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quarta-feira, abril 13, 2011

o texto, o verdadeiro senhor dos anéis


Um administrador recém-formado perguntou a um empresário, de 78 anos, por que ele não contratava um gestor profissional para dar sangue novo à sua organização. O experiente senhor, de calos nas mãos, foi incisivo: “o novo pode não entender o velho que eu soube construir com alma e destemor”.
O velho jornalista teme o novo tecnológico, enquanto o novo jornalista não quer saber do velho jornalismo, notório pela qualidade do texto e teimoso no questionamento dos fatos.
O jornalismo pré-tecnológico era avesso à pressa, em razão de se preocupar com o texto harmonioso, exemplar e atrativo. A preocupação em cobrir os últimos fatos do dia igualava-se à inquietação com o ineditismo da grande reportagem, que tanto focava um acontecimento importante como transformava um pequeno episódio – como, por exemplo, uma senhora de 90 anos pedindo esmola – em uma obra literária. Esse era o jornalismo paciente, que esperava mais de 10 minutos para uma notícia de agências nacionais e internacionais, de apenas 30 linhas, se completar nas longas fitas de papel do telex. Hoje, em 10 minutos, há centenas de notícias na internet.
Sim, ponderaria o leitor, mas hoje há milhares de informações que precisam ser divulgadas.
Será mesmo?
O jornalismo tem que estar na velocidade da informação? A instantaneidade é sinônimo de jornalismo moderno?
A avalanche de informações estimula a neurose jornalística e, assim, sites e jornais vivem preocupados em concorrer com o cidadão que dispara no twitter um acidente que acabara de presenciar. O jornalismo quer comandar a mídia social, esse oceano onde todo mundo tem direito a mergulhar, pescar e tornar prazerosa qualquer outra atividade. Twittar uma informação de primeira mão, como a surpresa de ver Paul McCartney no aeroporto de Londres, não é jornalismo e sim fazer valer a ansiedade de comunicar algo com a rapidez estimulada pela tecnologia. É a vontade de conversar, como antigamente se percorria a rua principal da cidade para fofocar ou alimentar discurso com amigos.
O bom jornalista, por sua vez, não se preocuparia em apenas assinalar a presença distante de McCartney, mas, quem sabe, correr para ouvir dele a confirmação do seu show no Rio de Janeiro ainda este ano. No bamboleio da informação e da interatividade, o cidadão cultiva o seu prazer e a ansiedade. E o jornalista? Também! Parece tornar a profissão um trampolim para estar dedilhando e se encontrar no mundo da cibernética. É esse o papel do jornalismo?
O jornalista não larga a telinha do computador, nem mesmo para olhar nos olhos do entrevistado, que ele prefere ouvir pelo messenger, facebook ou com perguntinhas banais por e-mail. Não há mais questionamento. A fonte de informação é um emissor passivo, livre de admoestações do jornalista.
A esquizofrenia da velocidade está levando o jornalista a competir com a ansiedade do cidadão tecnológico. E nisso predomina o alto risco de tornar comum a pergunta: “você também se acha um jornalista?”
Ora, nessa vala comum do cenário de neurastenia virtual, o jornalista precisa se desacelerar, imunizar-se contra a febre da instantaneidade, que torna hilário o comportamento do ser humano no carro, metrô, ônibus, nas ruas, cinema, restaurantes, onde o ser humano fixa olhos na pequena maquininha e não enxerga mais ninguém, nem mesmo o amigo que corta a sua frente. E nesse tic-tac entre o flash do pensamento descartável e o dedilhar do teclado, o jornalista vê o tempo disparar sem perceber que a sua profissão se dissipa no deserto da informação, trazida e levada pelo vento aleatório.
O jornalismo precisa alimentar e enriquecer o diferencial da notícia em relação às informações que circulam aos milhares na mídia social. E esse diferencial é a fundamentação da informação, a atratividade de um bom texto e, sobretudo, a boa pauta capaz de transformar fatos cotidianos, episódios, cenas políticas em reportagens interessantes. Ou seja, o jornalista precisa despreocupar-se com o fato instantâneo e descartável e trabalhar uma boa pauta.
E as novas gerações cibernéticas querem saber de texto jornalístico elegante? O jornalista deveria ser o último a duvidar disso, sob pena de armar-se com esse falso argumento para banalizar o seu próprio texto.
O Dia do Jornalismo, hoje, 7, não deixa de ser um ótimo momento para uma profunda reflexão. A propósito, você jornalista se considera um cidadão tecnológico ou ainda um jornalista? Qual a nota que você dá para o seu texto?

(voce também é jornalista? do laudelino josé sardá,, para o acontecendo aqui.

terça-feira, outubro 13, 2009

o jornalismo do joio e o trigo(que pode ser cultivado sem lucro?)

Não faz mais nenhum sentido chamar de Jornalismo o que fazem as corporações de mídia. Quem se preocupa com o lucro em primeiro lugar não é uma instituição jornalística. Não pode ser. Quando uma empresa passa a ter como principal meta o lucro, essa empresa pode ser tudo, menos uma instituição jornalística. E aí não importa a quantidade de estrutura e dinheiro disponível, pois a prática jornalística é de outra natureza.

Exemplo: eu posso passar uma semana no Complexo do Alemão com um lápis e um bloco de papel. Posso chegar até lá de ônibus. Posso bater o texto num computador barato. Mesmo assim, se a publicação para onde escrevo for jornalística, vou ter mais condições de me aproximar da realidade do que uma matéria veiculada pelas corporações de mídia.
Essas podem dispor de toda a grana do mundo, de carro com motorista, dos gravadores mais caros, das melhores rotativas, de alta tiragem e de toda a publicidade que o dinheiro pode comprar. No entanto, se não forem instituições jornalísticas, elas dificilmente se aproximarão da realidade da favela, isso quando não a distorcem completamente.

Existem outros exemplos para além da questão da favela. É o caso dos venenos produzidos pelas Monsantos da vida, que nunca são denunciados pelas corporações de mídia. Ou da retomada dos movimentos de libertação na América Latina, vistos como “ditatoriais”; a perseguição aos movimentos sociais e aos trabalhadores em geral; a eterna criminalização da política, de modo a manter as instituições públicas apequenadas frente ao poder privado. Enfim, você pode olhar sob qualquer ponto de vista que não vai enxergar Jornalismo.

Isso precisa ficar bem claro. Claro como a luz do dia. Pra que as corporações pareçam ridículas quando proclamarem delírios do tipo: “somos democráticas”, “únicas com capacidade de fazer jornalismo”, “imparciais” e por aí vai. Fazer Jornalismo não tem esse mistério todo. Em síntese é você contar uma história. Essa história deve ter alguns critérios que justifiquem sua publicação. Alguns deles aprendemos nas faculdades e são válidos; outros são ensinados, mas devem ser vistos com cautela. E outros simplesmente ignorados. Mas, no fundo, o importante é ser fiel ao juramento do jornalista profissional:

“A Comunicação é uma missão social. Por isto, juro respeitar o público, combatendo todas as formas de preconceito e discriminação, valorizando os seres humanos em sua singularidade e na sua luta por dignidade”.

Essa frase, quase uma declaração de amor, não é minimamente observada pelas corporações de mídia. Vejamos: elas não têm espírito de missão, não respeitam nada, nem as leis, estimulam o preconceito, discriminam setores inteiros da sociedade, violam os direitos humanos e não sabem o significado da palavra “dignidade”.

Mas por que o Jornalismo é tão importante para uma sociedade? Porque hoje, devido ao avanço tecnológico dos meios de comunicação – são praticamente onipresentes nas sociedades contemporâneas –, a mídia assume uma posição privilegiada no tocante à produção de subjetividades. Ou seja, a mídia, mais do que outras instituições, adquire enorme poder de produzir e reproduzir modos de sentir, agir e viver. Claro que somos afetados por outras instituições poderosas, como Família, Escola, Forças Armadas, Igreja, entre outras, mas a mídia é a única que atravessa todas as outras.

Fica claro, portanto, que uma sociedade será melhor ou pior dependendo dos equipamentos midiáticos nela inseridas. Se forem instituições jornalísticas sólidas e competentes, mais informação, dignidade, mais direitos humanos, mais cidadania, mais respeito, mais democracia. Se forem corporações pautadas pelo lucro, ou seja, entidades não-jornalísticas, menos informação, menos dignidade, menos direitos humanos, menos cidadania, menos respeito, menos democracia.

É por isso que eu sempre digo aqui, neste modesto, porém Jornalístico espaço: as corporações de mídia precisam ser destruídas, para o bem da humanidade! Em seu lugar vamos construir instituições jornalísticas. Ponto.


( é preciso reconceituar o jornalismo, na carta capital, do marcelo salles, coordenador da caros amigos no rio de e editor do www.fazendomedia.com.)

quarta-feira, abril 22, 2009

inaptidão inata

Eu nunca fui um bom gestor, não apenas por incompetência administrativa, mas por certas limitações de cunho ético, o que, reconheço, não deixa de ser também uma espécie de incompetência. Durante minha experiência como empresário, limitei-me e limitei companheiros de trabalho em ações que agrediam a alguns princípios que ajudaram a nortear em mim uma idéia de correção de conduta. Uma coisa perene e, na maioria das vezes, totalmente desalinhada com as atitudes esperadas de um business manager de qualidade. A essa minha incompetência inata ou cultural, soma-se uma resistência doentia à adoção ou, pelo menos, ao simples reconhecimento de algum mérito nos métodos impiedosos de conquista de mercado e de desenvolvimento empresarial, comumente saudados como próprios dos líderes vencedores. Se isso não me ajuda a fazer fama e fortuna – e, certamente, não ajuda a ninguém (portanto, não sou um bom exemplo para jovens ambiciosos) – tem um aspecto interessante: permite que eu me horrorize com certos conceitos. Isso é bom? Isso é ruim? Não sei dizer, mas, bom ou ruim, acho que é importante. Há quanto tempo você não se horroriza com alguma coisa? Cuidado: horrorizar-se não é reagir com o clássico comentário “fazer o quê, né?”. Horrorizar-se é ser tomado por uma indignação justa, sincera e involuntária. É ser tocado nas entranhas de certas convicções, que não distinguem se a barbaridade é um caso de marketing ou de pedofilia, por exemplo. Um filtro único estabelece os limites da nossa tolerância aos atos e suas justificativas. As reações podem variar desde se armar um barraco em praça pública até escrever um artigo, cuidando civilizadamente de não personalizar a crítica, mas fazê-la apontada a uma prática, neste caso absolutamente legal, aceita com naturalidade e enaltecida pela eficácia. Semana retrasada a coluna do nosso companheiro Francisco Madia – “Ambev: vedando as frestas” - me chocou. Aguçado por uma curiosidade incontida em esclarecer se só chocou a mim, resolvi explorar o assunto na coluna. Tenho consciência de que escrevo em um veículo especializado em propaganda e marketing, daí minha necessidade de saber se a minha reação faz algum sentido ou se, quem sabe, aos poucos, me vou convertendo definitivamente num peixe fora d’água. O colega começa citando Henri Michawx: “Se o lobo se apiedasse dos cordeiros, morreria de fome.” E, com isso, sustenta a tese de que a multinacional belga Interbrew (no Brasil, Ambev) acerta em seus procedimentos de preservação e conquista de mercado. Diz Madia “O líder é impiedoso. O líder não pode vacilar. Como lembram Ries e Trout, todo e qualquer movimento dos concorrentes, por menor que seja, tem que ser rechaçado à força, na porrada e, se possível, de forma exemplar e com humilhação (...)” Ave Maria! O fato é que não me agrada que uma multinacional cervejeira belga humilhe e dê porrada nas pequenas cervejarias brasileiras. Pode ser um nacionalismo idiota, mas preservá-lo ajuda a levantar uma bandeira justa contra o monopólio em voga. O nosso Madia enaltece, ainda, o fato da Ambev “cutucar” as pessoas, oferecendo cerveja estejam elas aonde estiverem: na praia, no supermercado, no aeroporto, no cinema... Bons tempos em que tomar uma cervejinha era uma decisão do consumidor, obedecendo a certos critérios: um encontro no boteco, um churrasquinho em casa... Hoje, o consumo de cerveja virou uma decisão de marketing: o prazer deixou de ser o de beber para se tornar o de vender. Ruy Castro, na Folha de S. Paulo, ironizou o fato do Brasil ter proibido que a marca Free de cigarros fosse associada a um evento freqüentado, basicamente, por velhos fumantes e beberrões – o Free Jazz Festival – e, ao mesmo tempo, permitido que um equipamento voltado basicamente para menores de idade – a tal roda gigante da Lagoa, no Rio de Janeiro – fosse patrocinada pela cerveja Skol. Bem lembrado. Mas tudo faz parte da estratégia que sai da cabecinha do líder ambicioso. Isso traz vantagens pessoais, como salários estratosféricos e bônus que, anualmente, transformam executivos em milionários. Mas também não deixa de ser uma ameaça. Porque essa ostensividade arrogante tem acelerado a criação por parte dos legisladores de mais e mais propostas limitadoras da promoção do consumo de cerveja, o que, por sua vez, torna o exercício do lobby uma prática cada vez mais inflacionada. Enfim, o lobo come os cordeiros até levar um tiro certeiro no meio da testa.


( cruz credo, companheiro! do stalimir vieira, em 22/9/2008, mas pelo visto, infelizmente,por muito tempo de conteúdo cada vez mais atual)