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sábado, fevereiro 07, 2015

então você é redator ? 500.000 mil zeros na redação* do enem só podem estar errados


basta ler o copy dos anúncios em qualquer meio pra ver que a correção deixou passar um batalhão de candidatos bem sucedidos para a redação publicitária que é feita hoje em dia - na web então, uuui! (cai o pano rápido enquanto aquele redator/a manhoso termina o boquete com que garante o seu texto e seu emprego). 

* o tema era a publicidade infantil em questão no brasil. 

agora você já sabe porque ninguém lê texto (grande) no brasil. se ninguém sabe escrever "uai" como é que vai ler ? 





domingo, setembro 21, 2008

de como escrever copies. divagações ou quase decálogo por entre as centenas de redações que existem por ai, incluindo as suas.

(um é copy. o outro, bem, desencane).

pra começar, não se forma nem se ensina alguém a ser copy. copy é copy. redator é redator, procure saber qual a diferença, se ainda for o caso.

o copy, sabe exatamente onde ainda falta alguma coisa na peça. e, mais ainda, sabe onde, se acrescentar, em vez de melhorar, vai piorar. isto é intuitivo. não é cerebralizado. pelo menos da forma como o conteúdo é tratado.

uma coisa é o copy publicitário: sintaxe, timming e pegada emocional que de tão arrasadora torna-se pra lá de sutil. sopro na nuca com o arrepio junto da tentação. é o único keep simple que funciona. por isso mesmo muito própria; ou pelo menos assim já foi. outra, os vide-bula que estão por aí, que traduzem, no máximo, o briefing com as palavras trocadas;

acredite: o ser humano é muito pouco racional. dúvida? veja então o que a racionalização anda fazendo com o destino da espécie - e da profissão. portanto copy sem emoção é texto sem autenticação. planejamento não é camisa de força. é catapulta para quem tem bolas. desconfie de copies que vêem os polices ou mandatories como obstaculo intransponível. onde há dificuldades há oportunidades;

se racionalização e conhecimento gramatical adiantasse alguma coisa professores de português saberiam escrever. e estes, decididamente na sua maioria não sabem(e não estou falando especificamente de publicidade). aliás, se dependesse deles a língua estaria morta. mas também não pense que assassinar a gramática e trombar de quina com a concordância é ter estilo. o falar popular vai até o catabiu. agora abismo lingüístico é outra coisa. inadmissível;

regras existem para serem quebradas. sim. mas isso só é possível se você domina o básico. paulo francis dizia que o bom redator – e não o copy – se conhece pelas virgulas. ainda bem que não sou redator. co´as virgulas, o máximo que consegui foi o epíteto de ser um copy de vírgulas esquizofrênicas . e até hoje, se não olhar a cola, desando nos porquês(por que, porque, por quê, porquê) como você astutamente – todo bom copy é astuto - deve ter observado por aqui. vicio da preguiça, imperdoável, de quem sempre teve revisor. aquele cara esquecido no fundo das agencias(que os tem) e que nunca aparece, como devia, nos créditos. portanto, o bom copy não pode ser nunca preguiçoso - e muito menos, deixar de ser curioso. não tem necessariamente a obrigação de escrever corretamente. a sua meta não é a perfeição mas o convencimento. mas para se safar disso sem seqüelas graves tem de ser brilhante. o bom copy é antes de tudo determinado, e não tão somente predestinado, sem ser teimoso. é pentelho mas tem que ter algum charme.se não vira um chato;

profissionais que escrevem livros de redação há cada vez mais. se fossem tão bons, estariam ganhando a vida escrevendo propaganda. e não sobre. portanto fuja da moda porque está na moda chumaços de manuais de redação e dicas - e cursos, e faculdades, e pózes argh!, um atrás do outro, na maioria mal escritos e tediosos. não leve a sério nenhum. menos ainda esta intervenção.

nunca se esqueça que truques são truques. métodos são métodos. talento é talento. e vocação é vocação. talento sem vocação é uma merda. mas a vocação, sem dúvida, conduz ao talento que é desenvolvido pelo exercício, sobretudo de ler os bons escritores: não importa o gênero;

há bulas sobre vaselina impensáveis e obituários impagáveis. os escritores odeiam que lhes diga isto. mas alguns raros copies – os velhos e bons all types – merecem estar ao lado do melhor que já se fez de melhor na prosa ou poesia mundiais. e não estou falando dos kerouacs, burroughs ou fantes da vida, sem lhes tirar o mérito. camões fez o uso de figuras de linguagem como poucos publicitários fizeram. figuras de linguagem, você sabe, são aqueles recursos de sintaxe que o cliente, o gerente ou diretor de marketing odeiam. costumam aboli-los das peças, dizendo sempre ameaçadoramente que não querem trocadilhos e sim algo direto(“estamos na época da imagem; ninguém lê nada; o texto tá longo demais. quantas vezes você já ouviu esta pulhice quase canonizada? o tal curto e grosso é apenas o de sempre em bold, corpo 18. o que, não só amputa a sentença, como as condena ao enfadonho lugar-comum e a ser escaravelhos no leiaute.

dizer que um copy fez trocadilho equivale a dizer que você escreve pior que o anotador de bicho da esquina ou que sua mãe o criou fazendo algo pior nela. portanto, se você não o fez – há quem faça achando-se criativo e criador de linguagem – explique ao menos ao seu interlocutor o que são figuras de linguagem (aféreses, anacolutos, assindetos, catacreses, elipses, epanáforas, hiperbátos, metalepses, metonímias, silepses, síncopes, sinédoques, sinquises,etc) antes de lhe mandar a puta que os pariu. sem trocadilhos;

(ponha em pratica se quiser mas não me culpe pelo resultado).

Now playing: Sesto Sento - Abacaxi Fever
via FoxyTunes

quarta-feira, novembro 15, 2006

rachando lenha

Algumas pessoas não compreendem que falar e escrever têm regras distintas.

“Leio Machado de Assis com um dicionário do lado”, dizia Dona Gecy Durski, minha professora de português. Foi uma das boas lições que ela me deu. Manusear um dicionário é abrir a caixa de ferramentas e descobrir as grandes possibilidades para a construção de um texto.

Quando fiz minha primeira redação no curso preparatório para vestibular, recebi um 3 redondo — a prova valia 10 — e um recado do professor: “Simplifique. Use palavras comuns. Lembre-se que o revisor da redação pode desconhecer algumas dessas suas jóias. Achando-se ignorante, pode querer vingar-se... ”.

Estávamos falando de vestibular, aquela terra de ninguém, onde chora menos quem pode mais, e a tática do mestre funcionou. Caí no chão duro, consciente de que eu não era um grande escritor.

Com o passar dos anos percebi que o defeito de alguns autores é fazer uma salada de palavras difíceis, sem qualquer compromisso com a clareza, e muito menos com o conteúdo. Quanto a Machado e outros instrumentistas de pena afiada, estão autorizados pelos deuses a lançar mão de toda a gama de lexemas — tirei este do dicionário — para fazer crescer, florescer e frutificar sua literatura. Afinal, eles treinaram arduamente esse artesanato da escrita.

Algumas pessoas não compreendem que falar e escrever têm regras distintas. Seguidamente vemos professores tentando, talvez por obrigação profissional, falar como se escreve, e é triste. Quando um autor se põe a utilizar palavra lustrosa em texto fosco, é ainda pior.

Há anos decidi-me pelas palavras comuns, na escrita. Se produzo algum efeito especial, é na articulação entre as partes, como traços que se juntam a desenhar a alma daquele instante. Na fala, sou absolutamente vulgar. Pessoas que me conhecem somente pelos textos decepcionam-se quando nos encontramos pessoalmente. Esbanjo gírias e recuso-me a aplicar o “r” em finais de verbos no infinitivo.

Certa ocasião, funcionário de uma instituição pública, fui escolhido pelos colegas a levar uma pauta de reivindicações ao governador Jaime Lerdo. Assim que cheguei frente ao rei, apertei-lhe a mão, entreguei o documento e disparei: “Taí, seu Jaime, aí dentro deste pacote tem uma porção de pedidos do pessoal aqui da faculdade. Vê se dá uma aumentadinha no salário da galera porque a coisa ta braba, falou?”. Meus colegas funcionários acharam o máximo. Mas vários professores em fase de mestrado ou doutorado ficaram horrorizados.

Uma história digna que se produza, seja num romance, um conto, uma poesia de duas ou três linhas, tem a alma repleta, transbordante do sangue da humanidade. Ou um elogio das maravilhas mais deslumbrantes, como um prato requintado servido a um ansioso paladar.

Muitos sucessos tidos como jóias literárias serão consumidos pelos modismos do futuro. Resistirão à ferrugem dos tempos apenas as obras forjadas ao fogo das paixões, ou do humor insubmisso.

Tenho visto muitos livros com alto padrão de qualidade, capa dura, miolo em papel couché costurado, verniz e ouro na sobrecapa — orçamento: em torno de R$ 50 mil para uma tiragem de mil exemplares — pagos com Lei de Incentivo Cultural, isto é, patrocinados pelo cidadão trabalhador brasileiro. Os textos, diminutos, repletos de palavras bonitas que dizem quase nada, ladeiam fotografias de pinturas de meia página. No final, imagens de vernissages, com todas as glórias da refinada sociedade tupiniquim. Os artistas que têm alma de artista entram em colapso quando vêem essas coisas.

Se você tem alma de escritor, não se entregue. A vida é una, em suas manifestações mais dóceis e nas mais aberrantes. Se você está em dúvida se é, ou não, um escritor, veja como se abalam as convicções sempre que os seus originais doloridos e puros juntam pó enquanto as livrarias expõem uma nova dúzia de bem-aventurados vendedores de livros norte-americanos. Se nos anos de ostracismo o amor não se afeta, saiba, você é das luzes, nada apagará suas emanações. Escreva todo dia ao menos uma frase para salvar o mundo, ainda que muitos o tomem por ridículo. Talvez a humanidade continue em perigo, mas também é possível que numa manhã ela acorde radiante e iluminada, pelas suas palavras, ou não.

um texto a Machado, do chico gil, para a carta capital.
(o pior de tudo é ver que isso acontece - a empolação e a falta de objetividade - com os redatores de propaganda, mesmo em peças de pouco texto ou texto quase nenhum, cujos trabalhos raramente lembram os bons copys que construiram impérios, ou não os deixaram cair. pior ainda os que querem fazer da propaganda literatura ou seria piorissimamente o vice-versa?)