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terça-feira, janeiro 21, 2014

"certas canções"



Em uma recente entrevista, Fernanda Montenegro revelou o seu medo de perder a memória. Na mesma hora, digitei o seu nome no Google e fiquei pesquisando as imagens da história dessa atriz. Ali estão os diversos personagens, as múltiplas cenas, os incontáveis momentos. Uma vida longa, repleta de pequenas outras vidas. Porque é do ator esse privilégio. Ele pode ser muitos, pode ser outros. Tem a licença para exercitar as suas facetas mais sombrias. Por um breve instante, pensei que para Fernanda Montenegro realmente seria mais sofrido do que para nós, reles mortais. Não é. A perda da memória assusta tanto porque é perder a si mesmo. É como caminhar na areia e se ver em uma praia deserta sem passos. De repente, não sabemos mais como chegamos ali. 

No sensível livro “Days with my father”, o fotógrafo Phillip Toledano registra o seu pai lidando com esse fato. Com a “não memória”. Em uma das fotos, há uma anotação em um caderno que diz “where is everybody?”. É a síntese do desespero. Um homem devastado que não mais se reconhece. Por outro lado, a memória que guarda um manancial de boas sensações é a mesma que pode tornar-se um flagelo. Por fazer com que você reviva nitidamente coisas que deveriam ter ficado no passado. Tenho cá para mim que a capacidade de esquecer alguns acontecimentos deixa o ato de perdoar muito mais simples. Nesse pensamento, relevar é também sublimar um sentimento. Falo disso porque tenho uma memória aguda para fatos e sensações. Guardo cada detalhe das coisas boas que me marcaram. E guardo também o ressentimento. Porque sou incapaz de esquecer o dia, a hora, o tom e o que foi falado. Nem os que aconteceram comigo, nem os que ocorreram com as pessoas de que eu gosto. É tudo vivo demais. Por mais que eu tente me livrar, acabo sendo acometido daquela mesma sensação. Sendo assim, perder a memória seria de bom grado. Ou, quem sabe, poder apelar para a empresa do “Brilho eterno de uma mente sem lembranças.” E apagar seletivamente alguns machucados não curados. 

Não andarei aqui pelo flagelo. Prefiro mergulhar no manancial. Lá está guardada uma aula com Saburo Kobayashi. Um enfático japonês que foi o General Manager da Divisão de Planejamento Corporativo da Honda. Por diversas vezes na sua aula, ele se dirigia aos alunos com o simpático adjetivo: estúpido. Nunca ter sido chamado assim me fez tão feliz. Porque era verdade. Eu estava de frente para o homem que inventou o airbag. Sim, o airbag.

Aí você pensa: moleza. Ele teve a ideia do airbag, todo mundo comprou e foram felizes para sempre. Ledo engano. Por 16 anos, ele brigou para que o projeto saísse do papel. Como diz o meu compadre Marco Monteiro: “Ideia é que nem carro alegórico: se todo mundo não empurrar, não vai para a rua.” A possibilidade de um airbag era tão estranha que, certa vez, os próprios funcionários da Honda a elegeram como a ideia mais idiota daquele momento. Nada disso impediu Kobayashi de seguir em frente. O que até me faz pensar que 11 meses brigando por um animatic nem é tão sofrido assim. 

Na Honda, se um funcionário apresentasse a mesma ideia por 3 vezes seguidas, todos tinham que acatar. Porque era um sinal claro de que aquela pessoa acreditava muito no que estava fazendo. O próprio Sr. Honda apoiou todo o processo de pesquisa para que o airbag virasse uma realidade. Um dia isso aconteceu e nenhuma alma viva se lembrou de registrar a patente. Afinal, ninguém sabia se aquilo seria mesmo um sucesso. Havia, até o último segundo, uma dúvida. Hoje, o airbag já salvou tantas vidas que a patente é algo menor na história. Kobayashi pode se dar ao luxo de dizer, do alto da sua elegância, que ofereceu um presente para toda a humanidade. A aula foi tão intensa que anotei algumas frases que passei a chamar de Regras de Kobayashi. Tomo a liberdade de comentar algumas delas. 

“Inovação não é uma coisa lógica. Não tente entender.” O que pode ser traduzido como: que tal parar de racionalizar tudo? 

“Se você não consegue explicar a sua ideia para um leigo, você ainda não a entendeu.” Pessoas que enrolam demais para falar raramente apresentam uma grande ideia. Buscam disfarces para camuflar o que não existe. Capricham no laço e se esquecem do presente em si. Roubo uma definição do George Tannenbaum, do blog Ad Aged, que diz que quanto maior a palavra, menos ela significa. Não à toa ideia é tão curta. E ainda lhe tomaram o acento.

“Experts: pessoas com conhecimento suficiente para matar a inovação.” Essa, se eu comentar, estraga. Prefiro que ela continue afiada como a lâmina de samurai. 
“O CEO estúpido diz: lucro é o nosso objetivo, quando dar valor deve ser sempre o principal objetivo.” Gere valor para a sua marca e os consumidores comprarão até sem saber o porquê. Busque apenas o lucro e eles comprarão até que algo mais interessante apareça.

“Sem paixão, você não consegue gerenciar uma equipe. Muito menos uma marca.” Desconfie de pessoas que seguem os seus comandos sem questionar nada. Se você é cliente, prefira uma agência que discuta as suas ordens do que uma que siga cegamente. É mais chato, mas o resultado é melhor. Se você é chefe, desconfie de uma equipe que executa toda e qualquer ordem sem confrontar. Ninguém é tão assertivo assim. Como diz o meu guru Dave Trott: “Question the question.”

“Se 9 de 10 pessoas concordam com a sua ideia, é tarde demais. Se 9 de 10 discordam, você pode ter um diamante.” Não procure por um senso comum. As pesquisas já fazem isso e o resultado é uma catástrofe.

“Paixão e caos são as mães da inovação.” Se você tem tudo esquematizado, o resultado será previsível. Do início ao fim.


“O preço de ser um lobo é a solidão. O preço de ser uma ovelha é o tédio.” 
Cabe a você escolher que preço quer pagar. Você pode seguir no rebanho reclamando. Ou pode decidir ser o reclamado. Pessoalmente, posso dizer que, para um filho único, a solidão é um preço que se paga mais fácil.


Caminho na praia e olho para essas frases como se fossem pegadas fundas na areia. Elas vão ao encontro do que acredito. Tomo como se fossem minhas. Meus valores foram confirmados aos gritos de “estúpido”. O medo do desaparecimento da memória diminui ao perceber que os valores nunca são perdidos. Quando alguém perde é porque nunca os teve de verdade. Ando em frente. O mar não vai apagar.
 


(O preço de ser uma ovelha é o tédio, do andre kassu, no M&M)


sexta-feira, dezembro 15, 2006

job pra que te quero ou tem muita coisa que não bate coisa com coisa

Não. Não é o trabalho que eu odeio. Odeio essa palavra. Por quê? Porque é um estrangeirismo, é mais um que invade a nossa praia. Neste caso específico, desta palavra que não vou mais escrever, a culpa é do mercado publicitário, que a-d-o-r-a anglicismos. Se o nome da coisa significa trabalho, então porque não usar simplesmente trabalho? Alguém vai poder cobrar mais caro por utilizar a palavra em inglês? Somos mesmos uma bestas, colonizados escumalhas assumidos, não acreditamos que somos donos da nossa terra. E o pior: não damos valor a ela.

Preferimos dar nomes de prédios com nomes de cidades dos Estados Unidos, Green Park, Red Valley, Oklahoma. Temos um repertório vastíssimo de termos originais e relacionados com a nossa cultura indígena mas isso fica para uso restrito em aulas de Antropologia. Ou então em papos-cabeça de udi-grudis que salvam o mundo a cada rodada de cerveja.

Fala sério, um case não pode ser um caso? Ou caso é só para quem tem amante? E Branding então? Pode? É construção de marca. Então escreve a fala: construção de marca. Todo mundo vai entender. Brain Storm é ótima. Merece parágrafo inteiro. O "boss" da agência (CEO para os mais modernos) chega e convoca a cambada toda pra aquela famosa reunião de onde certamente sairá uma idéia genial da próxima campanha. Até a mulher que serve cafezinho tem sua chance de opiniar. E se vier dela a melhor idéia? E não é que veio. Na hora, ganhou roupa nova paga em oito vezes na Renner e virou trainée... O telefone toca e a secretária justifica, ninguém pode ser interrompido. O interlocutor insiste, quer saber o que está acontecendo. "é um tal de braistoch", responde ela, fazendo voz de locutora.

Vamos sair do mercado publicitário, porque a esta altura a categoria já me xinga bastante, em inglês, espero. Antes de cambar de bordo, lembro de uma que é um "must" (saiu mais uma): Outsourcing. Daí, é assim. Quem sabe o significado usa a expressão com naturalidade. Quem ouve e não sabe, faz um ar blasé de que entendeu. Não tem a mínima idéia do que se trata, mas não pergunta nada porque considera que isso será um atestado de burrice. Imagina, não saber falar sobre outsourcing ou downsizing. Um absurdo. Melhor de tudo é ler que a fulana agora é cake designer. Muito legal. Na verdade, ela é uma doceira. Mas como a clientela é chique e tem bala - socialites - coloca cake designer no cartão e aí pode cobrar mais caro. Quer estacionar? Chame um vallet. Ele vai entregar um flyer, não tem? É que a festa é do tipo open bar e open kitchen. Tem chill out e lounge. Sofá não tem. Não está escrito que vai ter. Olha só, adoro quem sabe usar o verbo coisar. Estou tentando aprender. Daqui a pouco chego lá.

odeio job, adoro coisar, do marcos heise

talvez o marcos tenha razão. só ontem eu, que não sei nem conjugar o verbo to be no present tense, usei quase uma dúzia de termos.
por outro lado, também estou cansado de ver um bando de mba de ladeira arrotar sabedoria de gogó porque a mama pagou-lhes um curso de inglês em casa de burguês.
bluff por bluff fico com a imperfeição dos sotaques das verdades do meu.