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segunda-feira, outubro 15, 2012

sêneca, o patrono(quer dizer, deveria) dos criativos


Tempos difíceis estes. Mas é curioso perceber o que é que isso quer dizer exatamente. E que implicações pode ter no nosso dia a dia, para além dos óbvios, como ter (muito) menos dinheiro e viver num clima de (muito) baixo astral. Não é fácil, porque nós ocidentais vemos o tempo como uma coisa neutra. Para nós, o tempo é quantitativo. Tem-se “muito tempo” ou “pouco tempo” para fazer um trabalho ou para viver e ficamo-nos por aí. O tempo é uma linha, que vem do passado e se prolonga no futuro, onde vamos pondo “toppings” (jantaradas, idas ao cinema, reuniões, paixões, impostos...). Sim, às vezes falamos de “quality time” se nos queremos referir ao (pouco) tempo que temos para passar com os nossos filhos, mas é uma exceção, uma nota de rodapé... mais um “topping”.

Um povo, no entanto, não pensava assim. E pode ajudar-nos a refletir sobre a forma como vivemos este tempo presente. Para os judeus da Bíblia havia dois tipos de tempo, que se opunham. Um tempo de abertura e expansão. Um tempo de contenção e recessão. Até aqui nada de novo. Nós também dizemos coisas destas. Mas as implicações desta conceção são originais. Já vai perceber porquê.

Para os judeus não havia maior calamidade do que tentar viver ao contrário do seu tempo. Rir em tempos de choro não era sinal de esperança, era ser louco. Curar em tempos de morte não era louvável, era um crime. Amar em tempos de ódio, uma inconsciência. Investir em tempos de recessão, um absurdo. Para eles, era o mesmo que plantar cereais no outono. Não se fazia. O tempo era, se quiser, um país com regras próprias que não podiam ser violadas. Uma espécie de “em Roma, sê romano” com roupagem hebraica. O tempo era psicológico e impunha-se à “psicologia” das pessoas que o viviam.

Saber em que tempo se vivia era, assim, um bem de 1ª necessidade. Para isso existiam os profetas, diz-nos Albert Nolan no magnífico “Jesus antes do Cristianismo”. Indivíduos com dons especiais capazes de ler os sinais de Deus, o Senhor do Tempo. As palavras dos profetas diziam às pessoas o “tipo de tempo” em que viviam, o que lhes permitia adequar o seu comportamento e o seu tom de voz ao momento vivido. São João Batista e Jesus Cristo – para citar os mais conhecidos – viveram no mesmo tempo “histórico”, mas pregaram tempos radicalmente diferentes. João anunciava tempos de abstinência e arrependimento. Jesus, que lhe sucedeu, mesmo se nascido apenas 2 anos depois dele, veio anunciar novos tempos de libertação e amor.

Tempos difíceis estes, para criativos. Não porque haja menos dinheiro (menos orçamento, mais imaginação), mas porque a criatividade genuína corre o risco de ser vista como uma anomalia.

No reino da criatividade ao serviço das marcas, a filosofia sempre foi de gerar pensamento novo, que crie insights novos, que deem origem a conceitos novos, que façam disparar ideias novas, que permitam pôr na rua (e na net) ações e campanhas novas, que deem vida nova às marcas, que as liguem ainda mais às pessoas, porque lhes dão estímulos novos. No entanto, fica no ar a terrível sensação de que, sem termos consciência, paira sobre nós uma nuvem bíblica. Existe a possibilidade de nós – aqueles criativos que sentem repulsa física por copy-pastes, aqueles criativos que só sentem a pupila dilatar com trabalho que traga algo de novo para as marcas – estarmos simplesmente a viver no tempo errado. Um tempo onde oferecer uma visão nova para uma marca é visto como uma imprudência que deve ser paga com desprezo ou ódio ou indiferença. Uma espécie de racismo anti-criativo, não maldoso ou mal intencionado, não fruto do pensamento de alguém em particular, mas simplesmente sinal dos tempos.

Se assim for, teremos apenas que dar tempo ao tempo. Se o tempo, como vem na Bíblia, for psicológico, ele acabará por mudar. Basta-nos prestar atenção às palavras dos profetas. Um dia ele chega. Se for amanhã, tanto melhor.

("tempo de profetas", do Ricardo Miranda, brand voice concept creator na brandia central- juro que quando souber o que é isso eu traduzo para os leitores - ) 



misterwalk não resiste comentar : o tempo bíblico não nos salvará, já que ele é antítese à criação verdadeira. a salvação, como sempre, virá dos iconoclastas, dos malditos que assim chamamos, porque nos oferecem a saída que ora recusamos pelas vias da nossa mediocridade, aquela que custeia a nossa(falsa)segurança; ora a "permitimos", enquanto nos convém, para logo-logo dar azo ao nosso bom mocismo que trata logo de pô-los no ostracismo que é a mais cruel e segura maneira de trancafiá-los, salvando a sociedade destes elementos distópicos. os resultados que cultuamos - os falso resultados - não resistem a confrontação com o saldo que só a verdadeira criatividade consegue - na propaganda, no marketing ou em qualquer área da vida. com diria o filósofo(que não era profeta mas enxergava o que os deuses querem encobrir e bem antes destes citados) as coisas não ficam ruins porque ousamos ou seja porque buscamos caminhos diferenciados(criativos) as coisas ficam ruins - e os tempos - porque não ousamos. o resto é bull-shit ou conversa bíblica para a boiada dormir.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Young Creatives: put down your f*cking iPhones and learn something* ou aos jovens que envelheceram tanto que nunca serão vintage


Descobri que não sou retrógado, sou vintage. Nada mais vintage do que minhas idéias e minhas roupas. Nada mais vintage do que aquilo que ensino para meus filhos. Alguns “bom dia” ao amanhecer, uns “obrigado”, “por favor” e o incomparável “com licença”, extirpados de nossa língua, podem retornar ao vocabulário sob o manto do vintage.
Tudo que parecia retro na minha já desgastada existência está redimido pelo vintage, seja la o que for isso.
Um dia desses, na ponte aérea, peguei um voo vintage. A pintura do avião remetia ao design de 30 anos atrás assim como o uniforme das comissárias e a vinheta de segurança.
Na pesquisa para esse artigo descobri que um tradicional site de videos pornográficos possui uma categoria de sexo vintage. Resisti a tentação de visitá-lo por considerar que seria muito difícil, aos quase 50 anos, descobrir que ate nisso já fiquei ultrapassado e que por uma concessão da modernidade tornou-se cool fazer sexo da forma como aprendi.
A propaganda, macaca de auditório de toda a modernidade, mesmo que não saiba muito bem o porque, já bebe dessa fonte e nesse processo somos brindados com a linguagem invariavelmente sépia.
Aos adeptos do vintage recomendo esquecerem a forma e resgatarem o conceito. Sugiro recuperarem a criatividade, abrirem mão do discurso fácil, investirem nos talentos, apostarem na maturidade, valorizarem a ética, defenderem as diferenças e os diferentes, condenarem a juniorizacao, não terem medo da opinião, não se submeterem as hegemonias, enfim tudo o que parecer meio démodé (assim como a palavra démodé), pode voltar a ter um lugar ao sol.
A ousadia deveria ser o símbolo do vintage, só assim podemos resgatar a propaganda de duas décadas atrás e reconquistar o espaço de vanguarda (olha a vanguarda ai gente) perdido para a mediocridade.

Tornei-me vintage sem saber, quase que naturalmente e estou muito feliz com esse processo. Acredito que a propaganda pode se beneficiar do momento e promover o resgate dos valores que construíram esse negócio no Brasil. Foi por conta dos questionamentos relevantes que nos transformamos em uma indústria e não, como pensam alguns, pelo modelo que adotamos. Nosso modelo é conseqüência do debate exaustivo, postura que os modernos execram e que agora pode retornar à cena.
Nosso negócio, composto por anunciantes, agências e veículos, precisa reaprender a debater os “assuntos proibidos” ceifados da pauta pelas conveniências de alguns poucos, diga-se de passagem.
A vantagem de ser vintage é não temer a condenação por pensar diferente e isso, me desculpem os Juniores, não é um estilo datado de nominho pernóstico, isso é um processo, uma opção que a muito a propaganda cedeu à “cultura da sobrevivência”, que, no final das contas, é o que está nos matando.


(meu eu vintage, do andré porto alegre, no portal inteligemcia(com m mesmo) do madiamundomarketing)

* título em inglês do copyranter

sexta-feira, maio 21, 2010

país de cardeais

De uma hora para outra eu passei de herói a irresponsável, com direito a tratamento de bandido.
Corria a década de setenta e eu, na Norton, recebi a incumbência de cuidar de

um produto de limpeza da Cyanamid. A verba era pequena, e o concorrente era

Fúria, que veiculava uma agressiva campanha, cujo conceito era o furacão

branco.

Com aquilo na cabeça, fui ao cinema. Vi, então, um documentário onde duas

pessoas, com enorme dificuldade e enfrentando um baita perigo, lavavam o

Cristo Redentor. Bingo, pensei. Vou promover a lavação dele, com o produto da

Cyanamid.

Mas como?

Fácil, imaginei. Lembrei-me de que naquela época Sílvio Santos promovia, com

grande sucesso, uma gincana entre entidades filantrópicas: quem completasse a

tarefa em primeiro lugar, ganhava um baita prêmio. Foi só juntar as coisas.

Junto com a produção do programa criamos e colocamos em execução um

plano. O programa faria o desafio, a Agência se entenderia com a administração

do Cristo Redentor e ambos tomariam todas as medidas necessárias de

segurança.

As providências foram tomadas e as coisas iam às mil maravilhas. Dentro da

agência o ambiente era de entusiasmo e eu tratado como gênio. A notícia

chegou nos Estados Unidos e a diretoria matriz avisou que viria ao Brasil só

para assistir ao evento.

Aí aconteceu o imprevisível. O cardeal que na ocasião das tratativas estava

viajando, retornou. E informado do fato não gostou. Nem um pouquinho:

“O que¿ Cristo transformado em garoto propaganda¿ Não admitido.

Cancelem!”

Cancelaram. Quase em cima da hora. O cliente ameaçou tirar a conta da agência

e eu, ex-herói, fui colocado na geladeira.

“Irresponsável! Como você foi ter uma idéia maluca dessas¿”


Por força das minhas responsabilidades na área pedagógica, adquiri o hábito de recortar anúncios publicados em jornais em revistas do país. Chamo isto de dissecar cadáveres.

Como se faz nos Cursos de Medicina, procuro descobrir, através deles, as doenças. A saúde também, embora não esteja certo de que naqueles Cursos essa ação esteja voltada para sacar a saúde dos cadáveres.

Não sei se isso está me fazendo bem. Tenho visto tanta peça, tanta campanha ruim, tanto lugar comum, tanta repetição de cenas, tanto anúncio ilegível, tanta droga que me sinto mal.

Outro dia me disseram:

“Os tempos mudaram. Hoje, os clientes interferem mais.”

Engano: os clientes interferem, ou tentam interferir, como sempre. A questão é: as defesas do trabalham não convencem.

E não convencem por falta de argumentos. Ou por covardia.

Quem cria, quem planeja, quem apresenta o trabalho ao Cliente, tem de ser macho, ainda que a apresentação seja feita por alguém do sexo feminino. Tem de assumir o risco, se estiver apresentando uma boa idéia. E assumir as consequências, se não der certo.


Se a idéia revolucionária que apresentou não der certo, você pode ser chamado de irresponsável. Até perder o emprego. Paciência.


Sua consciência estará em paz. E seu valor será reconhecido logo em frente, talvez até pela mesma agência que o(a) demetiu. E pelo cliente que recusou o trabalho.

(de mocinho a bandido, do eloy "enciclopédia" simões, no acontecendo aqui.