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sábado, novembro 02, 2013

quem sabe aplica-se à publicidade (a depender do tamanho da sua cagada)

Aforismo 63
do Tao Te King
 
Quem já foi a palestras motivacionais pela empresa sabe como a coisa funciona. Seu chefe te inscreve, e dá o nome de capacitação. Você entra num auditório e está na presença de seu chefe e seus superiores. Uma pessoa fala manhã e tarde acerca de motivação. Dá exemplos, aponta caminhos, quer te fazer se sentir bem com a vida e o trabalho de merda que você tem. Você sai da palestra com a sensação de que foi enganado, e seu chefe com a ilusão de que resolveu o problema. No fim das contas, as razões pelas quais você está desmotivado continuam lá, e tudo volta ao normal. As palestras motivacionais dão pouco resultado por um motivo bastante simples: elas desmotivam. Sim! Apesar do nome, quando uma empresa recorre à palestra motivacional como método, significa que os empregados já estão desmotivados, e então os pressionam a se motivarem. Praticamente, a empresa está obrigando o funcionário a resolver dentro dele um problema que foi criado pela empresa: a falta de condições em que um empregado esteja devidamente bem com seu trabalho para realizá-lo de maneira satisfatória.
Para os chineses antigos isso seria resumido em uma única ideia: nunca apresse um rio, nem tente retardá-lo. Você não conseguirá apressá-lo, no máximo aumentará a quantidade de fluxo em alguns lugares, e deixará outros vazios, ao ponto de o vazio criar uma necessidade de preenchimento, e o rio, inevitavelmente, voltará. Você não conseguirá retardá-lo, pois a barreira que criou transbordará e inevitavelmente o rio retomará seu fluxo natural. A dica é seguir o fluxo do rio, deixá-lo tomar as rédeas por si próprio. Construa um canal, redirecione a água, faça-a tomar outros rumos, mas faça tudo isso respeitando o próprio fluxo das coisas, sem alterá-las.
Essa prática acima pode ser encontrada no Taoismo e no Budismo Chán pelo nome de Wú Wéi, literalmente "não ação". Essa prática consiste em não ir contra a ação natural das coisas, mas seguir seus princípios. O aforismo 63 do Tao Te King diz que "o sábio nunca tenta grandes feitos, e por isso os realiza", ou seja, o sábio nunca tenta pressionar o caminhar natural das coisas, ele o aproveita em seu próprio benefício. Isso se aplica a todas as especificidades de nossas vidas. Defecar, fazer sexo, trabalhar, exercícios, namoro, educação, conhecimento, artes marciais, vida religiosa etc. Qualquer momento desses, se em algo você é pressionado, o ponto de pressão gerará tensão, e a tendência é o ponto de tensão se romper. No caso das coisas de nosso próprio corpo, somatizamos. Nas coisas sociais, brigamos.
Quem tem prisão de ventre bem sabe que quanto mais preocupado com seu intestino na hora de ir ao banheiro, quanto mais pressão sua mente exerce sobre seu esfíncter, aí é que ele não se abrirá, e nada sairá. Crie pressão para que a outra pessoa goze no sexo, e ela não gozará. Force uma comida de que não gosta a entrar, e você vomitará. Pressione alguém a se sentir bem no trabalho, e ela não se sentirá bem. Crie pressões, chantagens ou ordenamentos para alguém ser missionário, monge ou teólogo, e você afastará essa pessoa da religião. A questão é, imponha um comportamento no agir natural das coisas, e o próprio agir natural das coisas empurrará a ação para qualquer outro lado, menos para aquele que você quer.
E é aí onde entra a paciência. Ser paciente é a arte de entender o fluxo das coisas e planejar um novo caminho aproveitando o fluxo natural. O bom jardineiro não muda o crescimento das plantas, ele as direciona. Assim como ninguém faz uma curva de 90º com arestas, você segue a velocidade do próprio carro e faz uma curva rombuda. Se nesses dois casos há paciência, por que há impaciência nas demais coisas? Simples. As pessoas querem que a realidade se adeque a elas, e por isso tentam forçar até mesmo as leis da física a seguir suas vontades. Um motorista impaciente tentará uma curva de 90º com uma aresta quadrada a 120 km/h, e o resultado será o capotamento. Nenhum fluxo natural é interrompido sem consequências (os hormônios que apressam o crescimento de frangos e bois interferem na nossa saúde). O mesmo se diz das coisas cotidianas.
Esteja no banheiro sem criar pressão mental sobre seu intestino, e você defecará. Apenas transe com a pessoa, e tenha paciência com ela, e naturalmente o gozo virá. Exercite seu paladar para determinados alimentos pouco a pouco, ou tempere-os de forma diferente, e você os comerá. Crie condições melhores de trabalho, remuneração, metas e reconhecimento, e seu empregado agirá com maior motivação. Crie um ambiente acolhedor e coerente na sua religião, e o adepto naturalmente sentirá o desejo de aprofundar-se. De nada adianta forçar, pressionar, ditar. Deixe como está, redirecione sem interferir nas coisas, e as coisas ocorrerão no momento que têm que ocorrer.
De certa forma, ao redirecionar um rio por um canal, você cria um novo vão para o fluxo da água. Ela tem a necessidade de seguir em frente, mas o canal torna-se uma nova opção, e seu vão está vazio. Naturalmente a água o preencherá e ele seguirá seu novo rumo, e o fluxo do rio nem precisou ser mexido. Por isso, leve um livro para o banheiro. No sexo, entre na onda das taras de seu (sua) parceiro(a) (sem nojinho, medo ou vergonha). Entenda e redirecione os anseios e as habilidades de seu empregado, e ele se sentirá pleno em sua profissão. Crie a necessidade de aprofundamento numa religião, e a pessoa se aprofundará (por exemplo, se quer que alguém seja monge, dê aula de uma língua sagrada para apenas os interessados). No fim, aproveitar o fluxo das coisas para seu próprio benefício dá mais resultado. "Como dizem por aí, deixa rolar" (Alan Watts).
 
(não pressione, deixa rolar, no/do calango abstrato) no caso da publicidade, misterwalk diria: não impressione. mas também não deixe simplesmente a coisa rolar. role você também com

domingo, junho 23, 2013

num mundo de calangos um abstrato que se tornou concreto até ceder. ou não?

rango é um calango?(e só?)



Vou fechar O Calango Abstrato. É uma decisão difícil, mas preciso repensar muita coisa ainda. Não tenho mais tempo, saco ou ânimo para continuá-lo. Vou focar na pós-graduação. Estou abandonando o blogue porque o Brasil se transformou em nitroglicerina muito rápido, e temo que os estilhaços da explosão me atinjam. Foi o protesto de ontem que me fez tomar essa decisão, que já vinha protelando há um tempo.

Esses últimos dias vi o povo em convulsão social. Vi baderneiros e gente pacífica. Vi polícia batendo e polícia apoiando. Vi cartazes focados no problema e cartazes desfocados do problema. Ouvi gritos pró-democracia e pró-ditadura. Vi manifestos com bandeiras e manifestos sem bandeiras. Li opiniões a favor e opiniões contrárias. Estava acompanhando tudo de fora, por internet, por televisão, mas precisei estar dentro do movimento para perceber o quando ele está ainda alienado. O quanto as reivindicações desfocadas são perigosas.

Apesar do que dizem os movimentos, e isso pode me deixar com fama de reacionário, ou o que quer que seja, afirmo e reafirmo que o gigante não acordou! O gigante estava dormindo, enquanto o mundo à sua volta girava. Ele ouviu um barulho na casa no meio da noite, em decorrência do giro do mundo. Deu um sopapo no meio da noite, viu o ambiente, se cansou com o giro do mundo e voltou a dormir. Esse é o gigante brasileiro que acordou. Digo isso porque até quando o gigante acordou, ele permaneceu dormindo para muita coisa. Deixou que determinados discursos entrassem nos movimentos, proibiu bandeiras, gritou por apartidarismo, deu gritos de guerra pelofim dos partidos políticos. O gigante percebeu que estava insatisfeito, mas criou para si mesmo uma grande ilusão. Por isso, o gigante não acordou de fato. Teve só aquele estado assim que se acorda, mas o corpo voltou a relaxar e adormeceu novamente. Assim está o país. As manifestações eram pra ter dois focos: 1) Passe livre nos ônibus, 2) Protesto contra a violência no Sul-Sudeste do país. O foco devia ser os 10 centavos que o prefeito daqui deu, e à desproporcionalidade da ação policial em São Paulo. E só. Outras manifestações deviam ser permitidas, assim como permitidas bandeiras de partidos. Na manifestação de ontem, dia 20, em João Pessoa, correu tudo bem. Estava correndo tudo bem. Foram 22 mil pessoas presentes. Eu mesmo cheguei a comprar e preparar dez cartazes. Seis cartazes focavam no passe livre e no preço das passagens. Esses distribuí entre os manifestantes no começo. Guardei quatro pra mim, sobre corrupção, copa do mundo, violência. Esses dei aos meus amigos. Nesse caso, não deixei de falar outras coisas, mas foquei na ideia do protesto: passe livre. Era uma coisa focada. Pelo menos de minha parte. No foco numa coisa, não significa que outras coisas não possam ser tematizadas. Daí a proporção dos cartazes. Porém, o que vi na passeata foi algo estranho, esquisito. Muita gente ali tinha a politização de uma formiga-operária, e a compreensão do nosso estado político de um neanderthal. Queriam o impeachmant de Dilma, esquecendo quem seriam os próximos a assumir o governo: Temer, Sarney, Calheiros etc. Querem mesmo isso?

Além do mais, os mesmos apolitizados vinham com cartazes de brincadeira. Era um oba-oba generalizado, sem direção, sem foco. Não era um protesto, era um bloco de carnaval fora de época que brigava até pra decidir seus trajetos. Tudo bem que muitos gritos na garganta vieram de vez, mas vamos organizar as pautas, né galera? Alguns cartazes me fizeram rir pra não chorar. Comentei entre gargalhadas na hora, mas hoje, depois de uma boa noite de sono, sofri ao ver as verdades por trás deles. Cartazes como "Eu relaxo e gozo", "As esferas do dragão foram reunidas", "Chupa que é de uva", "Pelo direito de foder em pé" estavam espalhados aqui e ali. Por isso que digo: o gigante não acordou. Repito e reitero porque é o foco quem diz se estamos acordados ou dormindo. O povo ainda está entorpecido, e, infelizmente, até grandes mestres da arte do estar desperto foram apanhados desprevenidos pela onda dormente. Me deixou profundamente assustado os gritos de "Viva os militares! Que volte a ditadura!", seguido de aplausos. A multidão estava empolvorosa. Nesse momento, precisei mentir. Quando meus companheiros do lado me perguntavam o que era aquilo, eu mentia, dizia que eram pessoas gritando em apoio ao Movimento Passe Livre. Quem fez gritos pró-ditadura nem mesmo se toca o que foi aquela merda toda, por isso me assusta ver pessoas que a defendem em uma passeata que promove a democracia. Me espantei com o grito de "vamos nos armar e derrubar a Globo". Quem conclama o povo a se armar esquece que já fomos desarmados, e de onde acham que viriam as armas? Teríamos de contrabandeá-las. E por que o ataque tinha de ser contra a Globo?

Isso está tão surreal que está parecendo a promulgação do Império Galáctico em Star Wars. As pessoas, principalmente os baderneiros, estão ignorando o inciso I do artigo 137 da Constituição Federal de 1988, que é a ordem 66 do nosso Imperador Palpatine brasileiro.

Por isso, deixarei o blogue às moscas e, possivelmente, venha futuramente a deletá-lo. O Brasil está entrando em um momento em que a opinião é necessária, mas o opinador recebe ônus negativo. Não é o momento certo para falar. Meu silêncio torna-se então meu melhor protesto. Agradeço a todos os que leram e acompanharam este blogue por tantos anos, e agradeço especialmente a todos que me apoiaram ou me desapoiaram, que elogiaram e criticaram, que comentaram aqui ou em outros lugares. Foi a interação com todos que manteve este blogue vivo. Porém, diante do atual estado de coisas, temo que o silêncio seja a melhor opção por hora.
 
(anúncio de encerramento do calango abstrato - que não é editado por mim, e só de ter de acentuar isso, dá uma certa razão ao autor - "calangos" em geral assentam com a cabeça(ou com a bunda) em quase todas as situações de tensão. quando mexem o rabo é porque o que está por detrás é fria mesmo para um ser chegado ao calor das discussões)