o blog que dá crise renal em quem não tem crise de consciência. comunicação, marketing, publicidade, jornalismo, política. crítica de cultura e idéias. assuntos quentes tratados sem assopro. bem vindo, mas cuidado para não se queimar. em último caso, bom humor é sempre melhor do que pomada de cacau.
terça-feira, fevereiro 21, 2017
sexta-feira, fevereiro 17, 2017
no abandono da fala popular mais um "ave globo" em coro
![]() |
| foto:renata pires |
No Marco Zero, tocava uma orquestra afinada, passistas faziam um
passo de acrobatas, cercados de gente de muitas idades e lugares. Mas eis que
de repente, no azul do céu do cais, foi anunciado o frevo de bloco Evocação nº
1, de Nelson Ferreira. Para mim, coisa melhor não há, e me deixei ficar em
desarmada prelibação do que viria. Um calor de felicidade correu no peito em
atenção à lembrança que guardamos da letra, da canção, do coral de Batutas de
São José, do tempo imorredouro da melodia. Então a voz da cantora soltou:
"Felinto,
Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon
Cadê teus blocos famosos?..."
Cadê teus blocos famosos?..."
Mas
esses primeiros versos não dizem bem o que ouvi. Outra canção se fez presente
já no começo, porque a cantora cometeu um "Fê-linto". De imediato,
esclareço que tal variação na prosódia local não é coisa boba, sem importância.
Nós estamos falando de um hino da cidade. Trata-se de uma das maiores obras de
Nelson Ferreira. Mas o melhor veio depois. Terminada a música, fui ao animador
do encontro e lhe fiz ver que aquela "pronúncia" não era conforme a
original. Então ele me respondeu com o ar mais puro da tarde:
- Todos
cantam assim.
Eu lhe
respondi:
- A
gravação original da Evocação nº 1 não é assim.
O rapaz
ficou atônito. Que coisa mais chata é esse cara vir dizer que estão cantando
mal Nelson Ferreira. Mas ele foi salvo por uma senhora, que a tudo ouvia e,
mesmo sem ser chamada, achou por bem intervir. Ela me mostrou o celular onde
estava a letra da Evocação no trecho "Felinto, Pedro Salgado....". E
me disse:
- Está
vendo? É assim que se escreve: Fê-lin-tô.
Toma,
além de me ver como um homem sem memória, ela me transformou num analfabeto. Eu
lhe respondi:
- É
assim que a senhora lê? Fê-lin-tô?
- Sim -
E me fitou de cima a baixo, indignada, como a me responder "se o senhor
não sabe ler, o problema é seu". Mas veio mais suave, apesar de
autoritária: - Eu sou professora de português.
- Então
a senhora sabe que as palavras não se leem como se escrevem.
- É?
Saiba que português não é inglês. É diferente: aqui a gente lê como se escreve.
Vocês
veem que era um diálogo impossível. Uma verdadeira peleja do bem, que é a nova
pronúncia, contra o mal, que pesquisa a história de uma cidade. E o mal sempre
perde no fim.
Mas para
o leitor retomo a palavra que não pôde ser ouvida. Primeiro, escute a gravação
original da Evocação nº 1. https://www.youtube.com/watch?v=7FNhDiqLErY
Ouvimos
Filinto, não é? Depois, ouça os Fê-lintos, até no Bloco da Saudade.
Lembro
que a mudança no som das vogais não é exclusiva da Evocação nº 1. Cantam agora
o Bloco da Vitória, de Nelson Ferreira, assim: "quando o povo
dê-cide".
Ora, o verso
de Nelson vinha do refrão eleitoral "quando o povo diz Cid". O
original do Bloco da Vitória fazia um trocadilho entre "o povo diz
Cid", da campanha de Cid Sampaio em 1958, e o verbo decidir. Daí que
"diz Cid" virou "decide" na letra e dicide no som.
Mas por que a mudança hoje?
Seria uma evolução natural da língua, que virou a nova prosódia pernambucana?
Na verdade, os cantores dos frevos de bloco reproduzem um modelo de fala que
julgam culta, educada. É constrangedor ouvir, ver blocos de carnaval do Recife
submissos à prosódia dos apresentadores de televisão. Cantam Nelson Ferreira
traduzido para um modelo de locução que vem de fora. Nada mais anti-pernambucano,
violentador da história da cidade.
A nossa
elite não sabe, despreza: a fala popular é a própria língua da história. A
população fala a língua que guarda um fio de continuidade entre a identidade de
um lugar e a civilização. Os professores deviam gravar a fala do povo nas
feiras, nos mercados públicos. Aí aprenderiam que Felinto sempre foi Filinto,
jamais Fê-lin-tô. Pelo menos no Recife.
* o frevo que se canta hoje no recife, do urariano mota, para a
24/7 (autor de "soledad no recife", que recupera os últimos dias de
soledad barrett, mulher do cabo anselmo, entregue por ele à repressão, e do
" filho renegado de deus, primeiro lugar no prêmio guavira de literatura
2014.
segunda-feira, fevereiro 13, 2017
a quantas anda o seu "animal de estimação" ?ou será que é você que anda dormindo de cabeça para baixo ?
Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.
“Vou mandar levantar outra parede…”
– Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
– Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!
Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!
A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!*
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!*
![]() |
| *o morcego,do augusto dos anjos, made in paraíba, 1884 -1914 |
sexta-feira, fevereiro 10, 2017
temos de lembrar, sempre, que o brasil tem uma das maiores taxas de analfabetismo do mundo
O pior analfabeto, é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha
Do aluguel, do sapato e do remédio
Depende das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que
Se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil,
Que da sua ignorância nasce a prostituta,
O menor abandonado,
O assaltante e o pior de todos os bandidos
Que é o político vigarista,
Pilanta, o corrupto e o espoliador
Das empresas nacionais e multinacionais.
Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha
Do aluguel, do sapato e do remédio
Depende das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que
Se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil,
Que da sua ignorância nasce a prostituta,
O menor abandonado,
O assaltante e o pior de todos os bandidos
Que é o político vigarista,
Pilanta, o corrupto e o espoliador
Das empresas nacionais e multinacionais.
O analfabeto político, Bertolt Brecht, aos "119 anos de vida", em 10 de fevereiro.
quinta-feira, fevereiro 09, 2017
"velórios foram inventados para os vivos"
| odiadores das redes pedem que a morte seja esvaziada do seu sentido político (foto: arthur omar/o esplendor dos contrários) |
O Brasil não para de produzir novelas da vida real, simbologias e contos morais de uma democracia enferma e em crise, um reality show em que os personagens agem e são julgados em tempo real: parlamentares, políticos, empresários e suas famílias, mulheres, filhos.
Em um regime de julgamento em tempo real, também um número cada vez maior de atores sociais saem do anonimato ou de seus nichos e “lugares de fala” para julgar e serem julgados no parlamento virtual que se tornaram as redes sociais.
Fonte de debates decisivos e pedagógicos, mas também “esgoto público” de onde emerge o lodo, as redes produzem uma fala coletiva dissonante, simultaneamente amorosa, odiosa, perversa e no limite de todos os valores que achávamos pactuados.
Acabamos de passar por mais uma dessas provações seriais. A morte de Dona Marisa Letícia, mulher do ex-presidente Lula, moveu algumas das placas tectônicas na disputa dos imaginários, expondo de forma dolorosa, perversa e amorosa uma “comunidade imaginada” explodida.
Em um psicodrama social, os sintomas e indícios de uma patologia coletiva não param de emergir. A morte de Dona Marisa Letícia, ex-primeira dama do Brasil, deveria produzir uma trégua nos discursos políticos hiperpolarizados e hostis, mas não foi o que vimos.
Concorrendo com a onda de reconhecimento e solidariedade dos que pranteavam “Dona Marisa”, a mulher simples, arrimo de família, companheira de lutas que foi catapultada na roda viva das disputas políticas – uma outra multidão se comprazia em destilar ódio, deboche, vazamento de informações médicas sigilosas, memes e mensagens infames desejando sua morte e que produziram perplexidade. O país da delicadeza perdida volta a expor suas entranhas.
Mais do que isso temos uma classe média e elite que quer ensinar um líder popular e carismático como Lula a se comportar no velório da própria esposa. Pedem compostura e decoro, pedem apatia, pedem que a morte seja esvaziada do seu sentido político para um líder cuja vida pessoal e da sua mulher vem sendo devassada e exposta em praça pública, pela mídia, pela Lava Jato, pelo judiciário, por uma multidão de julgadores.
Sendo os vazamentos das conversas da vida privada, conversa de mãe e filho, falas informais, sem nenhum conteúdo conectado a Lava Jato ou a corrupção, o motor que mais produz e multiplica o ódio. Se demoniza e se moraliza os que vamos julgar pelo que fazem em uma esfera da intimidade e da privacidade. Confundindo propositadamente os campos.
A dona e a dama
Ah, esses pobres não sabem mesmo nem como se portar! Usam palavrões e palavras chulas na intimidade, cozinham “pé de frango” no Palácio e não aprenderam nas novelas das oito a fazer carão e botar óculos escuros como nos velórios da elite, onde temos que falar baixo e não rir da nossa própria tragédia, como fez Lula em alguns momentos no velório de Dona Marisa, ao falar da companheira morta, como fazem milhões de brasileiros que tiram forças para rir da crise, dos retrocessos e do infortúnio.
Não entenderam que a morte não apazígua a luta e nem os ânimos, renova, porque na morte se disputa simbologias e legado, se disputa a vida. São pessoas que passam da alegria ao choro compulsivo e que não tomam Prozac, Rivotril ou drogas que tornam nossa dor mais suportável para os outros.
O nível de demonização do casal Lula e Marisa e todo o processo de linchamento midiático prévio a essa morte é mais que um case político-jurídico e explicita um processo em parte bem sucedido de desqualificação moral de todo um campo, que eu sequer definiria como simplesmente “de esquerda”. É mais do que isso, trata-se de uma vivência social nova e disruptiva que emergiu nas últimas décadas apresentando uma outra matriz cultural e política: um Brasil sem gravata!
Existe um ódio a Lula e Marisa, um ressentimento infinito, que não tem nada a ver com a sanha moralizante da Lava Jato e o “combate à corrupção”. O ódio é pelo que representam: o povo, os pobres, que furaram o bloqueio e mobilidade das classes e grupos sociais. A “Dona Marisa” que levou frango e polenta para o Palácio do Alvorada, que pediu para os cozinheiros da República prepararem pé de frango para servir no banquete, que usava legging, isoporzinho, fazia churrasco e bebia conhaque dryer, guaraná e aguardente em vez de whisky.
No Brasil, a palavra “Dona” tem um significado especial e paradoxal, pois foi apropriada e expropriada dos títulos nobiliários que serviam como ostentação de poder no Império português e depois da nobreza brasileira. Dom e Dona foram títulos de nobreza que serviram a monarcas, príncipes, infantes e nobres portugueses bispos e que tais.
Pois hoje Dona no Brasil qualifica da mulher mais rica até uma jovem mãe beneficiária da Bolsa Família, uma conversão da nobreza imperial em nobreza popular brasileira. “Dona Maria”, “Dona Marisa”, trata-se de uma deferência “antiga” e que talvez desapareça por desuso e pela generalização do senhoras e senhores.
Dona, dizem os dicionários, “é um tratamento dispensado a senhoras de alta linhagem. Título honorífico, ou simplesmente um título que antecede o nome de qualquer mulher adulta a quem se deseja demonstrar cortesia, deferência ou respeito. Usado em geral no tratamento das senhoras casadas ou de certa condição social. Proprietária de alguma coisa. Senhora: dona de casa. Mulher, esposa.”
Talvez uma mulher contemporânea não aceite o título de “Dona”, talvez não sirva aos novos feminismos, mas serviu para produzir uma nobreza popular e qualificar mulheres sem riquezas e sem nome, mas respeitadas e reconhecidas socialmente.
Dona Marisa também acrescentou à sua biografia outro título extraordinário, de Primeira Dama do Brasil, também controverso, se pensarmos nos discursos femininos e feministas contemporâneos. Afinal, em um mundo patriarcal e machista, a Primeira-Dama do Brasil não tem nenhuma função oficial definida por lei. É um protocolo da diplomacia, não tem salário e nem é considerada parte integrante da administração federal. Uma figura simbólica que, sinal dos tempos, não existiu enquanto a Presidenta Dilma Roussef, uma mulher sem “damos” e “sem homem” que governou o país.
Marisa Letícia foi de “dona de casa” a Dona e Dama o que produziu uma onda de piadas e chacotas duvidando de suas qualificações para tão alto título nobiliário, quando seu companheiro também escandalizava certa elite ao se tornar, vindo do interior, da pobreza, das fábricas, do mundo dos trabalhadores subalternos e assalariados, o Presidente da República do Brasil.
Como desconstruir simbologias? A trajetória e a biografia de Lula e Marisa talvez sejam a parte mais difícil e mesmo impossível de serem demolidas pelo aparato jurídico-midiático dos conservadores, porque não são da ordem da racionalidade política simplesmente. Trata-se de um capital afetivo e sentimental.
Mas a operação está em curso e o processo de desumanização faz parte do roteiro. Por isso é preciso barrar qualquer comoção, tirar a humanidade, transformar a dor da morte ou da doença em castigo de um crime “merecido”. Por isso a disputa em torno da memória e o juramento de Lula diante do corpo morto da mulher: “Eu tenho 71 anos. Não sei se Deus me levará em curto prazo. Eu acho que vou viver muito porque eu quero, eu quero provar que os facínoras que levantaram leviandades com a Marisa tenham um dia a humildade de pedir desculpas a ela.”
A vingança dos vivos contra os mortos
O que mais chocou o Brasil foi descobrir que mesmo os que deveriam ser os mais humanos entre os humanos, os médicos, os profissionais que fazem um juramento de colocar a vida acima de qualquer valor ou ideologia, também expuseram seu ressentimento e ódio “protegidos” nos grupos de Whatsapp, essa “deep web” em que se conspira entre iguais.
É como se vivêssemos na infância das redes, em que os comportamentos extravasam sem controle, as palavras são despejadas sem censura ou ponderação, o preconceito, o racismo, os sentimentos mais odiosos são expressos como se estivessem protegidos pela distância, pela impessoalidade e/ou pelo anonimato. Daí a importância cada vez maior de uma pedagogia dos processos, demissões e punições, as consequências legais e sociais dos atos de fala, uma judicialização dos comportamentos que substitui a coesão social rompida.
A jornada dos “da Silva” vai do céu ao inferno, mas é bela, forte e pedagógica. O que deixa perplexo é ver o nível de embrutecimento e ódio dos que comemoram a morte de uma mulher brasileira com buzinaço, post e mensagens de ódio! Um país fraturado e fracionado que terá que se reencontrar. Que existam pessoas que tem ódio de outros já sabíamos, a questão é chegar no ponto em que a expressão do ódio e dos que tripudiam da vida possa encontrar um ambiente social que os chancelem e legitimem. Eis o que é terrível! Os vivos se vingam dos mortos gerenciando sua memória.
Comunidade imaginada explodida
Acabou o amor ou acabaram com ele? A lua de mel com o presidente Lula Macunaíma da Silva (acertos e erros foram cometidos em um processo a quente), produziu coesão social e sensibilizou os mais diversos grupos, de banqueiros a empresários que enriqueceram aos beneficiários da Bolsa Família, das cotas raciais, dos que colocaram os pés em uma universidade, da mobilidade econômica e subjetiva.
Muitos que se viram pela primeira vez espelhados na figura de um torneiro mecânico de pouca instrução efeito de uma sabedoria coletiva. Lula mais uma vez faz uma fala impressionante em pleno velório sobre o seu próprio personagem que de certa forma já se vê como “póstumo”, apesar de inteiramente engajado nas lutas do presente urgente e das disputas eleitorais de 2018 em que poderá ressurgir de um processo de demolição ou sair de cena.
“Eu sou o resultado da consciência política dos trabalhadores brasileiros. Na hora que ele evolui, eu evoluo. Eu sou resultado das greves, mas também sou resultado de uma menina que parecia frágil e que me deu a garantia que eu poderia viajar para ajudar candidatura, para ajudar criar sindicalismos combativos.”
Impressiona como a figura de Dona Maria Letícia nesse processo sintetiza algo das mulheres brasileiras, nossas mães e avós, mas também jovens mulheres que ainda apostam no sonho de uma governança a dois: um casamento de décadas, algo pouco trivial, na era do descarte sexual e afetivo e dos amores líquidos. Que não são nem piores e nem melhores que outros arranjos. Só trazem novos desafios.
“O casamento é o maior exercício de democracia que um ser humano pode fazer. É no casamento que você aprende a ceder. E tem que ceder todo o dia. E tem que brigar todo o dia para conquistar alguma coisa”, diz Lula sobre a relação assimétrica e de poder entre os homens e suas companheiras, mesmo nas relações mais bem resolvidas.
Essas sínteses paradoxais tornam os discursos sobre as mulheres, sobre o feminismo, sobre o machismo, mais complexos e derretem os modelos, sejam os padrões ou os disruptivos. A história da vida privada é uma enciclopédia fascinante de diferenças e repetições. Nela, uma dona de casa pode juntar outras mulheres de metalúrgicos presos pela ditadura militar e fazer um protesto histórico, para defender seus maridos mas também porque se sente parte de um coletivo maior que sua família.
Tanto a se aprender com cada vida! Mas a volatilidade dos valores e humores diante de fatos em disputa, o choque e polarização das opiniões empobrecem as análises e visões, nos dão a sensação que o Brasil hoje é uma “comunidade imaginada” que foi explodida, se pensarmos em uma coesão social, se pensarmos que uma “comunidade imaginada”, como propôs Benedict Anderson em que seus membros constroem uma imagem mental de afinidades mútua.
Parte dessa “imagem mental” de nós mesmos é co-produzida e mantida pelas mídias com seus discursos totalizantes e que buscam monopolizar e conduzir a disputa narrativa. Um monopólio dos discursos que hoje tem na ruidocracia das redes um contraponto decisivo e também novas formas de produção de choque, conflitos e coesão.
Morte e montagem
“A morte funciona como uma montagem fulminante da nossa vida. (…) “enquanto estamos vivos, falta-nos sentido, e a linguagem da nossa vida (com que nos expressamos e a que, por conseguinte, atribuímos a máxima importância) é intraduzível: um caos de possibilidades, uma busca de relações e de significados sem solução de continuidade.”
O cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, em O Empirismo Herege, faz essa bela analogia entre a morte e a montagem cinematográfica, mas poderia enfatizar que mesmo depois de mortos, em uma sociedade fracionada ou polarizada, há uma disputa feroz em torno do sentido das vidas.
A morte de Dona Marisa apenas deixou antever a disputa vital e decisiva para a democracia em que estamos metidos! Dona Marisa, que era filha de imigrantes, que foi babá da família Cândido Portinari aos 11 anos, que foi operária em uma fábrica de bombons, que teve o primeiro marido assassinado, que casou com um líder operário do ABC, que criou quatro filhos e ajudou a construir um dos maiores partidos da esquerda contemporânea sem nunca ter estado no horizonte dos possíveis, virou a primeira-dama do Brasil ao lado do primeiro operário-presidente.
Não acumulou milhões, nem jóias, nem fez compras nas boutiques de Nova York, Londres e Paris. Comprou dois pedalinhos para os netos e teve a vida devassada e expostas em acusações não comprovadas de “enriquecimento ilícito”. Como acabam os contos morais em uma democracia explodida? A morte talvez seja esse único momento em que se pode receber e aceitar o abraço até do seu pior inimigo. A morte é uma “transação solitária” como define o escritor Ray Bradbury, mas uma comunidade imaginaria e em luta pode transmutar o seu sentido. Velórios foram inventados para os vivos!
a morte é uma transação solidária, da ivana bentes*, na cult.
* professora e pesquisadora da escola de comunicação da universidade federal do rio de janeiro.ex-diretora da escola de comunicação da ufrj e ex-secretária de cidadania e e diversidade cultura do ministérios da cultura.
quarta-feira, fevereiro 08, 2017
para - e não só - fábio fernandes e a luana piovani
"Eu entendo você que achou um absurdo o Lula falar no velório da dona Marisa, mas achou o máximo acompanhar por horas a cobertura ao vivo do velório do Eduardo Campos pela Globo. Que não teve apenas um discurso, mas inúmeros.
Que teve rojões, carro de bombeiro, músicos cantando, candidatos disputando os melhores lugares para aparecer e uma herdeira política da chapa que não saiu do lado do caixão.
Aquilo tudo pra você foi normal. Na verdade, foi lindo e o fez chorar algumas vezes. Mas o Lula no velório da dona Marisa, não. Isso foi de um calhordice total.
Você tem opinião. Você é uma pessoa coerente. Com o Lula você pensa de um jeito. E com o resto da humanidade de outro. O problema não é você, é o Lula.
*O problema não é você, é o Lula. No blog do (renato) rovai
** contudo, misterwalk faz um alerta: em ambos os casos(seja do fábio, seja da luana, seja do lula, seja do campos, nada é tão simples assim. a normalidade dos nossos absurdos ou os absurdos da nossa normalidade são bem mais engendrados em suas anormalidades do que parecem .
** contudo, misterwalk faz um alerta: em ambos os casos(seja do fábio, seja da luana, seja do lula, seja do campos, nada é tão simples assim. a normalidade dos nossos absurdos ou os absurdos da nossa normalidade são bem mais engendrados em suas anormalidades do que parecem .
terça-feira, fevereiro 07, 2017
o assombroso caso do acovardado de si próprio *
talento dispensa baby doll de nylon. com seu posticídio, fábio fernandes,vulgo a louca, entronizou-se como a luana piovani da publicidade - sem o menor esforço.
* se você ficou voando, acesse o blog do rovai/fábio fernandes(já que o fábio deletou seu perfil do facebook. o post, da luana, sobre o "draminha de lula" até ontem continuava no seu perfil. ou seja: na hora em que uma piovani tem mais coragem do que um fernandes, um dos nossos "maiores publicitários" , a coisa tá pra lá de feia mesmo.
p.s. não fui eu que atendi a conta da petrobrás no "governo do pulha " - pulha segundo o " f. lasca"
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quarta-feira, fevereiro 01, 2017
quarta-feira, janeiro 18, 2017
as redes sociais viralizaram o "privatizem a puta que os pariu da senadora"*. mas como sempre,nas redes sociais, o estardalhaço disto não era o mais importante(muito embora seja importante), o importante é estabelecer o correlato com o que acontece neste exato momento com a petrobrás. saramago ( o puta que pariu é anima dele) não teria melhor intérprete
*pues vayan! privaticen los sueños, privaticen la ley, privaticen la justicia; pero si quieren que haya una verdadera privatización a fondo ¡Vayan y privaticen a la puta madre que les parió!
quinta-feira, janeiro 05, 2017
ambiética
a primeira lei* do ser humano é manter-se vivo - a tal lei da sobrevivência. quiçá deveria ser manter-se ético, sejam quais forem as circunstâncias.
esta linha existencial, perpassada de cerol, é quase insustentável, num mundo onde o fracasso dos números(ou a vitória) destrói a ética, normalmente aquilatada pelos mesmos números. presumo que a pior derrota é ter ambições pobres - ser concursado, por exemplo - e uma ética mais pobre ainda.
os homens deveriam ser medidos, não por suas vitórias, ainda que cheias de ética. mas por aqueles que não perderam a ética, fosse qual fosse a situação. loas ao fracasso?
resta o consolo- até quando tão pobre de marré-marré ? - de que no brasil alguns homens continuam sendo derrotados, não por seus defeitos, mas por suas virtudes.
* imagino que a segunda lei do ser humano deva a de ser feliz ou continuar tentando, o que cada vez mais é raro. e vem a pergunta, filosofastra, talvez, de que adianta estar vivo e não ser feliz? para alguns, a coisa se resume ao de que adianta estar vivo e não ter dinheiro. já sabemos que dinheiro não traz felicidade. mas ajuda a comprar, retrucam. mas que tipo de felicidade? a que tenta transforma bijuteria em joia rara ?
sexta-feira, dezembro 30, 2016
sábado, dezembro 24, 2016
como é que os publicitários "antenados" ainda não viram isto? - pros redatores então,o dalasan é melhor que os dez melhores juntos
em dose supla, porque pior que os dementes são os ausentes. então aproveita que o "vale otário tem vali até o horário"
quinta-feira, dezembro 08, 2016
para os futuros (e presentes) aposentados, fudidos e mal-pagos, que não sabem que " está sobrando (muito) dinheiro na previdência" *
Especialistas desmentem números que anunciam rombo na previdência
“As pessoas não vão aceitar. Se elas tiverem acesso a essas informações, não podem aceitar isso”. A frase é da economista Denise Gentil, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A indignação que ela aposta que mobilizará a maioria da população brasileira é com a proposta de uma nova reforma da previdência, que o governo em exercício promete apresentar e aprovar no Congresso Nacional ainda este ano.
As informações que alimentariam essa recusa são simplesmente a negação de tudo que você lê e ouve diariamente nos jornais: na pesquisa feita para sua tese de doutorado, Denise mostra, com dados oficiais, que o Brasil não tem nenhum rombo na previdência social. Mais do que isso: anualmente, sobra (muito) dinheiro no sistema público que hoje garante aposentadorias e pensões a 32 milhões de trabalhadores.
Até agora, o ‘otimismo’ da pesquisadora em relação a uma ‘grita’ da população tem razão de ser: segundo a pesquisa ‘Pulso Brasil’, realizada pelo Instituto Ipso em junho deste ano, nos 70% de desaprovação do governo Temer, a forma como o interino vem atuando em relação à reforma da previdência é o que tem a maior taxa de rejeição (44%).
O fato é que, como resposta à crise econômica, uma nova reforma da previdência vem sendo desenhada desde o ano passado. Ainda no governo da presidente Dilma Rousseff, foi criado o Fórum de Debates sobre Políticas de Emprego, Trabalho e Renda e de Previdência Social, que produziu um relatório de diagnóstico mas não chegou a apresentar ou apreciar propostas.
Após o afastamento temporário da presidente, o governo interino teve pressa: montou um novo Grupo de Trabalho, com a participação de quatro centrais sindicais — Força Sindical, União Geral dos Trabalhadores (UGT), Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB) e Nova Central Sindical de Trabalhadores (NCST) —, além da Associação Nacional de Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil (Anfip) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) para encaminhar o tema.
Na primeira reunião, o governo interino apresentou o seu diagnóstico. Na segunda, as centrais entregaram propostas para aumentar as receitas da previdência. No dia 28 de junho, aconteceu o terceiro e último encontro. Nele, os ministros interinos encaminharam a substituição desse grupo por outro mais reduzido, agora com a presença de um representante da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que até então não vinha participando das negociações, um integrante do governo interino e um porta-voz dos trabalhadores (Dieese).
Antecipando medidas de "economia" que atingem diretamente a previdência, o governo interino emitiu, no dia 7 de julho, um Medida Provisória nº 739/2016 que dificulta ainda mais o acesso ao auxílio-doença e à aposentadoria por invalidez.
Entre as mudanças implementadas, está a interrupção automática do benefício no prazo de 120 dias, obrigando o segurado a requerer a prorrogação junto ao INSS, e a criação do Bônus Especial de Desempenho Institucional por Perícia Médica em Benefícios por Incapacidade, que significará um "incentivo" no valor de R$ 60 pago pelo governo aos médicos por cada perícia realizada além da "capacidade operacional ordinária".
Antecipando o resultado das perícias que ainda serão feitas, o governo já calcula que essas medidas gerarão uma economia de R$ 6,3 bilhões anuais, às custas da diminuição de benefícios dos trabalhadores.
A proposta oficial de reforma da previdência, no entanto, não tinha sido apresentada até o fechamento desta matéria. Mas isso é apenas um detalhe. Desde o seu programa antecipado de governo até as muitas declarações de Henrique Meirelles, ministro interino da fazenda, e do próprio Temer, não é segredo para ninguém que, entre outras coisas, o governo provisório quer instituir (e aumentar) a idade mínima para a aposentadoria e restringir as regras da previdência rural.
O argumento é que, em nome do ajuste fiscal, são necessárias medidas estruturais que reduzam os gastos do Estado. E a previdência aparece destacada como o maior deles, responsável por um rombo que, segundo previsões do governo interino, deve chegar a R$ 136 bilhões este ano. Esses números, no entanto, são desmentidos por pesquisadores e entidades que se dedicam ao tema.
Contas que não batem
Por mais que a matemática seja considerada uma ciência exata, quando o assunto é a situação da previdência no Brasil, há muito tempo que dois mais dois não têm dado quatro. Lidando com os mesmos dados primários, governos (o interino e o da presidente Dilma) e estudiosos chegam a resultados diametralmente opostos.
Para se ter uma ideia, enquanto os economistas do governo provisório apontam em 2015 um déficit de R$ 85 bilhões, no mesmo ano as planilhas da Anfip anunciam um superávit de R$ 24 bilhões. E a comparação com os anos anteriores mostra que, em função do aumento do desemprego, que diminui a arrecadação, esse saldo positivo foi bem menor do que os R$ 53,9 bilhões que sobraram em 2014 e os R$ 76,2 bilhões de 2013, anos em que, do lado do Planalto, já se falava em déficit.
“O governo faz um cálculo muito simplório. De um lado, ele pega uma das receitas, que é a contribuição ao INSS, dos trabalhadores, empregadores, autônomos, trabalhadores domésticos, que é o que a gente chama de contribuição previdenciária. Do outro, pega o total do gasto com os benefícios: pensão, aposentadoria, todos os auxílios — inclusive auxílio doença, auxílio-maternidade, auxílio-acidente — e diminui. Então, isso dá um déficit”, explica Denise Gentil.
A primeira vista, pode parecer um erro matemático. Isso porque a Constituição Federal estabelece, no artigo 194, que, junto com a saúde e a assistência social, a previdência é parte de um sistema de seguridade social que conta com um orçamento próprio. Esse orçamento, por sua vez, é alimentado por tributos criados especificamente para esse fim.
Assim, diferente do que os governos fazem, na parcela de cima da conta da previdência — a receita — devem ser incluídas não apenas as contribuições previdenciárias mas também recursos provenientes da Contribuição Social Sobre Lucro Líquido (CSLL), Contribuição sobre o Financiamento da Seguridade Social (CSLL) e do PIS-Pasep.
Para se ter uma ideia da diferença que esse ‘detalhe’ faz, contadas apenas as contribuições previdenciárias, a receita bruta da previdência em 2014 foi de R$ 349 bilhões para pagar um total de R$ 394 bilhões de benefícios. Essa conta, que Denise caracteriza como “simplista”, mostra um déficit de R$ 45 bilhões — ainda assim muito menor do que o anunciado pelo governo. Quando, no entanto, se considera a receita total, incluindo os mais de R$ 310 bilhões arrecadados da CSLL, Cofins e PIS-Pasep, esse orçamento pula para R$ 686 bilhões.
Talvez você esteja supondo que o dinheiro que sobrou no orçamento da seguridade social mas faltou no da previdência tenha sido usado nas outras duas áreas a que, constitucionalmente, ele se destina: saúde e assistência. Mas essa é uma meia verdade. A soma dos gastos federais com saúde, assistência e previdência totalizou, em 2014, R$ 632 bilhões. Como o orçamento da seguridade foi de R$ 686 bi, no final de todas as receitas e todas as despesas, ainda sobram R$ 54 bilhões. E como esse saldo se transforma em déficit? Com uma operação simples: antes de destinar o dinheiro para essas áreas, o governo desvia desse orçamento 20% do total arrecadado com as contribuições sociais, o que, em 2014, significou um ralo de R$ 60 bilhões.
Na prática, isso significa que o orçamento que a Constituição vinculou, governos e parlamentos vêm desvinculando todos os anos, desde 1994. Trata-se da Desvinculação de Receitas da União (DRU), um mecanismo aprovado e renovado no Congresso a cada quatro anos que autoriza os governos a usarem livremente parte da arrecadação de impostos e contribuições, sempre sob o argumento de que é preciso desengessar o orçamento para melhor administrar o pagamento da dívida pública.
Ela acaba de ser mais uma vez prorrogada no Congresso, agora por um período mais longo (oito anos e não quatro) e com uma alíquota maior, de 30%. Segundo cálculos da Anfip, em 12 meses isso significará o desvio de cerca de R$ 120 bilhões arrecadados por meio de contribuições sociais, que deveriam alimentar o caixa da seguridade social. “Se a previdência é deficitária, o governo vai retirar 30% da onde? Como um sistema que está à beira de quebrar pode ceder 30% para outros fins que nem se precisa justificar?”, provoca Sara Graneman, professora da Escola de Serviço Social da UFRJ e pesquisadora do tema.
Por mais contraditório que seja, a DRU fornece o amparo legal para o cálculo dos governos, que contraria a garantia prevista na Constituição. Mas aqui é necessário cautela.
Primeiro porque nem com a DRU o “rombo” chega perto do que os governos e jornais alardeiam. Segundo porque, mesmo com a DRU, o orçamento continuaria positivo se os governos não retirassem outra bolada do caixa da previdência e da seguridade por meio de isenções fiscais, ou seja, tributos que deixam de ser cobrados das empresas, como forma de ‘incentivo’.
Agora mesmo em 2016, ano em que a reforma da previdência vem sendo debatida como prioridade tanto pelo governo eleito afastado quanto pelo governo interino, a Lei Orçamentária Anual, enviada pelo Executivo e aprovada pelo Congresso, prevê R$ 69 bilhões de renúncia apenas dos recursos da previdência, sem contar o conjunto das contribuições que financiam toda a seguridade social.
A simples decisão de não abrir mão desses recursos faria com que a previdência fechasse as contas no azul. “Você diz que a previdência tem um déficit de R$ 85 bilhões mas renuncia ao equivalente a 3% do PIB de receita? E depois quer que a sociedade aceite uma reforma da previdência?”, questiona Denise Gentil.
Isso sem contar a sonegação fiscal que, segundo cálculos do Sindicato Nacional dos Procuradores da Fazenda Nacional, impediu que R$ 453 bilhões chegassem aos cofres públicos no ano passado. Em outras palavras: o déficit é produzido, não por fórmulas matemáticas, mas por opções políticas.
“Ninguém discute neste País os mais de R$ 501 bilhões que foram bastos no ano passado com os juros da dívida. Ninguém discute os mais de R$ 200 bilhões que foram gastos só para segurar a taxa de câmbio. Mas discute-se o fato de que 70% dos benefícios da previdência são de até dois salários mínimos. É uma loucura!”, diz Denise.
Sara completa: “Não é a estrutura de financiamento nem a pirâmide etária que têm problemas. O problema é a retirada de recursos. Essa é a maior pedalada que o Brasil tem”.
Concepções que não batem
Denise é enfática em afirmar que “não faz sentido falar em déficit da previdência”. E, ao dizer isso, ela não está apenas repetindo que as contas do governo estão erradas. “Trata-se de um princípio filosófico”, explica, defendendo a concepção que orientou o capítulo de seguridade social da Constituição. “A ideia é nós termos um sistema de proteção social que abrange as pessoas na velhice, na adolescência, na infância…”, exemplifica, para justificar por que essas áreas, que atendem a necessidades sociais, têm que ser geridas pela demanda e não pela oferta de recursos disponíveis.
O grande salto da Constituição foi compreender que, como sistema voltado a garantir direitos, a seguridade deveria ser “financiada por toda a sociedade, de forma direta e indireta”.
* por cátia guimarães, da epjsv/fiocruz, na caros amigos
terça-feira, dezembro 06, 2016
resumindo e concluindo: enquanto a globo fizer plim-plim, você top-top
Invasão de privacidade e exploração sensacionalista das emoções são traços generalizados na cobertura de grandes tragédias pela mídia.
Porém, com a Globo há um elemento mais insidioso: depois de décadas exercendo o monopólio político e comunicacional no País, sua auto-centralidade entrou em metástase através do tautismo (autismo + tautologia). A extensa cobertura da tragédia do desastre aéreo do time da Chapecoense deixou mais explicito esse estado patológico no qual a emissora só consegue olhar para além dos muros cenográficos do Projac através de referências que faz de si mesma.
Do “turbilhão de emoções” da narração do velório coletivo por Galvão Bueno à insistência como repórteres e locutores tiveram que demonstrar a si mesmos emocionados (chegando a fazer “selfies” com celulares), chorando e até consolados pela mãe de um dos jogadores, é como se o tempo todo repetissem: “tenho emoções, logo a tragédia é real!”. Chegando a um surreal “Efeito Heisenberg”: o global Galvão Bueno narrando o outro global Cid Moreira lendo a Bíblia com a mesma inflexão de voz com que lia as notícias do “Jornal Nacional” e narrava peripécias do Mister M. O hábito do cachimbo entorta a boca.
Por décadas a TV Globo usou e abusou do recurso de metalinguagem (falar de si mesma) como forma de demonstração do seu monopólio e poder absoluto na comunicação social brasileira: não se limitava transmitir um acontecimento. O acontecimento era a Globo transformando o acontecimento em notícia – o repórter sempre foi o protagonista da notícia enquanto a História sempre garantiu exclusividade e pioneirismo para a emissora. A deferência como o técnico da Itália Enzo Bearzot tratou em toda Copa de 1982 o repórter Ernesto Paglia, a amizade exclusiva de Galvão Bueno com Airton Senna, a forma como praticamente a emissora salvou a cidade do Rio de Janeiro nas enchentes de 1966, a emissora que virou notícia de si mesma com o sequestro de William Waack por forças de segurança de Saddam Hussein na Guerra do Golfo, o jornalista Reginaldo Leme escrevendo o prefácio do livro do CEO da Fórmula 1 Bernie Eclestone etc. Passagens que a emissora sempre fez questão em destacar, como se a História sempre conspirasse para as câmeras da Globo. Embora mantenha seu poder econômico e político graças, entre outras coisas, ao BV (Bônus por Volume) para garantir a maior parte do bolo das verbas publicitárias, nos últimos anos a Globo vem sofrendo crescente queda nas audiências e a concorrência das tecnologias de convergência e Internet.
Como destacamos em postagem anterior, a reação global foi abandonar a estética space opera de Hans Donner (adotando um visual mais “orgânico”, deixando o artificialismo metálico) e mergulhar ainda mais na metalinguagem como demonstração de que ainda continua poderosa e influente – clique aqui http://cinegnose.blogspot.com.br/2014/05/globo-reaje-crise-de-audiencia-e.html .
Porém, o cachimbo entortou a boca: essa obsessão pela metalinguagem entrou em metástase, resultando na patologia do tautismo – autismo + tautologia. De tanto falar de si mesma, criou o “fechamento operacional” de um sistema que se tornou obeso – a audiência já não sustenta a folha de pagamento, dependendo a emissora das gordas verbas publicitárias governamentais. De tão obesa e fechada em si mesma, simplesmente a emissora não consegue mais ver o mundo do outro lado dos muros do Jardim Botânico e da cenografia do Projac. O exterior somente é traduzido a partir de uma descrição que a Globo faz de si mesma. Ao lado das telenovelas, o futebol é prioridade comercial da TV Globo. Dona do futebol brasileiro (a ponto de “antecipar” com horas de antecedência resultado de sorteio da final da Copa do Brasil – clique aqui http://cinegnose.blogspot.com.br/2016/11/tautismo-da-globo-preve-resultado-de.html ) a tragédia do acidente aéreo que vitimou o time da Chapecoense mereceu uma extensa cobertura. Sendo o auge a transmissão de seis horas do velório coletivo em Chapecó, na Arena Condá. Para quem estuda a evolução das mídias, as transmissões ao vivo ou coberturas extensivas , principalmente de uma emissora em estado de metástase tautista, é uma oportunidade de obter flagrantes dessa tradução auto-referencial que a Globo faz do mundo.
“Tenho emoções, logo a tragédia é real”
Que ao longo da evolução da linguagem televisiva os jornalistas deixaram de ser simples repórteres para se transformarem em protagonistas das notícias, não é nenhuma novidade. Porém, na Globo esse traço do telejornalismo também alcançou a metástase: as imagens por si mesmas parecem não conseguir expressar a dimensão exata da tragédia e tristeza que se abateu sobre a Chapecoense, sua torcida e o País. Repórteres e locutores devem constantemente abandonar a função referencial da linguagem para insistirem na função emotiva, centrada no receptor – só para relembrar, há seis funções da linguagem: referencial (sobre o quê a comunicação fala), emotiva (emissor), conativa ou apelativa (receptor), poética (mensagem), fática(canal), metalinguagem (a comunicação falando dela mesma).
No contexto atual da emissora é sintomática a escolha de Galvão Bueno para narrar o velório coletivo em Chapecó.
http://cinegnose.blogspot.com.br/2016/08/galvao-bueno-do-patriotismo-ao-tautismo.html Se em 1994 o velório de Ayrton Senna em São Paulo, narrado ao vivo por William Bonner, deu um caráter jornalístico hard news para o evento, agora, com Bueno, parece que foi transferido para a editoria do jornalismo esportivo. E não foi para menos. O registro solene jornalístico foi substituído pelo “turbilhão de emoções que não para” – sem conter a emoção, chorou: “não aguento mais”, disse perdendo a voz diversas vezes na transmissão. O que fez a atenção do espectador diversas vezes concentrar-se nele, chegando a comover internautas em redes sociais elevando seu nome aos mais comentados no Twitter. É uma das características da linguagem tautista: fechada em si mesma, a imagem deve contar com redundância sígnica do emissor, da mesma maneira que o Papa Léguas tinha que sublinhar sua velocidade para as crianças (e, por isso, jamais o Coite o pegaria) fazendo “bip-bip” como buzina de carro. É como se Galvão Bueno quisesse dizer a todo momento: “vejam como estou emocionado, a tragédia é real!”. Assim como um correspondente ao vivo de Washington tem que se posicionar diante do Capitólio ou da Casa Branca para que o telespectador acredite que de fato o repórter está lá – autismo (a função emotiva supera a referencial) e tautologia (repetição na função emotiva daquilo que poderíamos ver apenas nas imagens). Resultado: infantilização da transmissão, análoga à linguagem das onomatopeias dos desenhos animados.
“Vejam eu transmitindo, logo é verdade!”
A insistente centralidade no jornalista (como se ele antecedesse o próprio acontecimento) criou duas insólitas situações na cobertura dos eventos de Chapecó. Na edição do Jornal Nacional do sábado (03/11) a repórter Kiria Meurer (da RBS, afiliada à Globo) parou diante do ônibus que levaria os familiares ao aeroporto onde seriam recebidos os corpos. “Eu consegui um lugarzinho aqui no ônibus, vou acompanhar esses familiares. A partir daqui, a nossa câmera, com o nosso cinegrafista, não pode gravar. Então vou gravando com o meu celular”, disse ela - assista ao vídeo acima a partir dos 55:30 min. O auge foi quando Meurer filmou a si mesma com seu celular percorrendo a área do velório. Além da consciente invasão de privacidade (talvez um traquejo de anos de pauta sobre corrupção com câmeras secretas para mostrar corruptos amealhando dinheiro vivo – de novo o cachimbo entortou a boca), demonstra a obsessão metalinguística tautista de querer dizer sempre: “vejam eu transmitindo. Se transmito, então é verdade!”. E o segundo episódio explícito de auto-referência metalinguística foi quando a mãe do goleiro Danilo, “num momento de tragédia pessoal encontrou forças para consolar o repórter Guido Nunes da SporTV”. E termina dizendo: “numa demonstração de respeito aos jornalistas que também morreram...” - veja o vídeo abaixo.
O paroxismo de Cid Moreira
Da metástase ao paroxismo. No ápice de um efeito Heisenberg (efeito no qual ao transmitir acontecimentos, a mídia na verdade transmite seus próprios efeitos nos acontecimentos – sobre esse conceito clique aqui) http://cinegnose.blogspot.com.br/2013/06/o-efeito-heisenberg-na-irrealidade.html, eis que vemos um patibular Cid Moreira lendo trechos bíblicos em um episódio que jamais esse humilde blogueiro poderia imaginar nos mais loucos pesadelos: Galvão Bueno narrando Cid Moreira. Jornalista e apresentador do Jornal Nacional da Globo por 27 anos, a aparição de Cid Moreira como protagonista na própria transmissão global do velório coletivo foi o sintoma mais explícito (o efeito Heisenberg) de uma cobertura na qual o tautismo foi generalizado. Nesse episódio, a Globo projetou involuntariamente a si mesma no próprio evento que transmitia. Além de comprovar como, ao longo das décadas, a emissora conseguir dominar corações e mentes, de tal maneira que a busca por conforto espiritual à tragédia veio através da inflexão da voz familiar que entrou nas casa das famílias de Chapecó por décadas – dessa vez não mais dando notícias ou narrando as peripécias de Mister M, mas lendo versículos das cartas do apóstolo Paulo aos Coríntios.
“Nossos companheiros...
” Vinte profissionais de comunicação morreram no desastre aéreo, entre jornalistas, produtores, cinegrafista e locutores das emissoras Globo, RBS, Fox, Rádio Oeste, Rádio Super Condá. Mas somente os profissionais da Globo e afiliada RBS mereceram, desde o primeiro momento da cobertura, serem nomeados. Os restantes dos profissionais eram genericamente denominados como “nossos companheiros”. Ao longo da semana, apenas no canal fechado Globo News apresentou um infográfico objetivo com a lista completa com nome, foto e a emissora na qual cada um trabalhava. Tanto nas edições do Jornal Nacional como no Fantástico passou a ser informada a lista completa dos profissionais, porém com a evidente auto-centralização tautista que contamina a descrição que a Globo faz do mundo exterior: para cada profissional da Fox Sports citado, era destacado o período em que cada um deles havia trabalhado na SporTV, jornal O Globo, rádio Globo ou na TV Globo. Ou seja, somente pareciam merecer figurar na descrição completa por serem ex-profissionais das organizações Globo. Exploração sensacionalista das emoções e invasão de privacidade são elementos generalizados nas coberturas que a grande mídia sempre faz nas tragédias. Mas na Globo há um elemento mais crônico: seu monopólio e estrutura obesa que não mais se sustenta (a não ser através da intervenção na política nacional) criou uma patologia (auto-centralidade) que entrou em fase de metástase – o tautismo.
*globo expõe metástase do tautismo na tragédia chapecoense, por wilson moreira,no seu cinegnose,na fórum.
quarta-feira, novembro 23, 2016
não sei o que é pior: o racismo e o preconceito ou o preconceito(e a "necessidade") de para ser publicitário de elite " ter de fazer a miami ad school"
A única negra da Criação por Joana Mendes
Primeiro dia de agência, espero o Diretor de Criação para me apresentar ao resto da equipe. Enquanto aguardo, vejo subirem os que viriam a ser meus colegas de trabalho, a maioria ali é composta de homens brancos. Meu DC chega. Ele é branco, alto e tem um daqueles sobrenomes que precisam ser soletrados. Muito simpático, diz que está super feliz que eu faça parte do seu time. Vamos conhecer a Criação? Vamos.
Subimos no elevador, a agência é linda, já apareceu em revistas e mais revistas de design. Uma série de troféus estampa as paredes. Eu sempre quis trabalhar aqui. Logo, chegamos até meu andar. Enquanto caminhamos, eu vejo um homem e uma mulher negra conversando. Os dois usam uniforme de serviços gerais. Sorrio para eles, numa tentativa de me dizer negra também, mesmo que não me ponham uniformes. Sorriem de volta e abaixam o olhar.
O Diretor de Criação começa as apresentações. Aperto a mão de todos, vejo gente conhecida de outras agências e me dou conta que estou fazendo um cálculo que sempre faço. Bom, eu sei que a população que se auto-intitula negra no Brasil é de 54%. Então, todas as vezes que eu entro em um lugar de classe média, eu viro meu pescoço e vejo quantos negros têm ali, visitando, comprando, comendo, assim como eu. Negros que estão ali consumindo, não servindo. Na maioria das vezes, eu sou a única.
Quando o meu teste termina, percebo que, assim como nos espaços de elite, também não vejo nenhum outro negro na Criação. Isso não é exatamente uma novidade. A agência que trabalhava antes dessa tinha até muitos negros: entre 300 pessoas, éramos 7.
Como eu cheguei aqui? Como uma mulher negra pode ser redatora sênior num lugar que não tem mais nenhum negro?
Graças à uma vida de privilégios. A minha família faz parte do 1% dos negros de classe alta do Brasil. Nem sempre foi assim, minha avó era empregada doméstica e enfrentou um sem número de humilhações. Numa dessas, ela fez uma promessa que a sua filha não limparia o chão de ninguém. Todos os dias, a minha avó fazia questão de lembrar à minha mãe que ela era preta e que ser preto nesse país não é fácil. Ser mulher preta pode ser uma das coisas mais difíceis que você tem que enfrentar na vida.
Minha avó não sabia das estatísticas que eu sei: a cada 12 minutos uma pessoa negra é assassinada, nos últimos 10 anos, o assassinato de mulheres negras aumentou em 54%, mulheres negras ganham até 30% do valor que um homem branco com a mesma qualificação, negras são as que mais morrem por abortos, as que mais morrem no parto, as que menos estudam. Mulheres negras são a maioria da população brasileira. A minha avó sabia o que é ser negra de dentro da pele, sabia o que é ser mandada para trabalhar em casa de família com 10 anos de idade e parar de estudar, somente, por ser uma mulher negra.
Eu brinco dizendo que minha avó foi o Governo Federal da minha família, ela criou as cotas, por isso, minha mãe fez doutorado e conseguiu ascender socialmente. Por essa ascensão social, eu pude ser publicitária, uma profissão que exige que você seja privilegiado, uma profissão em que você pode demorar para ganhar dinheiro, pode fazer um estágio não remunerado, pagar uma Miami Ad School. Seus pais estão ali, pra te ajudar se você precisar. Nesse país, a maioria das mulheres negras não têm esse privilégio. Aliás, num país tão racista, a ascensão social é extremamente difícil.
Chega a hora do almoço. Um colega das antigas me chama para comer com meus novos colegas. Os papos seguem um protocolo bem conhecido: algumas palavras em inglês, novos restaurantes, novos drinks, viagens para lugares exóticos, aquela obra que fica no MoMa e a última vez que ele encontrou o Dedeco foi em Cannes. Acho engraçado quando me pronuncio sobre algum restaurante, um filme, ou quando fui Young Lions e parecem não acreditar que eu sei o que eu sei. Nada é mais novidade. Eu passei a vida inteira sabendo que uma mulher negra precisa trazer cópia autenticada em duas vias pra provar que sabe de alguma coisa. Na volta, penso no tanto de gente branca menos talentosa que eu vi crescer nos mais de 10 anos que sou redatora, o tanto de gente que teve um mestre, enquanto eu tinha que chegar pronta. Fico puta.
Alguns dias depois, meu DC chega até minha mesa e fala: Jô, você pode vir tirar uma foto? Claro que posso. Uma mulher e um homem já estão no local das fotos. Os dois são brancos de olhos verdes. Muito animado, o homem me pergunta: você sabe por que está aqui? Sem pensar, respondo: sei, ué. Por que eu sou negra. Ele emenda: é, bom…nós vamos mandar a foto pra matriz nos Estados Unidos. É importante que eles vejam que existe diversidade no ambiente de trabalho aqui do Brasil.
A verdade é que eu estou bem cansada de ser a única negra da Criação. Cansada de ter passado pela história que eu acabei de contar tantas vezes, que ela deixou de ser a história de uma agência só. Eu estou cansada de não ver outros negros nas salas de reunião, nas baias, nas faculdades e, nem mesmo, na propagandas.
Ao mesmo tempo, eu sei de algumas coisas que me dão esperança. Eu sei que existem medidas a longo prazo que podem criar uma elite negra: cotas nas universidades, nas empresas, melhoria do ensino público. Eu sei, também, que existem coisas que você pode fazer de dentro da sua agência, de dentro do seu lugar de privilégio na sociedade: veja que você é racista, encare o seu racismo, participe de eventos negros, quieto, ouvindo, aprendendo. Um dia, se vir racismo e não houver um negro que possa falar, fale. Peça mais negros dentro da equipe, um casting negro para participar daquela campanha, procure o movimento negro quando pensar em campanhas do tipo #somostodosiguais.
Quem sabe um dia, a gente não chega a ser 54% de uma agência?
Ah, aliás, eu e mais três amigos negros estamos criando uma consultoria. Traz sua conta pra cá.
(pretas na publicidade, 65/10 : a única negra na criação, por joana mendes)

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