta em 1999. Em 2005, um projeto urbanístico para a região foi apresentado pela prefeitura, e jamais realizado.
Em 2008, com a venda do terreno em leilão e a protocolação de um projeto privado na prefeitura, às vésperas da aprovação de um plano diretor que o impediria, começaram as escaramuças entre as incorporadoras, o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), a Fundarpe (Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco), o governo e as associações da sociedade civil. Essas acusam as inconveniências ecológicas, históricas, arquitetônicas e sociais do projeto.
Um texto de 2012 do grupo Direitos Urbanos explica o imbróglio até aquela ocasião. Um trecho esclarecedor: “É um empreendimento imobiliário, que promete sim dinamizar economicamente a área, aumentar o número de empregos, impostos, carros nas ruas do centro, esgoto no estuário, mas que absolutamente não toma o centro da cidade como referência; ao contrário, dá para ele as costas, conectando-se muito mais diretamente com o Shopping Rio-Mar, construído sobre o mangue na outra margem do rio, e com a zona de Boa Viagem, mais ao sul, já saturada pela especulação imobiliária. Este projeto sobrepõe uma dinâmica urbana externa, baseada num alto padrão de consumo, à dinâmica existente, ignorando suas especificidades, fragilidades e potencialidades”.
O Direitos Urbanos está à frente do OcupeEstelita, uma mobilização para impedir a continuidade das demolições (possivelmente ilegais) que começaram na semana passada; neste texto dá pra ver as atualizações. As bizarras e deslocadas torres gêmeas do Cais Santa Rita, ali perto, construídas em 2008, já são uma amostra dessa agressão de 40 andares. A mesma construtora Moura Dubeux, envolvida numa série de acusações, está à frente do projeto Novo Recife (com Ara Empreendimentos, GL Empreendimentos e Queiroz Galvão). Os novos prédios seriam até 13 torres, com os mesmos 40 andares.
Resta saber se o Novo Recife, que começou na Holanda, vai acabar mesmo em Miami. Smells like mangue bitch.
(smells like mangue bitch, do alex antunes)

sábado, abril 26, 2014

pra você que não se tocou no último feriadão(fudido na ida ou na volta) já que vem mais um


Desisti do carro há quase 3 anos. A decisão veio acompanhada do desligamento do serviço de telefonia celular, da TV por assinatura e de uma reforma alimentar que eliminou produtos industrializados, carne, café e bebida alcoólica dos meus hábitos. Um processo de desintoxicação, que visava, acima de tudo, expurgar os males da civilização. Queria me proteger da sociedade de consumo – e do espetáculo. 
Sob forte inspiração de Gandhi e influência direta de Lia Diskin, da Palas Athena, posso resumir minha busca numa palavra: práxis. O mal estar da pós-modernidade havia se materializado em mim de forma irreversível e concreta por meio da incoerência absurda entre o que penso e o que faço.
Weber já apontava para essa interdependência entre o nosso comportamento como gerador daquilo que nos aprisiona. “Somos assombrados pelos monstros que criamos”, reforça Edgar Morin referindo-se ao imaginário social construído pelas religiões e, sobretudo, pela mídia. Sair dessa lógica, no entanto, é bem mais difícil e complexo do que simplesmente abrir mão dos fetiches, dos instrumentos de representação – e de coerção – já arraigados nos modos de vida dessa sociedade.
Há duas semanas fui convidado a abrir um seminário sobre educação para o trânsito e mobilidade urbana, na Unicamp. Ali, tentei fazer uma conexão direta entre a cultura do automóvel e a indústria cultural. Parti da minha experiência pessoal, das mudanças provocadas no meu dia-a-dia, mas sobretudo pelo imbricamento entre o tecnologismo capitalista, aqui representado pelo automóvel, como seu símbolo supremo, e a cultura de consumo, exarcebada pela “sociedade do espetáculo”.
Parti de um diálogo entre a ideia de cultura, sua origem etimológica, explorada em meu novo livro, O Poder da Cultura, e a contraposição entre cultura matrística e cultura patriarcal proposta por Humerto Maturana, em Amar e Brincar, editado, não por acaso, pela Palas Athena. E a cultura do automóvel como uma espécie de síntese imagética dessa cultura patriarcal, baseada na competição, no status, na busca do poder, da distinção, da privatização do espaço público, e o consequente modelo de desenvolvimento decorrente dessa cultura.
Mesmo sendo o meio menos eficaz de locomoção no espaço urbano, o automóvel representa um dos maiores itens no orçamento familiar do brasileiro médio e um dos maiores custos para a sociedade, pois exige grandes investimentos de infraestrutura. Isso sem contar a conta ambiental e no sistema de saúde, já que o acidente de automóvel é uma das maiores causas de morte no mundo.
Mesmo assim constitui a base do nosso projeto desenvolvimentista, símbolo do governo JK, de Itamar e até mesmo de Lula, que utilizou o incentivo ao consumo de automóveis como um dos principais agentes provocadores da resistência do país à crise financeira. Ao mesmo tempo que estimulava o endividamento da família brasileira, aumentava os impostos da atividade cultural, que segundo pesquisas do próprio governo, gera mais empregos que a indústria automobilística.
Mas há também uma interdependência entre indústria cultura e do automóvel. Adorno nos deixou a seguinte provocação em seu clássico texto sobre “A Indústria Cultural” (1947):
A racionalidade técnica hoje é a racionalidade da própria dominação. Ela é o caráter compulsivo da sociedade alienada em si mesma. Os automóveis, as bombas e o cinema mantêm coeso o todo e chega o momento em que seu elemento nivelador mostra sua força na própria injustiça a qual servia. Por enquanto, a técnica da indústria cultural levou apenas à padronização e à produção em série, sacrificando o que fazia a diferença entre a lógica da obra e a do sistema social.
A competição, o individualismo, a busca de status, a opção pelos grandes amontoados urbanos e a consequente exclusão das vias de acesso àqueles que não possuem automóveis, são urgências do homem civilizado contemporâneo. A busca incessante por informação, o acúmulo do know-how, a via expressa. O carro potente, veloz, automático, seguro, confortável, tornou-se uma espécie armadura que protege o “homem de bem” das inseguranças do século XXI.
A via asfaltada, a velocidade, a pressa, são necessidades contemporâneas fabricadas por nosso modelo civilizacional. O automóvel torna-se o fetiche supremo, uma espécie de falos coletivo que move, como nenhum outro objeto, em direção ao abismo dos sentidos.
Vivemos num vácuo de significados. O ato do consumo nos conforta, nos dá a segurança e a autoconfiança para continuarmos em frente, fazendo aquilo tudo que já não acreditamos, mas já não temos força ou uma nova utopia que nos redirecione.
O único antídoto que eu conheço para esse vazio é preenchê-lo com arte e cultura. Da boa e também da ruim. Daquilo que eu gosto e do que eu duvido. Um pouco também daquilo que só os loucos, os sonhadores e atrevidos têm condição de nos mostrar.
Enquanto for presa fácil dos meios de comunicação, com sua publicidade e o seu marketing, e da cultura oficial, com demagogia e populismo crescentes, o cidadão, de bem ou do mal, só verá esse vazio aumentar. E gerar os desequilíbrios e distúrbios imaginários que vivemos atualmente.
Seis meses depois religuei o celular; hoje utilizo o automóvel da minha companheira em situações específicas, uma ou duas vezes por semana; bebo moderadamente e estou em busca de uma clínica de reabilitação para viciados em cultura e café. Se alguém aí souber, por favor me avisa!
* Este texto não faz parte do livro O Poder da Cultura.
**texto do leonardo brant, para http://www.culturaemercado.com.br/

quinta-feira, janeiro 23, 2014

iogurte é cultura ou seja: garantia de merda certa

sob lacre de embalagem catita de iogurte sabor-nem-sim-nem-não, deparo-me com o seguinte texto: "sabia que os intestinos tem cem milhões de neurônios? e que por isso são chamados de o segundo cérebro"?

minha nossa! - intervalo para dizer que chapei de imediato e não, não me caguei, eu disse chapei - esta informação mudou a minha percepção da vida.

já tinha uma certa desconfiança de que para fazer merda era necessário um certo esforço e uma refinada elaboração ao contrário do que possa parecer de que fazer merda é fácil, tamanha quantidade e, sim senhor, falta de qualidade. isto posto, passamos a ter o conhecimento de que não devemos pensar que produzir merda é algo assim que se faça sem compromisso e concentração. não senhor. já sabemos agora que exige muito neurônio e um longo caminho, o que antes aprendíamos ainda na escola frequentada de calças curtas.

a minha visão de mundo - a tal da weltanschauung, diria eu,utilizando,creio nem uma fração incapaz de melar a cueca dos tais neurônios - metamorfoseia-se agora de forma quase radical. tive uma cólica dos sentidos. creio que devo fazer uma mea culpa por ter despejado tantos impropérios em todos aqueles que julguei produzir merda, seja na minha atividade - jornalismo e publicidade, resumidamente - seja naqueles campos em que meto o bedelho e, consequentemente, onde também escapole, de vez em quando, alguma diarreia para além da verbal/conceitual. 

se levasse ao pé da letra, em vez do desprezo, teria agora o respeito; em vez do dar de ombros, eis o ombro amigo; em vez da implacável mania de assepsia estética, a aposentadoria definitiva dos conceitos rebuscados de equilíbrio, proporcionalidade e harmonia, enfim da formação do bom-gosto. tudo em nome a veneração dos tais cem milhões de neurônios confirmados e confinados à tal produção de elemento tão culturalmente importante e que pode ser visto, ouvido, sentido, comido ou estocado, neste brasil onde certamente, por baixo, são cerca de duzentos milhões de cérebros(imagine isto multiplicado pela quantidade de neurônios do intestino) a consumir/produzir/consumir, uma infinidade de merda tal a começar do tal iogurte. 

mas como não levarei ao pé da letra - nem fodendo - adeus iogurte; com suas produção de falsa cultura lacto-bacilar, cuja única função é coibir ou embromar a percepção do que vem depois da abertura da embalagem: uma quantidade de conservantes, espessantes, e demais co-atuantes que ao fim e ao cabo acabam por dar um nó em nossos neurônios. os tais e os demais.

que venha então, e salve, a coalhada caseira. sem sustos e sem embalagens subliminares. sem esquecer do detalhe, de que tem de ser feita do leite produzido no estábulo ou vacaria, de vacas que pastam sem hormônios, que matam moscas com chibatadas de quebrar munhecas e que vivem e nos dão a consciência e consistência de um mundo que, este sim, torna-se-á mais saudável na medida em que aprendemos consistentemente que merda é merda. e que seu cheiro, tão peculiar e natural, assim o é, para que não engane ninguém. ao contrário do iogurte industrializado, onde cem milhões de neurônios são colocados ao serviço de engalobar 86 bilhões dos que pensam que tem cabeça ao consumir tal produto.

neste caso, toda a merda - a consumida e expelida - vem dai ou ai desemboca.

(originalmente publicado no misterwalk.blogspot.com de quando em vez blog de merdas igual a estas ou seria este?)