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terça-feira, fevereiro 10, 2015

também o drama dos publicitários: antes, durante e, principalmente, depois

....no labirinto do filme, os caminhos desembocam numa ordem: a urgência contraditória de ser e ser visto e, ao ser visto, ser amado e admirado.... 


 o que é muito improvável na publicidade (ser amado).


No caminho do cinema, deslizei o dedo pela ultima vez na timeline do celular e esbarrei em duas leituras tão contundentes quanto díspares sobre Birdman, filme de Alejandro Gonzalez Iñarritu favorito ao Oscar deste ano. Uma das leituras exaltava as qualidades técnicas do filme - a fotografia entre o escuro dos bastidores e as cores do palco e da rua, a sequência sem cortes perceptíveis, as referencias de Hitchcock a Antonioni, passando por Fincher e Lynch, a atuação de Michael Keaton, o retrato do mundo da fama, dos críticos, do nosso medo da invisibilidade. Outra leitura apontava uma lista de clichês sobre o heroi em crise americano: o grande ator e mau pai de família, instável e inseguro, que brilha na tela e sofre no camarim.
Ao fim da sessão, levei algum tempo para listar minhas próprias impressões, sem exatamente discordar com o que havia lido até então. A primeira delas é que, de fato, Iñarritu conseguiu um feito e tanto ao amarrar tantas possibilidades de leitura quanto cabiam em um cenário, entre o claustrofóbico e o labiríntico, pelo qual todos os caminhos levam ao teatro. No filme, há um público do lado de dentro e outro do lado de fora, mas só nós, os espectadores do cinema, temos a prerrogativa da onisciência. Ela nos dá a possibilidade de buscar, por nós mesmos, quem são os homens por trás das máscaras apresentadas em sequência. É algo mais do que buscar o rosto real entre a peruca e as rugas (captadas em proximidade) de Riggan Thomson, personagem de Michael Keaton: ambos, em tese, são mais conhecidos por suas fantasias, a do Batman e a do Birdman, e levaram anos se estapeando em papeis menores até encontrarem um figurino que abarcasse o tamanho de suas pretensões.
Nessa interseção, Iñarritu mostra que os caminhos do sucesso e do prestigio são só aparentemente distintos ou anuláveis. Thomson quer se ver livre da máscara que lhe deu a fama. Quer provar que não é, ou não foi, apenas um rostinho bonito (e coberto) a serviço da indústria do entretenimento. Pena, no entanto, para se dissociar da velha imagem e encontrar a própria identidade. Seu personagem na franquia de super-heróis, afinal, era amado. E era amado porque levava o público a uma fantasia perfeita montada sobre maniqueísmos e efeitos especiais. Mas a arte não é entretenimento, insiste o personagem-ator. Arte é questionamento. É provocação. É precisão. É atuação na medida exata, portanto. Daí a obsessão em levar à Broadway uma peça adaptada a partir de um texto de Raymond Carver, dramaturgo que, anos antes, incentivou o protagonista a se transformar em ator – graças a um elogio escrito a mão em um guardanapo de papel. É o primeiro de três papeis literais, vulneráveis e simbólicos, do filme.
A operação hercúlea para levantar mundos e fundos pelo projeto artístico, portanto, é nada mais que um projeto pessoal. Nas linhas labirínticas do cenário, não são apenas as vaidades de atores e personagens que se cruzam e confundem os limites entre o cálculo humano e a atuação. Confundem-se também as fronteiras entre o que é entretenimento e o que é a grande arte. Em uma das cenas, Thompson cita os nomes de grandes atores contemporâneos que poderiam integrar o elenco de sua peça. Desiste quando se dá conta de que todos estavam comprometidos nas filmagens de franquias de super-heróis, entre eles Michael Fassbender e Robert Downey Jr. Essa fronteira fica ainda mais confusa quando Thomson esbarra nos caminhos em direção à legitimidade de seu trabalho: o controle do elenco e a intransigência da crítica.
No filme, todos parecem conectados com os novos signos dos circuitos de consagração, quase todos calculados em compartilhamentos, retuítes e número de visualizações. E daí?, pergunta-se Thomson antes de concluir que um cachorrinho fofo brincando com uma bola também é um fenômeno de cliques e compartilhamentos.
Noves fora a parafernália tecnológica das grandes franquias, o voo mais alto de um artista é quase uma concessão entre o humor, o ressentimento e a preguiça das vozes autorizadas: os críticos que escrevem à mão e mal se dão ao luxo de conferir o objeto analisado. Mas quem deu aos entendidos o cálculo de uma fronteira e outra? Quem garante que esta fronteira não é, em si, uma criação aleatória (e por isso arbitrária)? O que move e o que valida o espetáculo é só, e não apenas, a vaidade.
As perguntas sobre o preço dessa empreitada podem não ser novas, mas, em Birdman, parecem colocadas num contexto providencial. A cada investida, Thomson se transforma na alegoria de um imperativo contemporâneo: o olhar do outro define quem eu sou. Ainda que este olhar seja uma construção arbitrária. Enquanto tenta, em vão, exercer o controle sobre a própria peça, o ator-personagem recebe ordens sobre o que e como fazer, mas as previsões dos entendidos, dos colegas de palco à indolência da crítica, são desmentidas o tempo todo pelo imponderável. Numa das cenas, ele é humilhado por Mike Shiner, personagem interpretado por Edward Norton chamado a compor o elenco da peça para atrair o grande público. Shiner leva longos minutos para mostrar a Thomson que ele é um ator liquidado e que depende do prestígio dele, Shiner, para não transformar sua peça em um fracasso. No mesmo instante, uma família pede para tirar uma foto com o ídolo – e ignora solenemente o rosto que garantiria o sucesso do espetáculo.
Esse reconhecimento parece pouco para quem, perto dos 60 anos, ainda incorpora na vida real a confusão entre ser admirado e ser amado. Estes parecem caminhos excludentes, e a inexistência de um meio-termo entre eles leva o protagonista a um quase estado de demência. O drama dele é, assim, o drama de todos nós. Afinal, o que fazer para não ser esquecido? Do que mais é preciso abrir mão, além da própria identidade, em nome dessa consagração?
Em seus filmes anteriores, quando contava com a parceria do roteirista Guillermo Arriaga, Iñarritu mostrou como a ação humana, por mais banal que parecesse, possuía alcance tão inescapável quanto destruir. No mundo globalizado de Babel, por exemplo, o hobbie do pacato cidadão japonês é o pivô de uma crise diplomática entre os EUA e o Marrocos, entre o mundo ocidental e o tribal. O mesmo acontecia em Amores Brutos e 21 Gramas: a ação humana, mostrava o diretor, não era jamais um ato isolado, mas uma sequência encadeada e encadeadora de eventos. Nada era acaso, nada era sorte; tudo estava apenas conectado.
Em seu último filme, Biutiful, já sem a companhia de Arriaga, a fórmula de histórias paralelas que se cruzam é mantida, mas a mensagem é distinta. Quanto mais o pai à beira da morte interpretado por Javier Bardem tenta controlar um destino manifesto, mais o destino se mostra inevitável. O destino ainda é uma sucessão lógica de escolhas, mas o papel humano não é outro se não o de espectador. Temos, assim, uma espécie de ensaio sobre a nulidade.
Em Birdman, Thomson nada mais é do que o espectador da sua história - e da história dos papeis incumbidos a ele. A empreitada de tentar domá-la desaba à medida que ele se percebe incapaz de lidar com ele(s) mesmo(s), e não apenas com o sucesso ou a consagração. Pior: a vida que se interpreta e a vida que se vive podem não ser as mesmas, mas não estão desconectadas nem obedecem às demarcações de tempo e espaço do teatro. No filme, no palco ou na plateia, nunca se sabe exatamente onde estão os roteiros, os improvisos ou as dissimulações - nem mesmo onde começa e onde termina a excitação.
No labirinto de Birdman, todas as entradas e saídas se confundem, mas desembocam na mesma ordem: a urgência contraditória de ser e ser visto e, ao ser visto, ser amado e admirado. Cabe a Sam, a filha de Thomson vivida por Emma Stone, o papel (literal) revelador desse vazio. Ela passa boa parte do filme preenchendo um rolo de papel higiênico com pequenos traços de caneta. Descobrimos, em certo momento, que cada traço representa dez mil anos na história do Planeta. Olhada em perspectiva, a história da humanidade era resumida em um pequeno e inexpressivo pedaço de papel, no qual todas as grandes obras foram construídas e fadadas ao esquecimento. Sam parece ser a única personagem que não se importa com isso. Para ela, tanto faz: o sucesso e a consagração artísticas, no fim das contas, servem como passatempo de um público seleto capaz de pagar uma fortuna por um bom assento no teatro ou cinema e cuja maior preocupação, ao fim do espetáculo, é a sobremesa depois do programa. Enquanto fala, o interlocutor, Thomson, desaparece. É então que descobrimos quem é a sua plateia: nós. O alerta tem o mesmo destino de todas as mensagens escritas em papel apresentadas na trama: o descarte. Quem se importa?
Entre tantos truques e referências, Birdman surge como favorito ao Oscar de melhor filme. Parece consagrado antes da premiação, o que não deixa de ser irônico. Nas últimas semanas, não poucos críticos especializados o apontaram como o grande filme da carreira de Iñarritu, de Keaton e de todo mundo que colocou o empreendimento de pé. Parece contraditório, mas, caso leve o prêmio, seria curioso ver diretor e elenco levarem o exercício de metalinguagem às últimas consequências: “Obrigado pela lembrança, mas podem desistir. Estamos todos fadados ao aniquilamento”.
(birdman o drama de todos nós, do matheus pichonelli, na carta capital)

quinta-feira, janeiro 16, 2014

o bonde do role/zinho é o bonde da história.

(houve tempo em que publicitários pensavam criticamente sobre e sabiam escrever tão bem quanto)


Daslu, Danuza e Dá o fora!

Os filhos do porteiro da Danuza resolveram ir ao shopping center. E a justiça de SP autorizou guardas a dizer-lhes: Dá o fora! 


Arquivo

O Brasil tem cerca de 500 shoppings centers.

O conjunto fatura R$ 184 bi por ano, ocupa mais de 11 milhões de m2 - uns 2. 200 campos de futebol; emprega  870 mil pessoas.

Em 40 anos, desde 1996 quando surgiu o primeiro  até 2006, foram erguidos 350 shoppings no país; de lá para cá a expansão foi geométrica e ininterrupta. Nos últimos sete anos surgiram mais 120.

Outros 30 estão previstos para inauguração em 2014.

O país inteiro – capitais e interior — foi tricotado por esses centros de compra e lazer que tem a cara e a permeabilidade  da estrutura social erguida pelo capitalismo por essas bandas.

A rede de shoppings foi planejada para nuclear um público alvo da ordem de 40 milhões de pessoas.

O Brasil tem mais de 190 milhões de habitantes: 150 milhões estão fora.

Uma parcela dos excluídos agora quer entrar.

O rolezinho é uma evidencia da pressão exercida na parede do dique.

Quem quer entrar entende (com ou sem razão) que o Brasil limpo, organizado, atraente, refrigerado, seguro, iluminado, rico, antenado, onde faísca la dernier cru  do consumo e, vá lá, bonito, para os padrões dominantes,   está lá dentro.

Não nas ruas desoladoras e escaldantes  das periferias conflagradas onde vive a maioria dos integrantes do rolê.

Pode-se – deve-se - discordar da matriz de valores que atribui a um bunker do consumo o padrão de sociedade desejável para viver e se divertir.

Mas há razões para isso.

Um dado sugestivo: até o ano passado, apenas 13,5% dos municípios brasileiros dispunham  de uma secretaria voltada exclusivamente para a cultura.

Tê-la não é garantia de grande coisa.

Mas a escala da ausência emite um sinal  da atenção  dispensada a uma  área  que fala diretamente à juventude --e poderia oferecer-lhe um ponto de fuga  à pulsão consumista, diuturnamente martelada  ao seu redor.

Esforços  de investimento público tem sido feitos nessa direção.

O número de cidades com bibliotecas, por exemplo, saltou para 98% em 2012, praticamente  universalizando esse equipamento, restrito a 70% delas  até 1999.

Mas uma biblioteca convencional, de mobiliário imaginável e acervo presumível, em qualidade e quantidade, será um espaço suficiente para satisfazer as expectativas de desfrute, encontro e lazer de quem adere a um  rolezinho?

Em 2007, o governo criou um  Programa para o Desenvolvimento da Economia da Cultura (Procult).

Através do BNDES já financiou a construção ou a reforma de 259 salas de cinema.

Mas a maioria dos cinemas do país fugiu igualmente para o interior dos shoppings por conta da insegurança que também despovoou  praças e jardins, capturados pelo consórcio drogas  & desmazelo.

Apenas 10% dos municípios brasileiros dispõem de cinemas atualmente.

Pesquisa desta semana do Ibope informa que as  ‘classes’ C e D bateram recorde de horas diante da televisão em 2013: média de seis horas e 40 minutos. Por dia.

E convenhamos,  não dá para imaginar que todo mundo vá se reunir numa lan house, presente, aí sim, em 82% da malha urbana e, de fato, encontrável em qualquer bairro ou favela  por mais pobre que seja.

O espaço virtual tem limites.

O rolezinho  se vale da capilaridade digital para convocar os encontros , mas representa ele mesmo (felizmente) a insuficiência da realidade virtual na vida humana.

A dupla insuficiência – material e virtual - misturada a uma revolta difusa, temperada de hormônios e apimentada com o deboche e  o anseio por identidade olha em volta e enxerga o quê?

Enxerga aquilo que distraidamente ou de forma deliberada foi sendo construído nas entranhas da velha malha urbana, e para cujo declínio  contribuiu  ao inocular  a decadência no pequeno comércio, a escuridão no jardim, a solidão no centro velho e o sucateamento do (parco)  equipamento  público.

O shopping  center, a nova cidade brasileira.

Prefiguração  do sonho neoliberal, ela materializa  um ordenamento coletivo onde tudo é privado (leia o blog do Emir, nesta pág).

Por definição, a cidade  da mercadoria  é o jazigo da cidadania.

Não só.

O anestesiante paradigma de  ‘eficiência’ do shopping engorda o descompromisso com que  a elite consumidora  encara  seus deveres  em relação ao espaço coletivo ao seu redor.

Por que, enfim,  pagar mais pelo IPTU se já tenho o que quero e o que a cidade numa terá no shopping  –ainda que esse adicional corresponda, por dia, a uma fração do preço de um cafezinho do Starbucks no Iguatemi?

O rolezinho  sacode o pilar dessa ordem excludente deixando aflorar um conflito que há muito incomoda o conforto  das elites.

Quem não se lembra do ‘transtorno’ que a vizinha favela Funchal causava ao Vaticano dos shoppings centers no Brasil, a famosa Daslu – 20 mil m2 de pura  ostentação, gastos médios de U$ 15 mil/mês por cliente e uma sonegação de imposto de estupendo R$ 1 bilhão?

Ou do desabafo da socialite Danuza Leão, na Folha, em dezembro de 2012?

Inconsolável  com o Brasil do PT, a então colunista lamentava como ficou difícil “ser especial” nesses tempos em que “todos têm acesso a absolutamente tudo, pagando módicas prestações mensais” -- musicais na Broadway, por exemplo, que graça tem se  “por R$50 mensais, o porteiro do prédio também pode ir”.

Os filhos do porteiro da  Danuza resolveram agora  ir ao shopping.

E a justiça de SP autorizou  seis deles a dizer-lhes: ‘Dá o fora!’.

Esse é o capítulo da novela brasileira nos dias que correm.

As raízes desse enredo de  paralelas que agora se cruzam em conflito aberto na porta de santuários do consumo  remetem à mutação inconclusa verificada no país desde 2003.

Qual seja, a pobreza caiu pela metade; o mercado de trabalho atingiu as franjas do pleno emprego;  o salário mínimo ganhou quase 60% de poder de compra, acima da inflação.

A desigualdade continua obscena, mas as placas tectônicas se moveram.

Privilégios  obcecados em preservar  um ordenamento  social patológico defendem como virtude macroeconômica  restituir as fronteiras do conflito original aos marcos do cordão sanitário instituído nos anos 90.

O superávit fiscal ‘robusto’ para assegurar o ganho dos rentistas é um desses marcos.

Outro: o salto adicional nas taxas de juros, até encostar a faca recessiva na garganta da massa ignara.

A crispação em torno dos rolezinhos  mostra o quanto será difícil devolver a pasta de dente ao tubo da história.

Nesse empurra-empurra, subjacente à disputa presidencial de outubro,  há nuances que dizem respeito  diretamente à esquerda.

O  ‘rolezinho’  denuncia  uma dimensão da luta política rebaixada nos últimos anos na conta da ilusão economicista de que o holerite e o crescimento resolviam o resto.

São imprescindíveis, diga-se.

Mas o discernimento histórico que requer a longa  construção de uma sociedade justa e virtuosa nunca será um dote intrínseco  à conquista do legítimo direito de viajar de avião, ou  comprar bens duráveis a crédito, nem tampouco uma qualidade imanente a  governantes eleitos pelos pobres.

Erguer essas linhas de passagem é tarefa das organizações progressistas que se propõem a mudar as formas de viver e de produzir em sociedade.

É delas a obrigação de associar à luta econômica sua contrapartida de ideias emancipadoras que ampliem o horizonte subjetivo para além do consumismo individualista.

Do contrário, o futuro ficará emparedado entre o horizonte do rolezinho e o interdito do dinheiro graúdo.

No limite, ambos poderão se unir em torno de um tênis Nike, contra uma repactuação mais arrojada do desenvolvimento  que implique  outra modulação do consumo.

O mais difícil na luta pelo desenvolvimento é produzir valores, dizia o saudoso Celso Furtado, em palavras  de atualidade inexcedível.

Não apenas esse, mas  sobretudo esse passo  a esquerda deve ao Brasil.

E não parece recomendável adiá-lo mais uma vez  ‘para depois da próxima eleição’.

(editorial da carta capital pelo saul leblom)